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Em trem lotado, paulistano define: “aqui é Esparta, mano!”

Durante 3 horas, uma mineira do interior caminha e conversa com os “espartanos” que enfrentam a superlotação de trens e metrôs em horários de pico na capital paulista. Um mar de gente e outras impressões em pleno centro de São Paulo

Por: Ana Lis Soares

A proposta era dar meu ponto de vista como mulher e usuária do metrô e trem em São Paulo. Afinal, várias de nós são, no mínimo, perturbadas por provocações machistas em vagões lotados, após um dia inteiro de trabalho e cansaço. A faxineira que trabalha na minha casa, Meire Salles foi segurança na estação da CPTM em Santo Amaro por seis anos e ela afirma: há diversos casos diários de mulheres abusadas, “encoxadas” ou, mesmo, perseguidas em suas viagens.

– Ish, Ana, tem muita história. Uma vez, uma moça chegou até nós com as calças molhadas. O homem gozou na perna dela dentro do trem, acredita?, conta Meire, indignada (claro).

Por causa de tais “homens” – e coloco aspas, pois isso é animal e não humano -, muitas de nós se sentem acuadas, com medo e em risco por, simplesmente, querermos garantir nosso direito de ir e vir. Eu mesma, certa vez, fui perseguida por um jovem careca no trem, que fez questão de se posicionar do meu lado no vagão (que não estava cheio) e me dizia coisas como “seus olhos são lindos”, “me adiciona no Facebook” – daí para pior, mas não vale a pena o adendo. Ele ficou ao meu lado e se sentiu no direito de me tocar por diversas vezes. “Não, amigo, eu não quero e não mereço ser tocada por gente como você. Alguém me ajude?”, pensava, mas nada aconteceu.

Encoxadas, tocadas, abusadas. A falta de respeito não tem limites. E, por pressa e medo, muitas mulheres se recusam a buscar autoridades e denunciar o fato. Segundo Meire, várias vezes ouviu de vítimas do abuso de passageiros que estavam com pressa e que não iriam registrar um boletim de ocorrência. “Elas pediam para que fôssemos atrás do homem, que fizéssemos ‘justiça’ com nossas mãos. Mas não é assim que se resolve, então nada acontecia”, diz.

Apesar de todo o problema envolvendo vagões cheios e mulheres, não me propus a fazer esta reportagem apenas por ser mulher. Também queria dar minha opinião como alguém que vem de uma cidadezinha pequena, e que nunca tinha andado de metrô até os 20 anos. Que se assusta e se deslumbra com tudo isso. Com tanta gente.

"Mas que lugar é este, o inferno?", indaga uma senhora próxima de mim Foto: Ana Lis Soares / Terra
“Mas que lugar é este, o inferno?”, indaga uma senhora próxima de mim
Foto: Ana Lis Soares / Terra

Assim, numa quarta-feira, eu e meu colega jornalista Fábio Santos fomos andar de metrô e trem – não para chegar a algum lugar, mas para observar e analisar o trajeto. Saímos da avenida Eng. Luis Carlos Berrini, zona sul de São Paulo, às 16h30, fomos às estações Luz, Tatuapé, Brás, Luz novamente, e depois nos separamos: Fábio parou na República e eu voltei sozinha até a Berrini, chegando por volta das 20h.

Nasci no interior de Minas Gerais. Por lá, dizem que não há mar, então o mar de Minas é o céu. Ou o bar. Assim como lá, a cidade de São Paulo também não tem mar, mas, como se ouve em tudo quanto é lado em Sampa: o mar de São Paulo são pessoas. E haja mar por aqui…

Meu corpo dança, vai de um lugar para o outro de forma involuntária. Os pés tentando se equilibrar, a mão busca um apoio… Chegamos, finalmente. A porta se abre e como num “caldo”, vou sendo levada pela onda, perdida, passiva. “Mas que lugar é este? O inferno?”, indaga uma mulher bem ao meu lado – tão atordoada como eu. Quase que virei para ela e disse “não, querida, isso aqui é o mar de Sampa”. É, a maré está brava e, como em qualquer outra situação de sobrevivência, meu caro, o negócio é não nadar contra ela. Estamos na estação Pinheiros, que interliga as linhas amarela do metrô e a esmeralda, da CPTM.

Neste momento, entro no fluxo de gente, da pressa, da vontade que o paulistano carrega junto de suas sacolas, de poder chegar logo no trem para, se Deus quiser, se sentar. Ah… Um assento é tudo a esta hora do dia. Eu e Fábio estamos com olhos e ouvidos abertos para beber desta água: queremos experimentar (e reportar, claro) o que as pessoas enfrentam diariamente.

"Please, mind the gap!": o vão que me dá medo (e parece nem existir) para as pessoas, que correm por um lugar no trem Foto: Wikipédia
“Please, mind the gap!”: o vão que me dá medo (e parece nem existir) para as pessoas, que correm por um lugar no trem
Foto: Wikipédia

A primeira vez que andei de metrô foi há uns 5 anos. Já moça crescida, pulei o vão entre a plataforma e o trem (pois é, para a mineira desconfiada, aquilo ali é um precipício, sô!). E não dê risada, porque, anos depois, continuo pulando.

