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Compaixão e Negritude: Consciência de dor como relação de (Auto)Cuidado

by NICHOLAS GITHIRI

Por Cainã Nascimento enviado para o Portal Geledés

Pensar em compaixão, enquanto homem negro, sempre me pareceu algo muito abstrato e inalcançável, algo que não era pra mim. Diferente da definição do Dalai Lama[1]que vê compaixão simplesmente como uma atitude de perceber dor e o desejo de alívio, com compromisso, respeito e responsabilidade, a minha forma de ver se afastava muito de minha vivência. Compaixão ficava em um pedestal, ficava longe da minha humanidade, ou demonizada como uma forma hipócrita de ver um mundo tão dolorido e doloroso como o nosso.

As caminhadas da vida foram me mostrando que o brilho não estava em colocar compaixão em um pedestal, mas justamente no contrário, afinal, nada mais humano do que sentir dor e querer sair dela, certo?

Compaixão é então esse processo natural nas nossas vidas que envolve como a gente pensa, sente e age. Reconhecemos dor; conseguimos entender ela como uma parte natural de ser humano; emantemos abertura e sensibilidade a essa dor seja na nossa pele ou na do outro. Assim, podemosaliviá-la com maissabedoria[2]. Nossas histórias, com sorte, carregam a compaixão pelo menos em algum nível, por mais desajeitada que seja, em cada momento de cuidado, dos nossos pares, dos nossos mais velhos, ou dos nossos mais novos, como um milagre mundano.

Compaixão é uma herança de nossos ancestrais (modos de pensar, sentir e agir), uma forma de ver o mundo ligada a relações de cuidado. Quando o mundo se relaciona conosco com passivamente, aprendemos a nos relacionar da mesma forma com ele e com nós mesmos, moldando nossas vivências. Mas ainda temos outras duas formas de nos relacionar com as experiências:temos um sistema de ameaça, que busca perceber sobre e nosdefender daquilo que aprendemos que causa mal-estar, de forma imediata e intuitiva e um sistema de motivação, que nos direciona a conseguir recursos importantes para nosso organismo sobreviver (é importante notar que isso vai além de comida, pode ir pra prazer, sexo, e até necessidades sociais, como aceitação!).

Quando entramos em um desses sistemas nossa experiência muda automaticamente e por completo, já que nosso corpo e mente são configurados para isso- vide como ajudou nossos antepassados a sobreviver. Por isso quando ameaçados, nossos músculos tensionam, os pensamentos ficam em torno do que quer que tenha trazido mal-estare temos sentimentos de raiva e medo. Isso acontece mesmo que às custas de qualidade de vida, em situações onde a ameaça não se concretiza ou foi mal percebida[3]. Assim, acabamos usando esse mesmo grupo de sistemas para lidar com problemas novos e mais sofisticados, como o racismo.

Dependendo das vivências, um sistema pode acabar ficando mais forte por ter sido mais utilizado (como um corpo que passa por academia). Pessoas negras convivem consistentemente com situações culturais de violência sutil e/ou explícita. Até mesmo dentro da família, onde nossos próprios pais podem acabar usando estratégias de sobrevivência que sacrificam a gentileza pela dureza, pois foi essa a vivência deles[4].

Quando nos sentimos ameaçados por muito tempo, em muitas ocasiões acabamos nos relacionando com nós mesmos através de vergonha e julgamentos pesados buscando nos “prevenir” de ser atacados pelo mundo, e nos atacando por dentro. A partir daía compaixão faz falta em nossas vidas. Mesmo sem nos darmos conta vamos engolindo e reproduzindo aprendizagens onde precisamos nos machucar para sobreviver no mundo. A cultura acaba por fazer isso com todos, mas com a população negra há um padrão especificamente violento de aprendizagens ligadas a uma história que apaga a narrativa dos povos africanos, esconde sua humanidade através da escravidãoe busca seu extermínio sistematicamente.

Exemplos existem aos montes, indiretos como um presidente declamando comparações de indivíduos negros à gado, e também exemplos mais próximos, como mães que torcem por um tom de pele mais claro paraseus filhos ainda não-nascidos, na esperança de que estes sofram menos.Vivemos sob um regime estruturalmente racista, que flui, ensina e se reproduz[5].

