Filmes de Plástico: De  Mar, Amar

Contagem, abril de 1968. Palco da primeira grande greve operária no recrudescer da ditadura militar no Brasil. Contagem semeia Lula em São Bernardo do Campo, onze anos depois. Antes de abandonar a batina, um padre espanhol foi enviado à cidade industrial para ajudar a organizar os trabalhadores como era do feitio de um saudoso catolicismo das comunidades eclesiais de base. O então padre Ignacio Hernandez conta em Memória Operária, que na periferia de Contagem apareceu um poodle, com o qual se identificava muito, por ser branco e europeu demais naquela paisagem. Mas a fuligem do asfalto e das fábricas foi encardindo o pelo do cachorro, que se enturmou com os vira latas e as crianças da vizinhança. Povo. 

Contagem, abril de 2009. Uma baleia atracou no quintal do cineasta Gabriel Martins, em Filme de Sábado, que se tornou o manifesto da fundação da Filmes de Plástico, produtora que inventou mar, Marte e até  Oscar com sotaque mineiro, deslocando o eixo do Rio-São Paulo. A produtora nasceu numa Contagem que vivia a primeira gestão da prefeita Marília Campos do PT, mesmo partido no qual Lula encerrava seu segundo mandato. Em 2003, quando Lula assumiu a presidência, surgiu a Escola Livre de Cinema, na qual Gabriel Martins, André Novais e Thiago Macedo estudaram e se conheceram. E foi através do Prouni, programa de ampliação do acesso da juventude preta e periférica ao ensino superior na era PT, que os vizinhos Gabriel Martins e Maurílio Martins ingressaram no Centro Universitário UNA e puderam se formar em cinema. Gradualmente se alinhava o encontro do quarteto fantástico que compõe a Filmes de Plástico: os diretores André Novais, Gabriel Martins, Maurílio Martins e por fim o produtor executivo Thiago Macedo. Apesar da genialidade singular de cada um, este texto se debruça apenas na obra de André Novais e Gabriel Martins por um par razões: o fato de serem irmãos de negritude e por simples economia analítica. 

Nascido no bairro do Milanez, fronteira entre Belo Horizonte e Contagem, Gabriel é um caçula precocemente ousado. Desde os nove anos manifestava em desenhos o desejo de ser cineasta. Aos doze anos já fazia oficinas de formação nos festivais de cinema promovidos pela Universo Produções, que teve fundamental importância na projeção da Filmes de Plástico. Ainda no ensino médio ingressou na Escola Livre de Cinema quando dirigiu seu primeiro curta-metragem, o Quatro Passos,  aos 17 anos e na sequência o Más Notícias Para Franco, ambos filmados em película. Gabriel tentou vestibular na elitista Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, a USP, última universidade pública a adotar cotas raciais e sociais no país. Através do Prouni (Programa Universidade Para Todos), Gabriel conseguiu bolsa integral de estudos na UNA, onde conheceu Maurílio Martins, seu vizinho e posteriormente sócio. Foi crítico de cinema na Revista Polvo, publicizando a sua cinefilia. Gabriel é filho de Geraldo, aposentado de uma cooperativa de crédito e de Beatriz, costureira e artesã. Seus pais compõem um casal negro com um raro costume na periferia: Desde sempre viajaram, inclusive internacionalmente, fazendo registros da família em vídeo, aproveitando a incipiente popularização das câmeras digitais no mercado brasileiro nos anos a partir dos anos 80. Essas imagens foram incorporadas em  curtas do Gabriel que em alguns momentos também ficcionaliza a própria trajetória, endossando este traço poderoso dos cineastas da Filmes de Plástico. 

