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Coisa de preto e coisa de branco

Tenho notado que alguns amigos brancos me fazem convites seletivos. Explico o que isso significa, me chamam, exclusivamente, quando querem transitar por espaços de pretos.

por Lígia Santos Costa¹ enviado para o Portal Geledés

AdobeStock

Nessas horas me sinto um greencard de acesso ao território da negrada, como se comigo, ao serem interpelados sobre o que estão fazendo alí possam dizer: “Calma! Eis aqui minha amiga preta.” e assim teriam a circulação liberada.

Essa coisa de coisa de preto e coisa de branco é muito interessante. Certa vez recebi o convite de uma amiga para ir a sua casa jantar e seguido ao convite, enfeitada por risos de brincadeira, veio a recomendação: “Se comporte, viu!”. (Não! Não pense que não aprendi boas maneiras com meus pais. Até já me disseram que sou bem educadinha). Mas acho que meu problema é minha língua, tenho um pouquinho de dificuldade em relativizar brincadeirinhas as quais considero ofensivas. Na hora, a graça me faltou e até lembrei-me duma música que minha mãe cantava, com sua memória musical invejável, especificamente de uma estrofe:

“Até me pediu

Prá pisar de mansinho

Porque sou da cor

Eu sou escurinho…

Festa de Bacana – Os Originais do Samba

Curiosamente, não consegui dizer, de pronto, o quanto aquela fala não tinha me agradado. Engoli a perplexidade e o desconforto e preferi manter o tom da “brincadeira” e aceitei o convite. Porém a inocente graça não teve fim naquele momento e ao chegar a casa dessa amiga, fui recebida com risos e a indicação de que para mim estava reservado um banquinho, daqueles infantis de madeira, para sentar e não parou por aí, continuou e, ao sentar à mesa, foram colocados, a minha frente, prato e caneca plásticos. Naquele momento fiquei convencida de que deveria ter declinado do honroso convite e ter ficado em casa. Nesse mesmo jantar um parente dessa amiga escreveu meu nome errado, aí pensei, agora também poderei brincar, satirizando o erro, mas ninguém riu e até outra amiga, com ar de reprovação, aproximou-se de mim, dizendo o quanto era horrível o que eu estava fazendo, um constrangimento. Nunca mais fui convidada para jantar naquela casa. Confesso que se fosse não aceitaria, porém tenho uma leve desconfiança de que essa amiga já cumpriu a sua cota de simpatia da vida com negros naquele jantar. Não sei! É só uma suspeita.

Depois desse episódio, entendi que o racismo é um estado subversivo. Ele extrapola controles e não adianta um desavisado racista pensar que está livre dele, pois as palavras, atos e crenças são indomáveis, quando menos se espera, avançam. Ainda quero escrever sobre isso, mas por hora, peço que apure a memória quanto a episódios de racismo noticiados, os mais recorrentes, ou surgem por um acesso de fúria, quando uma pessoa branca respeitosa, ao ser contrariada por uma pessoa preta, é tomada por um estado de ira e a forma preferida para dissipar a energia raivosa, para não adoecer, é bradar insultos racistas; ou surgem por um desejo incontido de indivíduos brincalhões de criar apelidos, piadas e gracejos de teor racial. É isso, a ira e o riso transitam em terrenos muito parecidos.

Diante dessa constatação, conclui que, se posso acolher e apresentar esses amigos ao meu mundo e dos meus iguais, por que não sou, por eles, convidada para participar de suas quebradas? Sim! Brancos têm suas próprias quebradas. Por exemplo, já reparou que boa parte de colégios da elite branca têm nome de santos católicos? E as festas, lembra da moça da Vogue? Na época, li que a temática da festa foi “Brasil Colônia Escravocrata”. Um luxo! Mas já imaginou alguma festa da negrada com esse tema? Tá de brincadeira!

Ao contrário do que muitos pensam, brancos não são neutros e universais, mesmo que precisemos lembrá-los, por muitas vezes, disso. Brancos também são racializados, compõem uma parte do todo, ainda que se neguem a aceitar que não são donos do negócio todo. Quanto a isso, tenho uma hipótese: talvez pessoas brancas ao se pensarem universais, acreditem que o direito de circular por todos os lugares é uma garantia adquirida geneticamente e só têm precisado dos amigos pretos, por causa da rebeldia de alguns outros pretos que, erroneamente, insistem em se posicionar contrário ao seu privilégio de livre circulação, afinal, têm garantido em Constituição o direito de ir e vir. Digo que é direito dos brancos, porque os pretos constituem a maioria da população carcerária do país. Segundo Juliana Borges (2018, p.14), “64% da população prisional é negra, enquanto que este grupo compõe 53% da população brasileira”. Nós, pretos, nem precisamos consultar estatísticas para sabermos que compomos a maior parte do grupo de pessoas em estado de privação de liberdade, pois presenciamos diariamente os nossos recebendo sentenças, quando não de morte, sem julgamentos, ou mesmo, mal julgadas.

Há pouco tempo uma famosa, em entrevista, comentou com outra famosa que a filha a havia perguntado se tinha certeza de não querer experimentar maconha. Enquanto para brancos o uso da maconha, por exemplo, pode se passar por uma recreação despretensiosa, o consumo por pretos tende a ser criminalizado.

O número de pretos encarcerados, por terem sido flagrados com gramaturas ínfimas de maconha, é enorme. Conforme o Parágrafo 2º, do Art. 27, da Lei, “in e verbis”:

Art. 27 As penas previstas neste Capítulo poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, bem como substituídas a qualquer tempo, ouvidos o Ministério Público e o defensor […]

Parágrafo 2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e a quantidade da sustância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.

A partir do que diz a Lei, imaginemos duas cenas: a primeira, um jovem branco combina com a galera assistir o por do sol na praia em frente do apartamento onde mora e é abordado por policiais que encontram inocentes trouxinhas de maconha no seu bolso para presentear os amigos; a segunda, um jovem negro reunido com amigos, na pracinha da comunidade, também é abordado por policiais que igualmente encontram trouxinhas de maconha em seu bolso para compartilhar com os amigos. Nessas circunstâncias, quem será o consumidor e quem será o traficante?

Grilhões reais e imaginários racializam homens e mulheres pretos e impõem faixas limítrofes, demarcando seus lugares. Do lado de cá da negrada, território precisa ser resistência e não zona de livre trânsito. Para ultrapassar a faixa é preciso chegar de mansinho, pronto para aprender, liberto do vício de explorar, assim fica bom para os dois lados, cada um do seu lugar poderá enxergar o outro respeitosamente.

Quando der para ser assim, quem sabe até receba outro convite daquela minha velha amiga? Quem sabe eu até aceite?

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¹Psicóloga e professora de Literatura. Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens – PPGEL/UNEB, Campus I. E-mail. [email protected]

Referências

BRASIL. Lei n. 11.343, de 23 de agosto de 2006. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ Acesso em: 13 de maio 2019.

BORGES, Juliana. O que é encarceramento em massa?– Belo Horizonte – MG: Letramento: Justificando, 2018.

 


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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