Em muitos momentos em minha trajetória como psicólogo pude entender que “Terapia é para brancos”. A questão de raça foi sempre deixada de lado, lembrada apenas em aulas de psicologia social e políticas públicas, que por alguma razão aparecem somente no mês da consciência negra. Fica fácil de ver para quem estiver olhando a falta de importância que é dada à subjetividade da pessoa negra, afinal ela é pouco vista na formação do profissional. Através desse não-olhar se mantém uma psicologia que faz pouco caso de fatores de raça, racismo e as particularidades da pessoa negra. O racismo estrutural e a supremacia branca se expressam na crença de que a experiência da pessoa branca é universal, e sua narrativa dá conta de todas as histórias, por mais diferentes que sejam, culminando em uma psicologia acrítica que ajuda a reforçar o racismo[6].

Por isso é importante apontar que até mesmo a construção sobre a psicologia da compaixão, que tanto pode nos ajudar, é sujeita a ressalvas críticas. A construção de um modelo de psicologia que leva o contexto e a aprendizagem social para a construção do indivíduo mas se esquiva dessas influências ao montar uma visão tão individualista do sujeito é um exemplo dessa estrutura sutilmente se afirmando.

A devida consciência sobre a cultura racista pode levar à possibilidade de mais cuidado frente o cotidiano de violência sutil ou explícita que compartilhamos. Quantos momentos de insegurança, hipervigilância e até mesmo um senso de suspeita já passei, sentindo que o mundo era meu inimigo? A opressão pode levar à desconfiança sobre osbrancos. Essa desconfiança, protetiva até certo ponto,me mantinha atento para ameaças de discriminação ou violência. Mas vale a pena esse tipo de aprendizagem levada ao extremo? A cada vez que utilizado, nosso “sistema de ameaças” infla ecomeçamos a não conseguir usar outro sistema que não ele. Quantas vezes nos sentimos ameaçados em nossa relação interna ou com entes queridos?

Em minha relação interna também foi, e por vezes ainda é comum, que a motivação seja violenta. Por vezessinto que devo trabalhar duas vezes mais para ser considerado e provarque sou bom o suficiente. A comunidade desta dor é contemplada em “A vida é um desafio” de Racionais MC’s ([2002]):

Desde cedo a mãe da gente fala assim: filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor. Aí passado alguns anos eu pensei: Como fazer duas vezes melhor se você está pelo menos cem vezes atrasado…Pela escravidão, pelo preconceito, pela história, pelos traumas, pelas psicoses, por tudo o que aconteceu? [7]

É um sistema de pensamentos que leva ao sofrimento por sua natureza. Temos um contexto de maior dificuldade, e devemos ser ainda melhores do que aqueles que gozam do privilégio do sistema que oprime. Quando compramos essa narrativa é normal a crença de que qualquer imperfeiçãoéinaceitável, digna de vergonha e julgamento, uma confirmação de preconceitos legados à população negra. Assim, buscando nos defender nos machucamos, nos afastando justamente do senso inalienável de valor que temos e que é sistematicamente ocultado.

Dentro da vivência negra, da onde me concerne cada sopro de ar que percorre meu corpo, tais aprendizagens culturais são de suma importância para uma existência saudável. Notar que o autocriticismo e a vergonha são ferramentas de encaixe em uma sociedade que consistentemente diz que a existência negra é inferior, torna possível o entendimento de que esses processos de sofrimento não são minha culpa, mas sim uma expressão de racismo segundo a qual minha existência é, por si só, inaceitável. Nos envergonhamos e nos criticamos muitas vezes em busca da aceitação e do reconhecimento de humanidade, nos encaixando em ideias eurocêntricas às custas de nossa própria experiência. Assim a estrutura joga com nosso afeto, com nosso instinto de sobrevivência social, nos levando inconscientemente a reproduzirum sistema cultural que nos machuca[8].

Abrir os olhos para essa realidade é dolorido. Todavia, liberta de um desconforto que muitas vezes gera experiências de dor como a vergonha, a culpa e a autopiedade. Fico livre ao reconhecer que não preciso me identificar com a história que muitas vezes nossos sentimentos aprenderam a contar, servindo frequentemente como ferramentas que fazem com que eu seja meu próprio capataz, reproduzindo dentro de mim a estrutura racista, desenhada para que eu me fira em seus interesses. São nesses momentos de vergonha, de autocrítica e de automutilação da minha experiência para “encaixar” que surge a negação do reconhecimento e valor humano de mim enquanto pessoa negra.