Por sua vez, André Novais é nascido no Amazonas, periferia de Contagem, graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica, a PUC Minas, e tem formação técnica na Escola Livre de Cinema, onde conheceu Gabriel e Thiago, seus sócios de produtora. André é filho de Norberto, metalúrgico aposentado da montadora Fiat e Maria José, que foi funcionária pública da Rede Ferroviária Federal e irmão de Renato, professor de Geografia. Num estilo meio Russel Hobbs do Gorillaz, André toca bateria e contrabaixo e já teve uma banda de rock apoiada por sua família, que sempre acreditou na sua ludicidade artística. Quando um jovem negro na periferia de Contagem pode brincar e sonhar, certamente é algo a ser notado e quiçá celebrado. Na Escola Livre de Cinema André dirigiu o primeiro curta-metragem, que se intitula  Uma Homenagem a Aluizio Netto, que mistura ficção e biografia sobre um seminal cineasta mineiro, disponível no Youtube e o A Mulher Que Sabia Demais. Vale ainda pontuar que André também trabalhou como agente de saúde de combate à endemias e zoonoses, o que certamente foi fundamental para a concepção de seu longa Temporada, bem como  trabalhou na locadora Videomania, junto com seu futuro sócio Thiago Macedo, onde refinaram ainda mais a cinefilia compartilhada. 

Arriscando enumerar sucintamente as pedras basilares da Filmes de Plástico, destaca-se primeiramente a história de luta política e axé de Contagem, (que também é terra do  Quilombo dos Arturos), num traçado de migração que trouxe as famílias de André, Gabriel e Maurílio para o maior pólo industrial mineiro bem como as políticas públicas para a educação e o cinema na Era PT. Ademais, a Escola Livre de Cinema e a Revista Polvo aproximaram Gabriel, Thiago e André; o Centro Universitário UNA que revelou a vizinhança entre Gabriel e Maurílio e a Videomania que estreitou a proximidade entre André e Thiago. É possível enumerar ainda um outro solo sagrado compartilhado pelos quatro sócios: O Cine Humberto Mauro, espaço obrigatório para qualquer estudante de cinema de Belo Horizonte; além do robusto circuito de festivais, desde os universitários e dos editais de fomento (inter)nacionais ou regionais.  E é impressionante o sincretismo de referências admitido em algumas entrevistas pelos cineastas da produtora, que conjugam uma rotunda cinefilia com o que há de mais popular da TV aberta como Sessão da Tarde, Anos Incríveis, Hermes e Renato, Trapalhões, Porta da Esperança, pegadinhas, vídeos viralizados, memes, etc, passando assim por muitos mestres do cinema mineiro como Geraldo Veloso, Carlos Prates Correia e do cinema nacional, bem como  uma infinidade de cânones mundo afora. 

O curta-metragem que fundamenta a Filmes de Plástico, o referido Filme de Sábado, apesar de não ter grandes pretensões, já apresenta uma linguagem cinematográfica muito bem articulada. Dirigido por Gabriel Martins, o filme sintetiza elementos que marcam desde então a produtora: a baleia de plástico, preta de olhos azuis, que se tornou o icônico mascote, os quatro sócios que se reveza(va)m em muitas funções, inclusive a de atuação, numa mescla entre atores e atrizes em distintos níveis de experiência e profissionalização, a possibilidade de universalizar a periferia a partir da intimidade doméstica, com um humor muito peculiar e o fundamental: uma insuspeita ambição de quebrar qualquer teto de vidro ao propor um independente e (im)possível cinema em Minas, com direito à praia no quintal, mesmo com chuva; à aposta em personagens (extra)ordinárias, sejam pessoas, quintais, ruas e praças, na condução das histórias que projetam Contagem, famílias, amores, amizades e conflitos em Tiradentes, Brasília, Gramado, Cannes, Marseille, Locarno, Lisboa, Veneza, Roterdã, Sundance, Los Angeles, Marte, etc e tantas outras telas fundamentais. 

