Carl Hart critica a internação compulsória de usuários de drogas

Ainda no Brasil, discutindo as políticas de combate as drogas aplicadas nos Estados Unidos e no mundo, o neurocientista estadunidense Carl Hart defende a informação como um meio de reduzir e discutir o consumo de drogas, e afirma ser contra a internação compulsória: “Não importa se é legal ou ilegal, o que importa é que não é ético”, afirma Hart. Para ele a redução de danos é mais benéfica que a guerra às drogas: “A política de combate só é benéfica para aumentar os orçamentos de segurança e favorecer aqueles ligados a essa indústria. Dizer que o crack é responsável pela criminalidade é mentir. No Brasil, antes da invasão das drogas, os moradores de favela frequentavam a universidade? As drogas podem exacerbar vários problemas, mas não são as causadoras”, afirma

O primeiro neurocientista negro e professor titular da Universidade de Columbia, e um dos maiores especialistas sobre o uso de drogas nos Estados Unidos, Carl Hart, continuou o seu debate – também já publicado em reportagem aqui no Favela 247 − sobre a política de drogas nos Estados Unidos e no mundo durante a sua passagem no Brasil. Seguindo com a discussão, Carl, comentou as medidas de internação compulsória dos usuários de drogas e os mitos que pairam sobre o consumo de drogas, citando presidentes americanos que assumiram o uso das substâncias ilícitas, não como exemplos de que o consumo deva permanecer e ampliar, mas sim como um meio de mostrar que os atrasos e consequências do uso propagados pelo mundo são mais lendas do que fatos, e que atrapalham toda a discussão: “Coletamos dados durante muitos anos e sabemos que o percentual de pessoas que usa cocaína ou outras drogas e não se vicia é de 89%. Os últimos três presidentes americanos usaram drogas. Obama contou ter consumido cocaína algumas vezes; Bush disse que fumou maconha; Clinton também, apesar de tentar nos convencer de que não tragou. Não falo isso como demérito, mas para mostrar que se pode usar drogas e ser produtivo”, afirmou Hart em entrevista publicada pela Folha de São Paulo.

Em relação à internação compulsória, praticada no Rio de Janeiro, o professor afirma que o principal problema da medida é o ato antiético que esta representa, independente de ser ou não legal, além de ser uma ação de invisibilidade, que se propõe a retirar das ruas e vizinhanças esses usuários, independente de onde e como irão ficar recolhidos, “livrando” sua vizinhança do convívio diário: “Não importa se é legal ou ilegal, o que importa é que não é ético. Mas, para entender isso, é preciso combater alguns pressupostos a respeito do crack e da cocaína. Muitas pessoas acreditam que quem usa droga fica fora de si, sem controle, o que é falso. Em alguns casos, a droga pode inclusive melhorar uma pessoa. A internação compulsória só impede que você veja aquela pessoa drogada pela sua vizinhança”.

A proposta defendida por Hart lembra o trabalho desenvolvido pela prefeitura de São Paulo, responsável pela criação do programa “Braços Abertos”, que acolhe dependentes químicos em hotéis da região central da capital e oferece bolsa para que eles trabalhem no serviço de limpeza urbana da cidade. O usuário recebe um salário mínimo e meio, que inclui os gastos com alimentação, hospedagem, além de R$ 15 por dia de trabalho e seringas e materiais para o consumo próprio de drogas, reduzindo assim os danos do consumo, como a transmissão de doenças entre usuários.

Social, esse é o problema das drogas, segundo afirma Carl, que vê a solução em duas frentes, uma na área da educação e outra na esfera legal, jurídica, conforme publicado também na entrevista dada a Folha de São Paulo: “Do ponto de vista legal, defendo a descriminalização de todas as drogas, sem exceção. Isso não significa legalizar, mas tirar da esfera criminal. Do ponto de vista de educação, proponho o ensino do básico sobre o uso de drogas” e completa, explicando a afirmação sobre o caráter educacional no processo de educação sobre a temática: “Coisas práticas, como dosagem. Quando há aumento de dose, aumenta-se o risco. Também precisam aprender que há organismos mais tolerantes. É necessário ensinar onde, como e com quem usar”.

 

 Fonte:  Brasil 247

+ sobre o tema

O Estado emerge

Mais uma vez, em quatro anos, a relevância do...

Extremo climático no Brasil joga luz sobre anomalias no planeta, diz ONU

As inundações no Rio Grande do Sul são um...

IR 2024: a um mês do prazo final, mais da metade ainda não entregou a declaração

O prazo para entrega da declaração do Imposto de Renda...

Mulheres em cargos de liderança ganham 78% do salário dos homens na mesma função

As mulheres ainda são minoria nos cargos de liderança...

para lembrar

Após depoimento de Lula, jurista pede para retirar artigo de Moro em livro

“Sérgio Moro me deixou triste e decepcionado com tudo...

Mil cópulas não valem um grande beijo – por : Fabio Hernandez

Tenho, no meu quarto, uma reprodução...

O que é, quem fez e quem está no dossiê antifascista

O STF (Supremo Tribunal Federal) iniciou hoje o julgamento...

‘O 25 de abril começou em África’

No cinquentenário da Revolução dos Cravos, é importante destacar as raízes africanas do movimento que culminou na queda da ditadura em Portugal. O 25 de abril...

IBGE: número de domicílios com pessoas em insegurança alimentar grave em SP cresce 37% em 5 anos e passa de 500 mil famílias

O número de domicílios com pessoas em insegurança alimentar grave no estado de São Paulo aumentou 37% em cinco anos, segundo dados do Instituto...

Fome extrema aumenta, e mundo fracassa em erradicar crise até 2030

Com 281,6 milhões de pessoas sobrevivendo em uma situação de desnutrição aguda, a ONU alerta que o mundo dificilmente atingirá a meta estabelecida no...
-+=