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Exames mostram que Muhammad Ali descende de escravo herói

DNA e estudos confirmam a origem genealógica de um dos maiores pugilistas de todos os tempos

Por Ben Strauss Do Terra

Foto: STANLEY WESTON/GETTY

Quando Cassius Clay entrou para a Nação do Islã, em 1964, e mudou seu nome para Muhammad Ali, tinha uma explicação na ponta da língua. “Por que devo manter visível o nome herdado de um senhor branco de escravos e deixar na invisibilidade os nomes dos meus ancestrais?”

Na época, isso era mais um conceito abstrato, uma declaração contra a opressão branca. Ali pouco sabia, se é que sabia algo, sobre seus ancestrais e sua árvore genealógica. Décadas depois, porém, sua família faz uma descoberta que parece lançar nova luz sobre a linhagem do pugilista – de onde ele vem e seu lugar na história americana. Segundo pesquisas da família, Ali é tataraneto de Archer Alexander, um escravo que lutou tanto por sua liberdade quanto contra a escravidão (dos EUA).

Alexander fugiu do cativeiro e, na clandestinidade, forneceu informações para o Exército da União durante a Guerra Civil. Tornou-se mais tarde o modelo para o Memorial da Emancipação, escultura que está no Lincoln Park, a 1,5 km do Congresso dos Estados Unidos.

“O fascinante em Ali é que ele sempre se portou como se pertencesse à realeza e tivesse direito à grandeza”, disse Jonathan Eig, autor de Ali: A Life. “Ali passou grande parte da vida atacando o racismo. Se ele tivesse sabido que seu tataravô foi um homem tão corajoso e tão inteligente, seus argumentos teriam tido ainda mais força.”

Após ser alertado há algumas semanas da descoberta da família, Eig investigou ele mesmo a informação e a incluiu na edição em livro de bolso da biografia, que sai nesta semana. “Investi na checagem todo meu conhecimento sobre Ali e tudo foi confirmado”, afirmou ele.

Maryum, filha de Ali, disse que o pai ficaria orgulhoso do parentesco com Alexander. “Ele já presumia que tivesse conexões com antigos reis e rainhas da África”, comentou.

A descoberta foi feita por um primo em terceiro grau de Ali, Keith Wonstead, que, ao se aposentar da carreira numa fábrica de computadores, tornou-se genealogista amador. Winstead descobriu a conexão entre Ali e Alexander quando fazia uma pesquisa no site 23andMe. A conexão foi confirmada por uma amostra do DNA de Ali coletada quando ele e a mulher, Lonnie, participaram de um estudo realizado pelo 23andMe visando a conscientizar as pessoas sobre a doença de Parkinson, de que Muhammad Ali sofria.

Segundo a pesquisa genealógica de Winstead, o pai de Ali, Cassius Clay Sr., era filho de Edith Greathouse, que era bisneta de Alexander. “Eu não sabia quem era Archer Alexander até pesquisar a árvore da família”, disse Winstead, de 67 anos. “Quando fui ao Google, só consegui dizer “uau!”.”

Ali nasceu em 1942 numa segregada Louisville, Kentucky, e sua atuação como ativista pioneiro tornou-se parte tão importante de sua biografia tanto quanto sua carreira de pugilista. Morreu em 2016. Em 1960, ele aderiu à Nação do Islã, movimento liderado por Elijah Muhammad, que defendia a separação racial afirmando que os Estados Unidos dos brancos haviam privado os afro-americanos da história de suas famílias.

De fato, descendentes de escravos encontram dificuldades ao buscar sua ancestralidade porque seus antepassados eram sistemática e propositalmente privados de identidade.

“O fato de Ali não conhecer seu ancestral heroico comprova pelo menos em parte a pregação da Nação do Islã”, disse Eig. “Se Ali fosse branco e tivesse um ancestral tão valente e festejado, sua família teria tido riqueza, fama e poder político. Em vez disso, era uma família que lutava para sobreviver.”

Mesmo em meio a privações, Alexander teve uma vida notável. Ele nasceu escravo na Virgínia em 1813, sendo vendido e levado para o Missouri. Embora o Missouri tivesse ficado neutro na Guerra Civil, Alexander tornou-se propriedade de um simpatizante dos confederados (rebeldes sulistas). Em 1863, ele soube que forças confederadas haviam sabotado uma ponte ferroviária que soldados da União pretendiam cruzar. Caminhou então oito quilômetros para alertar o Exército da União, salvando potencialmente centenas de vidas. Alexander também forneceu informações sobre esconderijos de armas dos confederados.

Acusado de espionar para o inimigo e correndo perigo de vida, conseguiu ludibriar os caçadores de escravos e escapar por uma janela da taverna em que estava escondido, chegando a St. Louis. Mais tarde, deu fuga também à sua mulher e filhos. “Defenda sua liberdade ainda que tenha de morrer por ela”, dizia.

Em St. Louis, Alexander arranjou trabalho como jardineiro de William Greenleaf Eliot, um dos fundadores da Universidade de Washington e avô do poeta T. S. Eliot. Eliot obteve uma ordem de proteção para seu empregado, embora caçadores de escravos chegassem a Alexander, surrassem-no e o capturassem antes que a ordem pudesse garantir sua liberdade.

Eliot publicou uma biografia de Alexander e mandou sua fotografia para a Itália, onde foi usada pelo escultor Thomas Ball como modelo para o Memorial da Emancipação. A escultura foi inaugurada em 1876, com a participação do general e depois presidente Ulysses S. Grant e do abolicionista Frederick Douglass.

A escultura mostra um escravo libertado, com os grilhões quebrados, aos pés do presidente Abraham Lincoln. Foi um dos primeiros monumentos financiados por ex-escravos, mas recentemente recebeu críticas por sua mensagem, considerada paternalista por alguns: um Lincoln libertador e um escravo libertado agachado abaixo dele.

Em 1980, The New York Times publicou uma reportagem revelando parte da ascendência de Ali pelo lado materno. “Até agora, eu quase nada sabia de meus ancestrais”, disse então Ali. “Estou feliz por conhecer um pouco sobre eles para poder honrá-los. Quando eu partir, quero que meus netos e bisnetos também me honrem pelo que fiz.” E acrescentou: “Algum dia, gostaria de levantar tudo que for possível sobre as pessoas das quais descendo”.

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