Depois do Filme de Sábado, Gabriel Martins experimentou bastante em curtas como No Final do Mundo, Pelos de Cachorro, Gabriel, Shaolin e Mordock, ou ainda em Incrível Mundo Remix, que dizem muito da sua liberdade de criação e desejo de testar em ação. Se hoje ele é celebrado como Young, Gifted and Black, acumulou erudição, disciplina e assumiu riscos para afinar o traço e o faro, pois Gabriel Martins não se faz de rogado. Com o curta Dona Sônia Pediu Sua Arma Para Seu Vizinho Alcides, a Filmes de Plástico furou a bolha dos editais de fomento em Minas Gerais, com um faroeste teatralizado que traz a força do rosto e do canto da periferia ainda sitiada em escombros da violência. Dona Sônia, uma mulher marcadamente afro ameríndia, encontra na igreja evangélica, no afeto e na arma do Seu Alcides, a coragem para vingar a morte de seu filho negro.

Na sequência  foi filmado o Contagem, em 2010, como o projeto de conclusão de curso de Gabriel e Maurílio, cujo roteiro é baseado no conto Duas Balas de Gabriel Martins. O curta foi concebido junto com com uma monografia sobre personagem, câmera e espaço, analisando o filme do Eduardo Valente, Meu Lugar e  o Mau dos Trópicos de Apichatpong Weerasethakul. Apesar de bem diferentes em muitos aspectos, Dona Sônia e Contagem são irmanados como perspectivas sobre a periferia com  grandes traços de filmes de gênero com afeto e a potência poética de olhares horizontais com a intimidade de quem é da vizinhança. E é por esses e outros motivos que são filmes merecidamente tão aclamados.  Contagem especificamente, foi celebrado e projetado por Carlos Reichenbach no Festival de Brasília quando escreveu que “se fez luz em Contagem“, anunciando um novo “ciclo deflagrador” no cinema nacional. A bênção do Carlão atraiu muito prestígio. 

Em Fantasmas, seu curta de estréia na produtora, André Novais conquistou festivais pelo país inteiro e internacionalmente; como sintomas dos atravessamentos que esse filme provoca em quem  se aventura na arte e no ofício de assistir, sentir e fazer cinema na atualidade. Ou simplesmente em quem por ventura já stalkeou alguém ou recolheu cacos de dignidade para se reconstruir depois de um término de relacionamento.  O filme é  sobre o apego ao “fantasma da ex” que há três anos fere o ego do personagem brilhantemente vivido no antecampo por Gabriel Martins numa prosa quase insuspeita com Maurílio Martins da sacada de um muro de onde se espia a vizinhança na sofrida expectativa da aparição do espectro branco de Camila, a ex, que dispara um loop que é não apenas recurso narrativo, mas uma tradução interessante de aspectos da pulsão de morte, conceito freudiano que diz o quanto a repetição é sintoma do que não foi elaborado. Abusando da liberdade poética de acionar referências, Fantasmas avoluma André Novais à categoria de um Orson Welles dos trópicos, ou um jovem gigante negro com obsessões por Rosebud, como um possível “macguffin” que talvez esteja na força motriz e libidinal do autor e sua obra sensivelmente afeita à filmes sobre relacionamentos. Ou de um Federico Fellini de Cidades das Mulheres, onde assume  ser refém do mito de um ideal de mulher, que por fim lhe aparece como um espectro de beleza jovem e branca, como um retorno do recalcado.  

Em Pouco Mais de Um Mês, André aprofunda seu cuidadoso traço estilístico de fazer da câmera uma personagem destacada. Enquanto em Fantasmas a câmara de vigilância é flagrada como sintoma da dor da separação,  em Pouco Mais de Um Mês a câmara escura traz encantamento para um casal em começo de relacionamento. O recurso de projeção invertida da rua entre a cortina e o teto do quarto da namorada, além de trazer a magia necessária para quebrar gelos num incipiente processo de construção de intimidade; ainda ressalta a marca estética do universo da produtora de um profundo interesse na vida cotidiana, suspendendo  a sua banalidade e descortinando a sua poesia. O ano de estreia do curta é o famigerado 2013, que sacudiu o país politicamente, e cujos impactos ainda (des)organizam a nossa vida política. Curiosamente, na lista dos muitos festivais pelos quais o filme passou, é a primeira vez que se vê a produtora presente em festivais de cinema negro, como o Zózimo Bulbull. 

