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“As negras na América Latina têm sido extremamente excluídas dos debates contemporâneos”

Christen A. Smith é antropóloga, feminista negra, diretora do Centro de Estudos para Mulheres e Gênero e professora associada de antropologia e estudos da diáspora africana na Universidade do Texas, em Austin. Seu trabalho enfoca as dimensões de gênero da violência e resistência negra nas Américas.

Christen é organizadora da conferência “Contribuições intelectuais das mulheres negras para as Américas: perspectivas do sul global” que aconteceu no final de fevereiro, em Austin, no Texas, e da qual o Geledés e outras instituições da América Latina participaram.

Como revela nesta entrevista à coluna Geledés no debate, Christen usa a lente da performance para abordar os impactos da violência policial nas comunidades negras – particularmente nas mulheres negras.

Seu livro Afro-Paradise: Blackness, Violence and Performance in Brazil  (Afro-Paradise: Negritute, Violência e Perfomance no Brasil, em livre tradução) publicado pela University of Illinois Press, em 2016, narra as experiências dos negros brasileiros diante da violência policial e o uso do teatro para revelar seus aspectos insidiosos.

Em 2017, Christen lançou a Cite Black Women. – uma campanha para alertar sobre a forte tendência da sociedade em ignorar as contribuições intelectuais das mulheres negras e de não citá-las dentro e fora da academia. Em 2018, a Cite Black Women foi destaque do Times Higher Education de Londres.

Christen Smith e Sueli Carneiro, coordenadora do Geledés

Geledés – Qual a relevância da Conferência “Contribuições intelectuais das mulheres negras para as Américas: perspectivas do Sul global”, realizada na Universidade do Texas?

O objetivo da conferência era criar um diálogo entre as mulheres negras para que pudéssemos reescrever nosso entendimento sociocultural e histórico das Américas a partir da perspectiva das mulheres negras do Sul. Em outras palavras, um jeito de recontar a história de todas as Américas através da perspectiva das mulheres negras na América Latina. Dentro dessa perspectiva, como seria o mundo? E como ela mudaria nossa política e nossas visões socioculturais sobre o planeta? Como  impactaria em nosso entendimento sobre a produção do conhecimento e como iríamos refazer as histórias que contamos sobre nós mesmos em nosso hemisfério?

 Geledés – Quais são as semelhanças e diferenças entre os problemas enfrentados pelas mulheres negras na América Latina?

As mulheres negras na América Latina têm sido extremamente excluídas dos debates contemporâneos e dos estudos latino-americanos negros. As questões de raça, gênero, sexualidade e região de origem (uma categoria inerentemente estratificada) contribuem para silenciar vozes de várias maneiras. A dualidade do racismo e do sexismo, – ambos desenfreados nas esferas acadêmicas da América Latina-, torna as mulheres negras invisíveis nessas pesquisas. Elas foram apagadas dos estudos sobre a população negra dada à estrutura tradicionalmente patriarcal do continente.

As mulheres negras na América Latina foram omitidas também devido a uma outra razão: a ênfase excessiva nas experiências das mulheres negras anglo-saxônicas. Como resultado, é necessário diversificar radicalmente os discursos de cada um desses campos para trazer à tona as contribuições das mulheres negras latinas no pensamento político e filosófico das Américas. Esta conferência procura atender a essa necessidade, engajando-as nas contribuições intelectuais para as Américas sob a perspectiva “Sul” da América Latina.

Usamos esse termo “Sul” como uma maneira de inserir a América Latina no diálogo com o Circum-Caribe (uma região conceituada da costa da América do Sul para o sul dos EUA). Essa zona conceitual tem sido historicamente marginalizada no imaginário das pessoas como exótica, atrasada, e especificamente negra. Também imaginamos o Sul como uma estrutura que nos permite fazer recuar o colonialismo moderno de Estado-nação e as formações regionais que são classificadas por raça e gênero.

