Mulheres, gozemos!

Recentemente li um post no Facebook que dizia: “Não finja orgasmo. Deixe o cara saber que ele fode mal”. Pode parecer indelicado à primeira vista, porque estamos acostumadas a acreditar que sexo bom é aquele em que o homem se sente plenamente satisfeito, mas esta frase é muito mais que apenas uma excelente orientação para um sexo de qualidade. É claro que, em se tratando de qualquer relação, seja sexual ou não, as afinidades contam muito. Mas esta frase não fala sobre uma mera questão de afinidade (que faz com que alguns casais se dêem melhor na cama e outros menos), porque quando se pensa em afinidade, necessariamente se pensa em pares.

por Camila Castanho Miranda via Guest Post para o Portal Geledés

Primeiramente, falemos do óbvio: quem se acostuma a fingir jamais exigirá para si mesma o prazer que merece e pode alcançar. Já olhando para os homens, podemos concluir que quem se acostuma com uma mulher fingindo permanecerá acreditando que está mandando muito bem quando na verdade não está, e talvez nunca esteja. Todos merecem um sexo sincero e gostoso.

Antes de seguirmos adiante, quero deixar claro que falarei aqui de relações heteronormativas, por serem as que mais conheço. Talvez algumas reflexões sejam comuns a todas as formas de relações, mas prefiro não arriscar – deixemos as falas para os protagonistas. Dito isto, vamos lá!

O que há por trás do fingimento? 

Qualquer fingimento é um desacordo com o que realmente se sente, logo, é abdicar de si para agradar ao outro. Grande parte das mulheres do mundo nunca teve um orgasmo, não sabe do que se trata, ou ainda pior: finge orgasmo pra acelerar o fim do ato sexual. Estas informações estão bastante difundidas – é só fazer uma busca rápida no Google, mas infelizmente dados por si só não mudam fatos. Este é mais um dos efeitos cruéis do machismo.

Nós, mulheres, somos educadas para enxergar a alta libido como distúrbio e o orgasmo como algo masculino. Masturbação é tema secreto, coisa que não se comenta com as amigas e preferencialmente não se faz. Enquanto isso, os homens crescem vendo revistas e filmes para se excitarem e se tocarem, inclusive coletivamente – afinal são homens e precisam se “aliviar” – com mulheres que fazem caras e bocas milimetricamente planejadas para iludir o público masculino padrão.

Quando o produto consumido são vídeos caseiros – comumente compartilhados de forma desrespeitosa e sem a autorização das moças (apesar de não somente), o primeiro raciocínio dos homens, a babar, costuma ser: – “Gostosa!”. Muitos destes mesmos homens pensam que estas mulheres são “vadias”, “putas” e que só servem para transar – e obviamente transar não inclui o prazer delas, afinal, fazer boas caras e bocas já é estar gostando. Não excluo a possibilidade de elas estarem gozando, mas por tudo o que sabemos – e por alguns vídeos que já vi – as chances são muito pequenas, infelizmente. As fingidoras profissionais, prostitutas e atrizes pornô, que têm na internet uma importante ferramenta de trabalho, são parâmetro de bom sexo para os homens, afinal elas encarnam aquilo que é socialmente visto como representação do prazer feminino. Os homens, por sua vez, não enxergam ou não querem enxergar que elas estão a trabalho, com o objetivo de ganhar dinheiro (como em todos os trabalhos remunerados), e fazer com que eles se sintam maravilhosos é o que garante que elas permaneçam empregadas. Gozar, caso elas estejam entre a pequena parcela de mulheres que sabem o que é isso, é coisa que fazem com seus parceiros, com quem escolhem realmente. Mas isto não é garantido, nem para as profissionais.

A chamada mulher moderna tem muitos papéis, e com isso muitas cobranças também. Além de ser boa dona de casa, boa esposa, boa mãe, boa profissional, boa motorista, ser magra (com bunda e seios fartos), ser inteligente, ser durona e delicada, a mulher também precisa ser boa de cama. Nenhuma mulher quer ser frígida. Os homens querem mulheres que amem estar com eles, e dar esta sensação a eles é garantir – em tese – que ele não vai procurar “fora” o que falta “dentro” de casa. É a velha história que aprendemos desde cedo: – “é preciso ser santa na mesa e puta na cama”. Hoje, dependendo do contexto, podemos associar a palavra puta ou similares à palavra liberdade, como ocorre na Marcha das Vadias. Porém, neste caso, ao mesmo tempo que ser santa na mesa é ficar calada e sorrir, ser puta na cama é fazer o homem se sentir o máximo, sentir que tem uma mulher sensual e atrevida na sua mão. Em nenhum momento aprendemos que “ser puta na cama” é sentir prazer.