No ano seguinte em Ela Volta Na Quinta,  na esteira de uma profícua carreira de ficcionalizar a própria vida, André Novais traz pela primeira vez toda a família para seu longa-metragem de estréia, que foi filmado com orçamento de edital de curta-metragem. O filme é uma carta de amor de André Novais a algumas de suas referências no cinema como Charles Burnett ou da MPB que sedimenta o filme, cuja sinopse é o verso “alguém partiu, alguém ficou” da canção Nada de Novo do Paulinho da Viola. Um samba que dita bem o tom da obra, que tem a profundidade de uma cachoeira sugerida pelo negrume das rochas submersas. Aliada à delicadeza das águas paradas, o filme cria uma atmosfera de iminência de trombas d’água, na condução do fim do casamento de Dona Zezé e Norberto, premiados no 47o. Festival de Brasília.

Impossível não se emocionar com Dona Zezé pedindo a Norberto para ajudá-la a lembrar da canção Preciso Aprender a Ser Só, na voz de Maria Bethânia,  culminando com a dança da separação que se avizinha. É arrebatadora a doçura madura da personagem, que viaja até Aparecida do Norte para organizar as ideias, renovar a fé, ainda que volte magoada com a “vadia” que é amante do marido. De modo (in)consciente, André sabe bem como construir histórias em que mulheres negras são preteridas por outras mulheres brancas e mais jovens. Mesmo dolorida e adoecida, Dona Zezé é gigante em tela, nas suas múltiplas temperaturas de atuação, como na cena em que seu caçula, André Novais conta as agruras que é estar em festivais de cinema sem dinheiro para confraternizar numa feijoada prevista na programação. Curiosamente, a cena relembra e reatualiza a urgência do Dogma Feijoada (2002) encabeçado pelo cineasta negro Jefferson De, como um manifesto de cinema negro brasileiro cujo patrono é Zózimo Bulbull, com Alma no Olho (1974), curta-metragem seminal, feito com restos de película de um longa no qual atuou, o Compasso de Espera (1973). É isso: historicamente seguimos lutando para superar a reinvenção das sobras num movimento soul food que vai da feijoada ao cinema. Mas assim como Dona Zezé, seguimos acreditando, “que é muito mágico essa história de fazer cinema“. 

Depois do sucesso do seu primeiro longa-metragem, André Novas faz Quintal, um curta metragem selecionado no mesmo edital que contemplou Rapsódia Para Um Homem Negro, de Gabriel Martins, que na ocasião ainda poderia concorrer como jovem de até 25 anos. Em Quintal Dona Zezé e Norberto vivem “mais um dia na vida de um casal de idosos da periferia“, conforme a sinopse. O filme é uma obra prima que atesta mais uma vez a genialidade que André tem de olhar a vida ordinária com camadas de realismo mágico. Dona Zezé voa no seu quintal na companhia de um caramujo, que no candomblé é também conhecido como Boi de Oxalá, por traduzir a calma da temporalidade espiralar desse orixá que traz na sua casa-concha, a noção de Igbin como lugar de proteção, o que rima bem com a cinegrafia de um diretor tão canceriano como o André. 

E ainda, a inserção das relações de gênero na vida pública é tensionada de modo subreptício e bem humorado no filme, quando Dona Zezé é a rezadeira que entrega a cabeça de um político corrupto como matéria de capa e é ainda a senhorinha que pretende ser a sócia oportunista de um marombeiro de muito massa muscular e pouca esperteza. Concomitantemente, Norberto encontra o infinito acervo de pornografia de seus filhos, que desfruta com biscoito de polvilho até que atravessa um portal que se abre como fenda no quintal, dá rolezinho no além, volta à noite como se nada de extraordinário tivesse acontecido e se dedica tanto à pornografia que até vira tese acadêmica defendida na maior universidade pública mineira. Assim, a partir do protagonismo de seus pais e com ironia machadiana, André aborda o machismo nosso de cada dia. 