Resgatar a consciência da minha própria humanidade é um fruto a ser colhido quando se olha atentamente para o sistema que mantém a opressão. Percebendo suas engrenagens em movimento fica mais fácil lembrar que estou aqui e agora, sempre dotado de valor, por mais que a narrativa da branquitude diga que não. Muitas vezes aprendemos a lidar com a dor através de uma negação dela, diminuindo-a, dizendo que não é nada e então nos perdendo em uma ficção onde nosso sofrimento coletivo e individual é “mimimi”. Estes são os instrumentos que aprendemos perversamente a utilizar, nos ameaçando, envergonhando e julgando em conversa com nós mesmos. Dar a atenção devida e legitimar esses sofrimentos trazuma chance de florescimento de um poderoso senso de compaixão onde sou humano em minha dor, tratando de forma gentil minha própria experiência.

Na narrativa eurocentrada, que busca convencer de que é a única e verdadeira perspectiva, o indivíduo negro acaba sendo visto como um sujeito menos que humano, e a partir daí se torna justificável para a branquitude a opressão do povo negro, por ser “merecida” uma consideração moral menor. Internalizada e reproduzida, essa ideia leva ao pensamento de que o cuidado voltado para si é uma indulgência, o que sem dúvidasauxilia a manutenção da estrutura racista, criando também a expectativa de inferioridade e, derivada dela, a servitude. Na realidade brasileira essas ideias servem como uma base para o extermínio contínuo da população negra, seu encarceramento e para a negação da própria problemática (como a população negra é vista como menos humana, seus problemas também são proporcionalmente menos consideráveis na visão da branquitude)[9]. Então é naturalizada uma cultura em que o indivíduo negro se diminui, buscando no máximo sobreviver.

A nossa sobrevivência é mais do que só a satisfação de necessidades óbvias. Somos seres sociais, e como taisprecisamos também de outras a serem satisfeitas. Sentido, liberdade, respeito, identidade e afeto são algumas dentre muitas necessidades que nutrimos por sermos humanos[10].Existeuma perversa contradição na condição do povo negro,em que os indivíduosse movemenquanto humanos para tentar nutrir essas necessidades, e ao mesmo tempo são ensinados que elas sãodescartáveis, um luxo, ou até uma espécie de fraqueza! Ao perceber que tratando-nos duramente, aplicamos a nós mesmos um açoite, reproduzindo a violência com a qual o mundo se relaciona conosco se pavimentaum caminho para o fim desse ciclo. Valorizar essas necessidades é um ato que desafiaexpectativas sociais de servidão e insignificância sobre nós, fazendo do autocuidado um movimento de resistência política a cada ato de gentileza[11].

Aolevaruma criançapara tomar vacina é normal se sensibilizar com a dor dela, e responder com gentileza, acalentando a criançae a nós mesmos na dor do contato com esse momento difícil. É irônico que essa gentileza brote de uma consciência para uma realidade doída. Essa atitude é poderosa pois leva também a uma motivação para mudança além de combustíveis como a raiva e o medo. Em nossa existência há possibilidade de ser agente de uma mudança motivado pela utopia de que as condições sejam melhores, e nutrir essa intenção é menos indigesto com gentileza.

No entanto, ser gentil não quer dizer não ter raiva, medo ou qualquer sentimento desafiador. Atenção à realidade é comumente acompanhada de dor, e a dor leva às estratégias que aprendemos para nos libertarmos dela. Não há necessidade de desvalorizar a raiva, o medo ou quaisquer reações às ameaças com as quais nos deparamos. A atenção a como funcionam esses sentimentos talvez possa levar a perceber que muitas vezes eles geram vivências de maior desconforto sem solucionar os problemas que os geraram. Há outros meios de se relacionar com a dor, que buscam as conexões que temoscomo forma de navegar o mal-estar.