Mulheres odeiam a si mesmas – e isto vai para muito além dos corpos. Nós odiamos o que vemos no espelho porque raramente é o que vemos nas revistas, especialmente em tempos de photoshop. Odiamos também os corpos de outras mulheres, enquanto invejamos as que têm – ou supostamente têm – o corpo que gostaríamos de ter. Nos odiamos porque somos educadas para competir umas com as outras, para nos sentirmos ameaçadas por nossas irmãs, para acreditarmos que os homens, quando não encontram o querem “em casa” procuram “na rua”, e cabe a nós garantirmos que eles sejam plenamente satisfeitos em casa, pois caso eles pulem a cerca a culpa é de nossa total incompetência (como já foi citado acima). Quando atingimos certa idade (e falo por mim, que ainda nem cheguei aos 30) nos sentimos velhas, caídas, feias, e começamos a achar sentido em sermos trocadas por meninas de 18. Não raro as novelas e filmes mostram homens de 50 com meninas de 20. O contrário, quando ocorre, nunca é posto com naturalidade, é sempre quebra de tabu ou relação por interesse financeiro.

Por tudo isto e mais um pouco, nós mulheres vivemos com medo da solidão, e tentamos incessantemente seguir protocolos que nos garantam “segurar um homem”. Fingir o orgasmo é, deste modo, uma das maneiras de alimentar o ego masculino, fazendo-o pensar que fode maravilhosamente bem e que tem um pau sensacional. Quanto a nós, não precisamos de mais nada se já garantimos um homem. Lamentável. Para além de todo o egoísmo, enxergar as mulheres como objetos na hora do sexo é também ignorar um dos maiores prazeres que há: gozar a dois. Todos os bons amantes do sexo sabem que não há nada mais gostoso que sexo cheio de desejo de ambas as partes.

Que mulheres são vistas como objeto?

Todas. Absolutamente todas. Mulheres que correspondem ao padrão das revistas são objeto de desejo e comumente vistas como “feitas para o sexo”, assim como troféus, quando conquistadas. Mulheres que não correspondem em nada ou quase nada a estes padrões, são objeto de escárnio – afinal, se não servem para os homens não servem para nada (como se todos os homens sentissem desejo pelo mesmo exato padrão de mulher). O auge deste caso de objetificação está nas inúmeras falas que defendem que estuprar uma mulher “feia” é um favor para ela – fala que obviamente só faz sentido para um homem ruim de cama – o que também pode ser traduzido como machista ou misógino- que acredita que só meter seu pau numa buceta é sexo e é bom.

Somos ensinadas, desde meninas, a cobrir nossos corpos, sob pena de todo tipo de violência (inclusive a sexual), ao mesmo tempo em que somos incentivadas a mostrar o corpo de forma sensual (decotes e cortes que mostrem as partes preferidas dos homens). O equilíbrio entre sensualidade e vulgaridade é resultado de uma equação impossível, porque está sempre sujeito ao olhar externo e não ao bem-estar (ou ao estar bem) com o próprio corpo e com a forma de vesti-lo. Aprendemos que precisamos estar com um corpo ideal para não ficarmos abandonadas, vencendo esta grande batalha que é conseguir um homem. Isto sem falar no chavão, hoje utilizado contra ele mesmo em brincadeiras que o satirizam, que diz que a mulher precisa ser “sexy sem ser vulgar”, afinal, não ser sexy é ficar sozinha, e ser vulgar é também ficar sozinha (por ser puta), e ficar sozinha é o destino mais cruel que uma mulher pode ter.

Mulheres feministas, mulheres que reclamam dos homens e do machismo, são obviamente frígidas. Não gostam de homens, não gostam de sexo, não servem para serem mães, não servem para serem mulheres porque não aceitam sua posição “natural” de objetos. Mas sobre isso falaremos mais adiante.

Mas algumas mulheres são mais objetificadas que outras. 

Falemos então de Carnaval. 

