Mudanças climáticas e os impactos na saúde da população negra

Artigo produzido por Redação de Geledés

O racismo mata e as alterações climáticas também matam

Em 1989, Spike Lee lançou “Faça a Coisa Certa”, filme que revela o cotidiano de uma comunidade pobre em um subúrbio dos Estados Unidos.  A convivência nada harmoniosa entre negros, hispânicos, coreanos e italianos é permeada por tensões constantes e relações que tecem uma linha entre entre discordar e permanecer. No filme, na Rádio do Amor, o DJ Love Daddy aconselha seus ouvintes sobre a onda de calor que se aproxima. “Fique em casa ou acabará com um capacete de plástico na cabeça”. Nas ruas, os mais velhos, sentados na calçada, falam sobre o calor extremo. 

Esse calor abordado por Spike Lee  conduz a narrativa do filme e faz parte do que aconteceu durante a chamada Seca de 1988, período em que ondas de calor extremas aliadas a tempestades de poeira responsáveis pela devastação de plantações e diversos incêndios em florestas, além de gerar um prejuízo considerável para o governo dos EUA. Na época, os dados mostravam uma média de 10 mil mortes em decorrência da onda de calor –  que durou 55 dias – algo registrado apenas em 1934 e 1936 no país.

As mudanças climáticas impactam diretamente na saúde da população e o combate às alterações climáticas poderá ser a maior oportunidade para melhorar a saúde global neste século. No entanto, as conversas sobre o impacto das mudanças no clima na saúde  são muitas vezes incompletas, dando-se pouca atenção à discriminação estrutural e à necessidade de haver justiça racial. Juntos, o racismo e as alterações climáticas interagem e têm efeitos desproporcionais nas vidas das populações negras. Os impactos recaem desproporcionalmente sobre grupos que já estão em desvantagem. 

Adicionar a desigualdade de gênero e raça às mudanças climáticas apresenta consequências, especialmente expondo mulheres e meninas a riscos sobrepostos, reconhecendo a interseccionalidade de gênero e raça no contexto das desigualdades. A pesquisa “Nossas palavras: vozes de mulheres afrodescendentes pela justiça reprodutiva e climática”, indica que a mudança climática pode piorar os resultados da saúde materna. Mostra como tragédias climáticas trazem impactos na realização dos direitos humanos, com a interrupção de serviços essenciais de saúde, aumento na probabilidade de ocorrência de violência baseada em gênero e aumentar as vulnerabilidades a práticas nocivas, como o casamento infantil.

As mudanças climáticas também aceleram a propagação de doenças infecciosas potencialmente letais. O relatório Lancet Countdown destaca que o aquecimento dos oceanos aumentou a área litorânea mundial adequada para a disseminação de bactérias Vibrio (que podem causar doenças como cólera) em 329 km a cada ano, desde 1982. Isso coloca 1,4 bilhão de pessoas em risco de diarreias e infecções graves, além de sepse. Até meados do século, os casos devem aumentar 39%. A incidência de dengue cresceu quase 30% em quatro décadas, com potencial de que a transmissão da enfermidade se eleve mais 37% em 2050.

Aproveitando o rápido avanço da ciência da detecção e atribuição, uma nova análise do Lancet Countdown (2023) mostra que mais de 60% dos dias que atingiram temperaturas elevadas que ameaçam a saúde em 2020 tiveram uma probabilidade duas vezes maior de ocorrer devido a alterações climáticas antropogénicas; e as mortes relacionadas com o calor de pessoas com mais de 65 anos aumentaram 85% em comparação com 1990-2000, substancialmente superior ao aumento de 38% que seria esperado se as temperaturas não tivessem mudado.

A crise climática é uma crise injusta e interseccional para os afrodescendentes. O reconhecimento dos impactos desproporcionais das mudanças climáticas na saúde, nos direitos e no bem-estar dos grupos racial, étnica e nacionalmente marginalizados tem aumentado, mas ainda aparece timidamente em negociações e mesas de decisão sobre os acordos de clima no mundo. As comunidades de afrodescendentes encontram-se entre as menos responsáveis pelas mudanças climáticas no mundo, embora enfrentem os impactos mais graves e sejam muitas vezes as pessoas mais afetadas que vivem nas áreas em alta vulnerabilidade. 

As crises ecológica, de biodiversidade e climática estão interligadas e afetam os territórios vulnerabilizados simultaneamente. O racismo ambiental configura uma das intersecções mais acentuadas entre as preocupações com o racismo e o clima e o meio ambiente. Inclui, por exemplo, o “recurso a práticas racistas para determinar quais comunidades são contempladas com infraestruturas de proteção da saúde, como espaços verdes, e quais são contempladas com rodovias e complexos industriais prejudiciais à saúde”.

