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Diálogo de gerações

Na mesma semana, duas expoentes do feminismo negro passaram pelo Rio, espalhando conhecimento

Por Flávia Oliveira, Do O Globo

Flavia Oliveira - mulher negra, de cabelo preso, usando camiseta branca - em pé sorrindo
(Foto Marta Azevedo)

Raios não caem duas vezes no mesmo lugar. Estrelas, sim. Na mesma semana, duas expoentes do feminismo negro passaram pelo Rio, espalhando conhecimento. Septuagenárias, as americanas Patricia Hill Collins e Angela Davis, referências de antigas e jovens ativistas Brasil afora, avisaram que a nova onda é a intergeracionalidade. Elas alcançaram a longevidade, conviveram com diferentes gerações de mulheres e, hoje, tanto inspiram quanto aprendem com as mais novas. Tanto Angela quanto Patricia vieram ao Brasil para lançar edições em português de livros publicados há décadas no país de origem; nas aparições trataram da relação com outras faixas etárias.

Filósofa, professora emérita da Universidade da Califórnia, ícone do movimento pelos direitos civis dos negros, Angela Davis escreveu aos 28 anos a autobiografia recém-lançada no Brasil pela Boitempo. O livro atravessa a trajetória da ativista dos Panteras Negras, que foi presa nos anos 1970 acusada de conspiração, sequestro e homicídio. Correu risco de morte e foi inocentada após mobilização internacional. Hoje, se alia aos brasileiros para cobrar das autoridades a identificação do mandante e o motivo da execução da vereadora carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. No debate de que participou na abertura do 12º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, anteontem, admitiu que não esperava chegar aos 75 anos.

“Muitas das minhas camaradas tombaram durante a luta. Acredito que seja minha responsabilidade testemunhar em homenagem aos que não estão mais entre nós. E afirmar que se permanecermos na luta, eventualmente, alcançaremos a vitória. Digo que essa era de surgimento de movimentos como “Black lives matter” (“Vidas negras importam”) e “Me too” (“Eu também”, de mulheres contra o assédio sexual) é realmente uma época maravilhosa para ser jovem, porque os jovens estão assistindo ao desmoronamento de uma série de regras estabelecidas ao longo do tempo para governar, controlar o comportamento humano. Ao mesmo tempo, é uma época maravilhosa para ser velha, porque percebemos que o trabalho desenvolvido ao longo de tantas décadas faz diferença. A intergeracionalidade dá significado à longevidade”, declarou a uma plateia habituada a estudar feministas brasileiras mortas precocemente, caso de Beatriz Nascimento (aos 52 anos), Lélia Gonzalez (aos 59), Carolina Maria de Jesus (aos 62) e Luiza Bairros (aos 63), todas citadas por Angela Davis na passagem pelo país.

Patricia Hill Collins é outra expressão do feminismo negro no mundo. O conceito nomeia o debate de gênero incorporado às dimensões de raça e classe. De percepções subjetivas a evidências estatísticas, está claro que, conjugadas, orientação sexual, identidade de gênero, nível de renda e cor da pele tornam alguns indivíduos ou grupos mais vulneráveis que outros — na base, mulheres negras trans e pobres. A combinação desses fatores — batizada de interseccionalidade pela jurista Kimberly Crenshaw em 1989 — é especialidade de Patricia, que participou da mesa de encerramento da Flup 2019, domingo passado.

A autora veio lançar “Pensamento feminista negro” (Boitempo), publicado em inglês no ano 2000. A obra já começa com reflexão geracional. No prefácio à edição brasileira, ela avisa que redigiu um livro que a mãe — uma mulher que definiu como triste, mas não raivosa, pela opressão que sofreu — pudesse ter lido. “Pela memória de minha mãe, busquei contar as verdades da vida de mulheres afro-americanas, esperando que minha narrativa ecoasse as questões, as lutas, os compromissos e a imensa criatividade das mulheres negras”, escreveu.

Ao se despedir da Flup, exortou a plateia a seguir lutando por avanços, mesmo em tempos de retrocesso: “Queremos que as jovens lembrem da gente como os que abandonaram a esperança preventivamente? Ou como as que levaram o trabalho, mesmo sabendo que não iriam concluí-lo até o fim da vida? Vocês estão construindo essa fundação e não vão querer ser o problema de alguém, mas a inspiração”. De geração em geração, o melhor sentido da palavra ancestralidade.

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