Esse é um tema sensível à produtora, que não costuma exibir na sua galeria o longa Aliança de 2014, no qual Gabriel dividiu a direção com os amigos Leonardo Amaral e João Toledo. Uma comédia bem bromance em que os amigos, Isaac, um judeu virgem e Pilo, um roqueiro maconheiro contam para Panda, um jovem negro bem sucedido, que está sendo traído por Janaína, para a qual comprou uma caríssima aliança de casamento. O filme poderia ser uma rara oportunidade de espiar pactos segredados num Clube de Bolinhas, considerando o quanto homens são corporativistas e se protegem.  Mas ao expor o masculino de modo canastrão, a comédia saiu pela culatra. Ou na definição de Gabito em conversa de whatsapp:  “Aliança é fruto, na minha visão, de uma tentativa meio radical de fazer uma coisa com influência cem por cento muito masculina e que também refletiu esse momento do cinema mineiro, bem machista. Dito isso, acho que tem muita coisa interessante ali também. Uma coisa de artesanato e sem compromisso algum com um certo status quo de festivais daquela época e etc”. Assim, o longa está para a trajetória da produtora como a música Trepadeira para a obra do rapper Emicida: um sintoma de que homens negros geniais, ainda gaguejam, porém cada vez mais interessados no processo de entender e vivenciar práticas feministas.  

Mas como diz o ditado mineiro, “às vezes o tropeço até adianta a caminhada”. O jovem Gabito que volta com Rapsódia Para o Homem Negro traz um debate incrivelmente amadurecido sobre masculidades negras a partir dos arquétipos dos irmãos Ogum e Oxossi na luta cotidiana da Ocupação Odara, com muita consciência de direitos, sonhos, talentos e ação política sobre o destino. Trançando as mitologias grega e iorubá, o curta faz uma afinadíssima e aguerrida ode à Odé. 

Em Nada, Gabriel Martins aborda  os conflitos vividos pela jovem Bia que, às vésperas da inscrição do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, cria coragem para assumir para seus pais, depois de afrontar a professora diante de toda a classe, que não pretende escolher nenhuma carreira profissional e reivindica seu direito de fazer nada, literalmente. Considerando que o filme é de 2017, momento de avançado debate sobre ações afirmativas para acesso da juventude negra ao ensino superior, o filme ousa ao desobrigar sua protagonista do sucesso acadêmico e profissional contaminado por uma lógica neoliberal meritocrática e lembra que a juventude  negra tem direito tanto à políticas públicas quanto a experimentar seguir sua intuição para correr mundo e correr perigo. 

Em seu segundo longa Temporada (2018), André  Novais tece uma potente crônica da vida na periferia, pedindo licença  para entrar muito respeitosamente na intimidade das casas numa obra que fomenta a saúde  e afasta a morte; suplantando assim a necropolítica e inventando uma necropoética num melodrama com subtextos oníricos de realismo fantástico,  pitadas de ficção científica e comédia. No livro-diário em que conta todo o processo de feitura do longa, o diretor cita algumas obras que o inspiraram, especialmente Certas Mulheres de Kelly Reichardt,  Paterson do Jim Jarmusch, a série Horace and Pete. Temporada é protagonizado por Juliana, que muda de cidade para assumir a vaga no concurso público de agente de saúde no combate à dengue e outras endemias. 

Numa jornada de coming of age magistralmente encarnada em Grace Passô, Juliana entende que foi abandonada pelo marido desde um aborto acidental que abalou uma relação que se revelou dependente de uma ideia de maternidade compulsória. Apesar de ser muito reservada, aos poucos Juliana tece relações com colegas de trabalho e com a nova cidade.  Mais uma vez André propõe um sensível olhar sobre a imperativa solidão da mulher negra que se vê obrigada a buscar caminhos para a liberdade e a solitude, evidenciando o quão é raro uma mulher negra ter chances reais de ser amada, para além de ser sexualmente desejada, eventualmente. Essa solidão está estabelecida também no cotidiano da senhora muito simpática que oferece cafezinho com broa de fubá e queijo para Juliana, numa casa caprichosamente habitada por fotografias e a ausência dos filhos adultos. Essa é a derradeira cena  de Dona Zezé nos filmes de André Novais. Dona Zezé, tinha mais de 60 anos quando em Ela Volta na Quinta se revelou uma das mais simpáticas e promissoras atrizes mineiras, numa carreira meteórica ceifada em 2018, na véspera de completar 71 anos. Considerando a importância dessa atriz no cenário mineiro, faz-se  uma breve digressão sobre sua carreira:

Nas notas do seu livro-diário do dia 19 de maio de 2018, André Novais escreveu: Aconteceu o que eu mais temia na vida: perder minha mãe. Ela faleceu dia 04 de maio. (…) E com os filmes que ela fez, vieram sets que ela curtiu muito, abraçava todo mundo com carinho, muitas novas amizades, reconhecimento pelas suas atuações, prêmios e viagens para diversos lugares (Brasília, Anápolis, Bagé, Teófilo Otoni – terra onde ela nasceu, São Paulo, onde ela morou por um tempo e inclusive Paris, que era o sonho dela. Como meu irmão falou esses dias, ela tirou muita onda com tudo isso. Nos últimos filmes que ela fez, eu ficava muito impressionado vendo ela decorando os diálogos em  casa, junto com meu pai, e na hora das filmagens interpretar de forma fantástica, com uma naturalidade incrível. Eu sabia do carinho da mãe pelas  pessoas, mas na verdade, foi nos filmes e nos sets de filmagens que fui realmente  descobrir o tamanho do carisma dela. Ela tratava a todos como filhos e fez diversas amizades bem sinceras nesse período. Isso a deixou muito feliz. Muito!

Dona Zezé foi o coração dos filmes de seu filho, ou como sugere Milton Nascimento em A Voz Feminina do Cantor, não é possível entender a voz de um artista sem a voz que ele traz no interior, sem a voz que o gerou. Dona Zezé é certamente o que há de melhor e mais sensível que habita o diretor e sua obra. André Novais já tinha um conjunto de outros roteiros pensando nela, como o longa  Se Eu Fosse Vivo, Vivia, ainda no prelo. Tentando elaborar o luto, André retomou um material gravado em 2011 e o lançou dez anos depois como o curta Rua Ataléia, em que sua família conversa à luz de velas, iluminando pensamentos e memórias. Por fim, Dona Zezé protagoniza o derradeiro curta-metragem Nossa Mãe Era Atriz, faz uma homenagem póstuma que compila preciosos momentos da trajetória cênica da Dona Zezé que diz tanto da sua genialidade espontânea em cena, quanto da habilidade de André Novais de dirigir e projetar a carreira de atrizes e atores não profissionais, uma vez que sua família toda seguiu atuando em filmes de outras pessoas. E, para encerrar considerações sobre a Dona Zezé, trazendo a noção de ícone como a tradução do sagrado em imagens, é muito poderosa a ideia de que no  Ela Volta Na Quinta, Dona Zezé, negra à imagem e semelhança de Nossa Senhora Aparecida, tenha buscado alento no colo da padroeira do Brasil. A possibilidade de existência de uma atriz como a Dona Zezé é certamente um caminho de cura para as chagas do racismo no seio da nossa sociedade. 

No ano seguinte ao lançamento de Temporada, a Filmes de Plástico lança No Coração do Mundo, que curiosamente foi gravado antes, sendo ainda a obra que trouxe Grace Passô para o universo da produtora. O longa dirigido por Gabriel e Maurílio casa e amplia os argumentos dos curtas Dona Sônia e Contagem, com prequel do casal central, bem como envereda para um heist que aposta tanto na estética de uma malandragem mineira quanto na presença  de mulheres negras na vida do crime. Contagem, BH, Neves, Santa Luzia e Betim são  motherfucks Texas, como canta o “porteiro” MC Papo. 