O Acordo de Paris, assinado em 2015,  descreve como as partes “devem, ao tomar medidas para fazer frente às mudanças climáticas, respeitar, promover e levar em conta as respectivas obrigações em matéria de direitos humanos, direito à saúde, direitos dos povos indígenas, das comunidades locais, dos migrantes, das crianças, das pessoas com deficiência e das pessoas em situações em situação de vulnerabilidade e o direito ao desenvolvimento, bem como a igualdade de gênero, o empoderamento das mulheres e a equidade entre gerações”. Esses pontos do acordo não são tratados com mais intensidade e firmeza pelos negociadores ou chefes de Estado. Direitos Humanos ainda é um tabu nas discussões climáticas, que concentram olhares para os financiamentos. 

Saúde Quilombola

As comunidades quilombolas dependem da terra e dos recursos naturais. Recursos para seu desenvolvimento cultural, social, religioso, ancestral e econômico. Sob um Estado colonial brasileiro, os quilombolas sobrevivem com instabilidade jurídica em seus direitos territoriais, combinados ao fraco acesso aos cuidados de Saúde e Educação. Em diversas regiões do País, como na Amazônia, as disputas por terras entre quilombolas e outras populações tradicionais são intensificadas pela mineração e pelo agronegócio. 

O aumento do desmatamento combinado à intensificação da estação seca piora as emissões de carbono, o risco de incêndio e o estresse do ecossistema. Os resultados negativos para a saúde associados à insegurança alimentar incluem anemia, asma, problemas cognitivos, agressividade e ansiedade, depressão e suicídio entre crianças e problemas de saúde mental, diabetes, hipertensão, hiperlipidemia e sono deficiente entre adultos. Os eventos extremos, como tempestades, dificultam ainda mais o acesso a comunidades, deixando as populações sem cuidados básicos de saúde. A perda de biodiversidade é problema grave nas regiões, pois diminui os nichos ecológicos ocupados por predadores de espécies vetoriais e também cria novos nichos para vetores, hospedeiros e patógenos alternativos. Além disso, o desmatamento e a perda de habitat são frequentemente acompanhados de agressões psicológicas (estresse, desnutrição e aumento do contato com poluentes), o que pode afetar o sistema imunológico cronicamente e aumentar a suscetibilidade a patógenos.

Doenças do coração e mudanças climáticas

Os adultos mais velhos e os indivíduos negros não hispânicos nos Estados Unidos muitas vezes correm o risco de enfrentar efeitos adversos à saúde devido ao calor extremo. Em  2018, os negros americanos tinham 30% mais probabilidade de morrer de doenças cardíacas do que os americanos brancos. Eles também desenvolvem doenças cardíacas em idades mais jovens. Este risco acrescido deve-se, em parte, ao subinvestimento histórico e à contínua falta de infra-estruturas nas comunidades marginalizadas. Os residentes destas áreas muitas vezes não têm acesso a ar-condicionado e sofrem com o  efeito de ilha de calor urbano , onde as ruas ficam excessivamente quentes. Como resultado, os autores do estudo (MENCIONAR AQUI O ESTUDO) afirmam que os residentes nestas áreas estão entre os mais vulneráveis ​​aos impactos das alterações climáticas na saúde. O estudo “ Mudança projetada na carga de mortes cardiovasculares excessivas associadas ao calor extremo em meados do século (2036–2065) nos Estados Unidos contíguos”, estimou que em meados do século a quantidade de mortes cardiovasculares relacionadas com o calor nos EUA subiria até 233%, à medida que as alterações climáticas aumentam a intensidade, frequência e duração do calor extremo.

Anemia falciforme

As mudanças climáticas podem aumentar o risco de anemia falciforme de várias maneiras, é o que diz o artigo “Determinantes ambientais da gravidade da doença falciforme”, de . Por exemplo, as mudanças climáticas podem levar a um aumento da poluição do ar, com a possibilidade de piorar os sintomas da anemia falciforme. Além disso, as mudanças climáticas podem levar a um aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos, como enchentes e secas. Esses eventos têm chances de levar a uma exposição maior a patógenos, o que pode aumentar o risco de infecções em pessoas com anemia falciforme.

A anemia falciforme é uma doença genética que afeta os glóbulos vermelhos. Os glóbulos vermelhos são responsáveis ​​por transportar oxigênio para as células do corpo. Na anemia falciforme, os glóbulos vermelhos são deformados e têm dificuldade de transportar oxigênio. Isso pode levar a uma série de problemas de saúde, incluindo dor, infecções e anemia. O problema é predominante entre indivíduos negros: segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, cerca de 8% da população negra (2021) foi diagnosticada com a anemia falciforme.

Ainda no Brasil, entre 2014 e 2020, a média anual de novos casos de crianças diagnosticadas com Doença Falciforme no Programa Nacional de Triagem Neonatal foi de 1.087, em uma incidência de 3,78 a cada 10 mil nascidos vivos. Estima-se que, atualmente, há entre 60 mil e 100 mil pacientes com Doença Falciforme no País, segundo dados do Ministério da Saúde.


Leticia Leobet – Assistente de Projetos de Geledés -Instituto da Mulher Negra

Mariana Belmont – Assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra, faz parte do conselho da Nuestra América Verde e da Rede por Adaptação Antirracista

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