Por mais que minha carne seja de carnaval, e meu coração igual – como diziam os Novos Baianos – meu feminismo também está na apoteose. Mulheres muito vestidas ou com corpos fora do estereótipo esperado (malhadas, saradas, tudo duro e bem em pé) não merecem tanta atenção das câmeras, que por sua vez, estão frequentemente dando close nas mesmas partes: seios e bunda. A posição da mulher na Sapucaí exacerba a objetificação de todos os dias. Para além das questões de gênero, há uma outra questão presente “na tela da TV, no meio desse povo”: o racismo. A “mulata” é um grande símbolo do Carnaval e também de desejo sexual masculino. Mais de uma vez escutei de homens: -“Conheci uma mulata sensacional!”, ou -“Peguei uma mulata, passista de escola de samba”, como se isto fosse um troféu.
Para refletirmos sobre isso, trago aqui as palavras de uma amiga (cujos pensamentos vêm do mesmo lugar onde brotam os fios do seu imponente Black Power):

“A mulata/Globoleza é a representação da visão branca e machista da mulher negra como objeto sexual. Ela existe para o homem branco fantasiar. Ou seja, é o símbolo do racismo nacional. O que mais me irrita é que ela vende a ideia de uma suposta democracia racial. Por isso está sempre sorrindo, feliz com o pouco que tem da sociedade. Digo isso porque a objetificação da mulher negra está atrelada diretamente ao racismo.

Além disso, tem um outro ponto importante. A mulher objetificada/vendida no carnaval é a “mulata”, pele despigmentada, traços finos. Lembro que tivemos uma globeleza bem pigmentada e ela foi humilhada pelos telespectadores. Compararam ela ao Dadinho do filme “Cidade de Deus”. Ela tinha o nariz como o meu, cabelo 4C, o mais crespo de todos. A sociedade não aguentou esse símbolo. Hoje temos uma globeleza que alimenta o imaginário da galera.

(…) Isso tudo pra dizer que essa discussão é complexa e se relaciona também a pigmentação dessa mulher negra. Se ela for mulata, é objetificada, mas poderá ser escolhida para casar. Quanto mais escura for a pele, mais complicada é a questão.”

Desde a época da escravidão, a mulher negra é vista como perfeita para o sexo e para o trabalho, mas para casar – um ato social, de exposição pública, não. Quanto mais objetificada a mulher é, menos se pensa nos seus sentimentos e desejos, já que objetos não sentem. E se as mulheres brancas sempre sofreram durante o período histórico da escravidão, as mulheres com as quais os homens não tinham nenhum compromisso social sofreram muito mais. As mulheres escolhidas para o sexo, sofriam com os inúmeros estupros, as mulheres escolhidas para trabalhar sofriam com outras violências físicas e simbólicas. E as heranças disso não findaram.
Mulheres não são troféus, troféus não gozam. “Mulatas” não são troféu, negras não são troféu, morenas não são troféu, loiras não são troféu, ruivas não são troféu, orientais não são troféu, magras não são troféu, gordas não são troféu – e muito menos qualquer homem é troféu pra nenhuma delas. Estamos todas cansadas. Basta!

Depois de toda a opressão, falemos sobre riscos de ser uma mulher que goza:

Você é mulher. Você se conhece, sabe o que é gozar, quer seu direito ao orgasmo garantido. Você opta por somente se relacionar com homens que lhe proporcionem isto. Por ser esta mulher, precisa estar preparada para alguns riscos.

O risco de você demorar a encontrar este companheiro. Os homens não são educados para fazerem uma mulher gozar. Talvez você precise ensinar. Talvez valha a pena. Talvez.

O risco de, se você encontrar este homem que te faz gozar maravilhosamente bem, cair na armadilha de achar que ele é único. Gata, ele não é único, e muito menos insubstituível. Ele não pode te fazer feliz só na cama.

O risco de, caso você não o encontre, ter dificuldades para gozar sozinha. Não exercitamos e portanto não sabemos nos masturbar. Estudar é sempre bom, e atualmente há muita informação sobre este tipo de autoconhecimento (procuremos!).

O risco de atrair homens babacas, que acham que se você fala abertamente sobre sexo, você faz sexo com qualquer um. Não acredite nisso, não seja esta mulher somente para comprovar sua liberdade. Você não precisa provar sua liberdade pra ninguém.

Por fim, o risco de se sentir sozinha. Mas quando isto acontecer, lembre da vovó: “antes só que mal acompanhada”. A solidão dói, mas ter que fingir que está feliz dói mais ainda.

Deve haver mais riscos, mas nenhum deles é maior que a delícia de um bom orgasmo. Portanto, gozemos.

E como espero que não somente mulheres estejam lendo este texto, encerro-o num tom de “fica a dica”, com um trechinho da música Cinema Americano, de Thaís Gulin:

“Pra ser bom de cama é preciso muito mais do que um pau grande. É preciso ser macho, ser fêmea, ser elegante”.

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