Fronteiras e limites nacionais não são configurações inocentes – são divisões políticas de terras submersas no colonialismo do poder e projetadas para criar divisões arbitrárias sobre o que é de fato terra indígena. Ao centralizar as experiências de língua espanhola, portuguesa, indígena e africana da América Latina, também procuramos mudar nossa interpretação do Sul de uma perspectiva imperialista do Norte para uma perspectiva de descolonização anti-anglófona.

As mulheres da América Latina fizeram significativas intervenções teóricas e filosóficas em toda a região a partir do período da conquista. Usando uma perspectiva transnacional e multidisciplinar, esta conferência repensa o papel do pensamento e da práxis das mulheres negras na definição do cenário sociopolítico e cultural das Américas nos últimos quatrocentos anos, centralizando suas experiências na América Latina e o movimento de mulheres negras nas Américas: migração, trânsito e fluxos culturais.

A conferência debate ainda, de maneira crítica, os movimentos transnacionalistas, cosmopolitas, entendendo as mulheres negras a partir das perspectivas de migração e linguagens. Ao entender as mulheres negras como agentes da teoria, movimento, política e cultura, essa conversa de dois dias as relança como teóricas e agentes transnacionais de mudança.

Em toda a América Latina, as mulheres negras compartilham uma história comum de subjugação, fruto do racismo e do sexismo que são filhos da escravidão – a experiência Amefricana, seguindo as colocações de Lélia Gonzalez. As mulheres negras eram e continuam sendo vistas como mão-de-obra de trabalho bruto e prestadoras de serviços em todas as Américas, desde a América Latina até os EUA e o Canadá.

Nossas irmãs colombianas relatam sobre os modos como são exploradas como trabalhadoras domésticas, sobre seus direitos territoriais ancestrais sendo seguidamente violados, sobre como estão constantemente expostas à violência extrajudicial. O mesmo acontece no Brasil, onde sabemos que as comunidades quilombolas negras também estão lutando para manter os direitos territoriais, combatendo a injustiça ambiental e a violência estatal e extrajudicial. Também podemos traçar paralelos com a experiência de Porto Rico, onde os recentes furacões e terremotos devastaram a ilha, pesando ainda mais nas comunidades negras e, consequentemente, nas negras.

O alcance imperialista dos EUA se estende por todas as Américas e está sempre ancorado em legados de escravidão e colonialismo que são reproduzidos nas políticas públicas contemporâneas. Esses legados também reproduzem configurações antigas de gênero e raça. Assim, nossas lutas muitas vezes ressoam entre si – lutamos através de nossa bolsa de estudos, nossa arte, nossa militância, isso ocorreu claramente na conferência.

As diferenças são frequentemente uma questão de história nacional. As mulheres negras que participaram de nossa conferência do México à Argentina compartilharam suas histórias sobre a luta para serem reconhecidas  como pessoas negras e as maneiras pelas quais as experiências regionais diferem.

Para elas, a luta é por reconhecimento – uma batalha que o Brasil e a Colômbia venceram décadas atrás, mas que ainda é incipiente para as mulheres negras em países que se chamam mestiços e insistem que não há negros no seu território. A luta é para obter visibilidade. Mas, curiosamente, elas ainda enfrentam os mesmos problemas de violência estrutural e física: direitos à terra, batalhas por representação e estética, direitos à justiça ambiental, e violência estatal.

As mulheres da América Latina fizeram significativas intervenções teóricas e filosóficas em toda a região a partir do período da conquista. Usando uma perspectiva transnacional e multidisciplinar, esta conferência repensa o papel do pensamento e da práxis das mulheres negras na definição do cenário sociopolítico e cultural das Américas nos últimos quatrocentos anos.”

Geledés – Um dos problemas mais graves enfrentados pelas mulheres nos países latinos é o aumento do feminicídio. Qual o motivo desse fenômeno e quais são as diretrizes para combatê-lo?

A questão do feminicídio é uma dos problemas mais urgentes para as mulheres na América Latina. Para entender este fenômeno,  acho importante ampliar nosso entendimento da violência doméstica para também comtemplar a relação entre o privado e publico. Ou seja, a estrutura patriarcal do estado nação nas Américas cria o ambiente fértil para a proliferação de violência contra a mulher; não é simplesmente uma questão de violência interpessoal, mas também uma questão de violência estrutural e a misoginia estrutural da nossa sociedade, que não pode ser desassociada da supremacia branca patriarcal, homofóbico e misógino.