Seja pela manifestação de dor, seja pela aspiração de libertação dela, somos conectados. Dentro dessa relação (ou seria da conexão?) a minha humanidade é composta pela humanidade dos outros, minha dor é também a dor de outros, assim como minha aspiração de liberação dessa dor. Essa é uma aproximação possível de compaixão e “ubuntu”, um pensamento de matriz africana com implicações poderosíssimas para o bem-estar a partir do resgate da noção de humanidade[12]. Em relação com o mundo, vivencioesse cabo de guerra entre dor e seu possível alívio, mediado pelos meus vínculos sociais aprendendo estratégias para sobreviverà medida que avanço. A questão é que sobreviver não me é suficientemente bom. Há a vontade de ascender como flor do concreto. Para germinar dessa maneira, a frase “Eu sou porque somos” me lembra de meu laço com os outros e com o mundo momento a momento, sendo grandioso o suficiente para dar conta do contexto que constrói esse presente (a ancestralidade, negada pela cultura eurocêntrica) e o momento atual como devir, grávido de possibilidades para o futuro.

“Eu sou porque somos” esconde em sua simplicidade uma sabedoria imensa pois vai além do momento e do espaço independente de quem vêo mundo assim. Eu sou, pelo que meus antepassados foram, pelo que meus descendentes serão, e para além da minha linhagem direta, sou pelos meus pares, pelas raízes e frutos deles também. Respirar essa visão de mundo é ter à mão um fogo que arde perpetuamente, pois sempre há passado e futuro para justificar o melhor presente possível, e sempre há pares pelos quais viver. Enxergando desse modonos tornamos cuidadores de outros e de nós mesmos, desmantelando aprendizagens pautadas por vivências em um mundo racista, onde testemunhamos as mais diversas violências nascidas da ignorância.

Resgatar a humanidade que nunca podee que nunca pôdenos ser tirada dá uma chance de gentilmente nos relacionarmos com nossas próprias experiências, da forma como gostaríamos que o mundo se relacionasse conosco, transformando a nós mesmos em cuidadores de nossa experiência, responsabilizando-nos por ela tanto quanto possível e somente tanto quanto possível. Assim, nos tornamos responsáveis pelo nosso contexto, para além de vítimas de suas infelicidades, capazes de abertura para com a inevitabilidade de nosso sofrimento sabendo que não somos sozinhos. A cada ato de cuidado podemos quebrar os ciclos de dor que nos foram passados e os grilhões aos quais nossa história foi presa.

 


[1]Lama, D. (2002). An open heart: Practising compassion in everyday life. Hachette UK.

[2]Strauss, C., Taylor, B. L., Gu, J., Kuyken, W., Baer, R., Jones, F., & Cavanagh, K. (2016). What is compassion and how can we measure it? A review of definitions and measures. Clinical psychology review, 47, 15-27

[3]Gilbert, P. (2009). Introducing compassion-focused therapy. Advances in psychiatric treatment, 15(3), 199-208.

[4]Hooks, B. (2000). Vivendo de amor. O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe, 2, 188-198.

[5]de Oliveira, A. S., & de Carvalho, A. R. (2017). A Desigualdade Racial do Brasil: o racismo estrutural e o determinismo social. REVISTA JURÍDICA DIREITO, SOCIEDADE E JUSTIÇA, 5(1).

[6]Prado Filho, K., & Trisotto, S. (2015). A Psicologia como disciplina da norma nos escritos de M. Foucault. Revista aulas, 1(3).

[7]RACIONAIS, M. (2002). A Vida é Desafio.Nada como um dia após o outro. CD.

[8]Fanon, F., & da Silveira, R. (2008). Pele negra, máscaras brancas. SciELO-EDUFBA.

[9]Bolsanello, M. A. (1996). Darwinismo social, eugenia e racismo” científico”: sua repercussão na sociedade e na educação brasileira. Educar em Revista, (12), 153-165.

[10]Rosenberg, M., & Chopra, D. (2015). Nonviolent Communication: A Language of Life: Life-Changing Tools for Healthy Relationships. PuddleDancer Press.

[11]Lorde, A. (1988). A burst of light: Essays(Vol. 131). Ann Arbor, MI: Firebrand Books.

[12]de Vasconcelos, F. A. (2017). FILOSOFIA UBUNTU. Logeion: Filosofia da Informação, 3(2), 100-112.


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