Quando morei em Londres, o que mais ouvia nas estações era o lembrete “Please, mind the gap” (o que significa, mais ou menos, “cuidado com o vão”). Dia desses, estava na plataforma da estação Berrini, quando passou uma mulher correndo ao meu lado que, PLAFT, caiu no vão. A voz robotizada dizendo “Mind the gap” ecoava na minha cabeça – enquanto minhas pernas tremiam de susto. Após socorrer a coitada apressada (que teve sorte de ficar presa pela metade), um dos seguranças veio até mim e perguntou se estava tudo bem. Imagina a cara de espanto da pessoa.

Aliás, a mulher correndo e caindo no vão me lembra a história de duas amigas do interior que vieram para São Paulo e, como todo bom turista, pegaram o metrô: desavisadas e distraídas, entraram na estação, perceberam um movimento, que virou correria e, por último, desespero.

– Ai, quê que é isso?

– Não sei, corre!

E, numa corrida animalesca, como a de uma manada fugindo do predador, conseguiram acompanhar o fluxo e, finalmente, chegaram ao trem. “Uai! Tudo isso é só por pressa?”.

Enfim, enquanto me recordava do vão, de minhas amigas caipiras e da pressa paulista, chegamos à estação da Luz para ir até Tatuapé. Quando as portas se abriram para entrarmos, senti de novo a sensação de ser sardinha, ou uma surfista muito das ruins. Fui empurrada e deixada para trás pelo meu colega (afinal, ele é esperto e eu sou lerda, né? Me jogavam para lá e para cá – e, com meu lado caipira aflorado – só focava no vão, para não cair). Meu coração está disparado, sinto adrenalina até os fios de cabelo.

– Fábio, que pavor!, digo com a mão no peito, já dentro do trem.

Um homem e duas mulheres percebem meu estranhamento e começam a conversar entre si sobre suas experiências de anos e mais anos. “Uma vez eu fui empurrada e caí, vim parar do outro lado do vagão, pisoteada. E quem disse que alguém ajuda?”, lembra Luzia Cristina, auxiliar de limpeza, que vai em direção à Guaianases (linha 11 da CPTM).

Fábio Nogueira, técnico em eletrotécnica, pega esta linha todos os dias. Ele conta que, assim como eu, sente a adrenalina reagindo em seu corpo logo que pisa na estação. “É como uma luta, meu, é engraçado, porque é a mesma sensação de luta mesmo. Você tem que lutar. Se não empurra, é empurrado”, diz. Nogueira acha que andar de trem é pior para mulheres, mas considera que muitas estão bem preparadas para o ‘fight’. “Elas criam suas formas de defesa. Também empurram, também lutam”, afirma.

A estudante universitária Indianara Sammer tem 19 anos e, assim como Fábio Nogueira, disse que já se acostumou com o movimento. Ela mora em Franco da Rocha, trabalha na Zona Leste e estuda em Santa Cruz. Como a maioria dos paulistanos, sai muito cedo de casa, e volta tarde.

– Volto umas 22h, diz, tímida.

– E você não tem medo? Com tantos casos de abuso, assalto…

– Não, me acostumei. Ando desde muito novinha.

É, o jeito é se acostumar. Fábio Nogueira também se acostumou. Se considera um guerreiro, pois diz não se importar em entrar na batalha. “Na hora, você não sente, mas quando chega em casa vai encontrando os hematomas”, conta. “É selva mesmo”.

Neste momento, somos interrompidos pela voz grave e alta de Ivan Farias, ou ‘Stallone’: “aqui é Esparta, mano!”. Stallone está sentado e se anima ao perceber que lhe damos ouvidos. “Para se sentar é duro, se não for Esparta, não senta”. Como o apelido sugere, ele é grande, forte e, bem, se aqui é Esparta, ele é tipo um rei… Aqui, ele não é Rocky, é Leônidas.

Mal sabia Newton…
Brás. 17h59. O cheiro é de gente, de suor, de desespero, de milho cozido. É uma maratona com corridas em escadas, salto em distância, caminhada com obstáculos (daí, o empurra-empurra). Para mim e Fábio, o burburinho é uma oportunidade rica de jornalismo. Mas, a situação é boa somente para nós e para o moço que vende balas. Apenas nós três sentimos o lado doce de uma das estações mais movimentadas da cidade. “Opa, tá cheio, hein?”, diz o comerciante, todo animado.

Passageiros aguardam trem na estação Luz Foto: Ana Lis Soares / Terra
Passageiros aguardam trem na estação Luz
Foto: Ana Lis Soares / Terra

O sinal avisa por diversas vezes: as portas estão se fechando. Ou deveriam, pois tá difícil. Percebo um homem tentando se encaixar em meio à massa dentro do vagão, mas, o espaço que sobrou é muito menor que ele. Porém, o homem não desiste e insiste em sua presença caótica naquela viagem.

O físico Newton dizia que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, contudo ele afirmou isso porque nunca andou de metrô em Sampa. Só pode!

A luta entre um homem e toda a multidão dentro do trem continua por mais dois ou três movimentos de abre-e-fecha da porta. Para o ‘gladiador’, não importa o desconforto, não importa que dali dois minutos outro trem chegará à estação. Em algum momento, ele me percebe o observando pelo lado de fora. Olho fixamente – com medo, compaixão, raiva. Ao contrário de mim, ele me olha de um jeito vazio, sou só mais uma. No olhar dele, só há uma coisa: a vontade de partir – custe o que custar.

O trem parte. Todos seguem seu caminho de volta. E amanhã, meu amigo, é tudo de novo.

Fonte: Terra 

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