Geledés- Quanto desse tipo de violência afeta mais as mulheres negras?

Acredito que o feminicídio afete a mulher negra muito mais nas Américas. A questão é que muitas vezes, pela América Latina, a face do feminicídio é da mulher branca. Isso tem a ver com a relação entre a percepção da feminilidade e da raça,  como a mulher negra é vista, como ela não é modelo do feminino. Neste sentido, precisamos reconhecer que essa violência, como qualquer outra forma de violência social e política, impacta mais a mulher negra mais por questões de racismo e sexismo. Somos oprimidas triplamente, para citar a intelectual de Trinidade Claudia Jones.

“O alcance imperialista dos EUA se estende por todas as Américas e está sempre ancorado em legados de escravidão e colonialismo que são reproduzidos nas políticas públicas contemporâneas.”

Geledés- Você fez uma extensa pesquisa sobre violência contra a população negra no Brasil que culminou em seu livro Afro-Paradise. Qual é a principal conclusão deste livro e por que você escolheu Salvador para estudar seus casos?

Meu livro Afro-Paradise analisa a violência policial no cidade de Salvador, na Bahia, e a relação entre esta violência contra os negros e a celebração da cidade como a meca da cultura negra no Brasil. Acredito que existe uma relação dialética e paradoxal entre o folclore da cultura negra e o genocídio do povo negro na Bahia. O livro desmistifica seu significado fazendo uma análise etnográfica, histórica e performática (levando em conta o enraizamento da história da escravidão no corpo negro através da violência estatal). Eu me apropriei das performances como uma ferramenta teoria e metodológica. Meu argumento no livro é que só conseguiremos compreender o paraíso afro se formos capazes de entender o significado dos interstícios do que é dito e do que não é dito. Há momentos radicais de violência cometida pelo Estado, como a morte de Joel Castro e a chacina de Cabula, que constroem o Estado-nação como um projeto racial.

Esses cenários se repetem no espaço e tempo do País desde a diáspora, desde o período de escravidão colonial, embora sempre com diferentes interações. A apropriação da performance vem da “Teoria Performática dos EUA” que soma-se à teoria antropológica com as teorias do corpo e teatro. A própria vida cotidiana pode ser entendida como uma performance, uma estrutura a ser lida e entendida como um fenômeno social.

A performance não é apenas as práticas limitadas e encenadas com as quais nos envolvemos no teatro, mas também as maneiras pelas quais realizamos nossas ações diárias. Meu trabalho segue com as contribuições de feministas negras como Saidiya Hartman, que mostra como a escravidão foi uma grande performance, que teve impactos materiais e perversos, construindo a ideia do negro como não humano através da encenação da escravidão.

No mesmo espaço onde negros escravizados foram chicoteados no Pelourinho em Salvador, hoje também existe um mercado turístico voltado à venda da cultura negra. Esse mercado dependeu de remoção e eliminação da comunidade negra trabalhadora que habitava este espaço. A violência policial, neste sentido, é a ferramenta que “permite” esta “celebração” do negro subjugando o povo negro para criar espaços de lazer para turistas e consumidores brancos. A violência estatal é uma grande ironia.

Escolhi escrever sobre Salvador por causa da história rica do povo negro nesta cidade e as minhas experiências colaboraram com militantes negros em Salvador na luta contra o genocídio do povo negro.

Geledés – Você tem acompanhado os casos de violência no Brasil ultimamente? Se sim, como você vê a questão do genocídio dos jovens negros brasileiros?

Acredito que o genocídio do povo negro no Brasil está ficando cada dia mais perverso. Agora declarou-se uma guerra aberta. Estamos vivendo um momento crítico no mundo, com o aumento da repressão e de uma renovação da extrema direita. Mais do que nunca, precisamos lutar para o fim da violência policial. Nossas vidas estão em risco.

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