O diretor Gabriel Martins assinou na sequência alguns curtas metragens sensivelmente comprometidos com o debate racial como o Nove Águas que conta a saga diaspórica de quase um século de quilombolas desde o Vale do Jequitinhonha ao Vale do Mucuri em Minas Gerais e a luta contra grandes mineradoras. Em Terremoto, o diretor  acompanha a vida da família Augustin refugiada no Brasil por causa do terremoto que arrasou o Haiti em 2010. E completando uma espécie de trilogia de obras flagrantemente negras, Gabriel Martins dirigiu um dos cinco episódios de terror que compõe a obra O Nó do Diabo, que trata dos pesadelos da escravidão e de seus espectros perenemente atualizados na vida cotidiana, cuja (re)existência é desde sempre inventiva. 

Por fim, a mais recente obra da carreira de Gabriel Martins é Marte Um, que marca em elevadíssimo nível o início de sua direção solo como longametragista, fazendo nossa negritude reluzir cinema. Every Nigger is a Star, canta Boris Gardiner. Mas o racismo insiste em apagar nossa luz. Por isso precisamos de mentes brilhantes para nos lembrar que merecemos viver de sonhos. O diretor Gabriel Martins nos leva até Marte para conferir um raro missaré nas telas.  E assim como a lua abraça a estrela, também derrama sua luz na pele negra para que o azul de nossas almas resplandeça. Todo menino negro merece um oceano de oportunidades para chegar onde quiser, seja na constelação do Cruzeiro ou em Marte. O longa conta o dilema de Deivinho, um adolescente bom de bola com chances reais de jogar no Cruzeiro, mas que prefere compor a expedição Marte Um prevista para colonizar o Planeta  Vermelho em 2030. Num país racista que sequestra nossa bola no jogo, como canta Racionais MC’s em A Vida é Um Desafio, um garoto ter opções é um grande avanço. E Deivinho compartilha  o protagonismo com sua família num filme-coral, em que cada personagem ou cena é composta com muita afinação.

O projeto inicial começava com a derrota da seleção brasileira para a alemã na copa do mundo de 2014, partindo do famoso mineiraço num filme que era muito mais cômico. Curiosamente, no edital que foi aprovado na Ancine, Tércia, a mãe do protagonista, é descrita como uma personagem ruiva, baseada na diarista do próprio Gabito. O enegrecimento de Tércia, brilhantemente vivida por Rejane Faria, a aposta numa família afrocentrada, a transversalidade do desgoverno bolsonarista, trazem adensamento político e poético à tela, dizendo muito do amadurecimento do próprio diretor, que não abre mão da malandragem do filme que habita lugares insuspeitos, como o personagem Wellington, pai do protagonista que é porteiro, assim como o arquétipo de Exu da Calunga. Wellington também é parça de Flávio (Russão APR), um trickster mineiro que habita o universo da Filmes de Plástico, produtora  que tem a malandragem de agradar patronos brancos como Carlos Reichenbach ou negros como Joel Zito Araújo, senso consenso de crítica e amantes do cinema. 

Favorecido pela atuação de um elenco maravilhoso, Gabriel Martins se prova um grande maestro na arte de nos fazer rir e chorar com viradas de cenas memoráveis de um drama com boa dose de chanchada e memes. Marte Um é um filme sobre e para famílias negras absolutamente necessário. Coincidência maravilhosa, enquanto Marte Um era celebrado em Gramado, outro filme de Gabriel Martins estreava no Kinoforum, o referido Terremoto. O filme começa com os preparativos para a chegada da pequena Niky, irmã de Neyla, cujo nome o pai lhe diz que significa “flor que brilha”. É muito lindo ver  Neyla vibrando com o próprio nome. “Eu sou brilhante, né, eu brilho na noite!” Seja a partir de Deivinho ou Neyla Augustin, de Niky Augustin ou de sua filha Teresa, Gabriel Martins se mostrou um jovem pai sensível na sua condução cinematográfica. Seja em Marte Um ou em Terremoto, os filmes de Gabito são zonas de convergências tectônicas que nos faz avançar eras na nossa cinematografia, gestando futuro.  E é essa obra prima da Filmes de Plástico que encerra o trio de  longas-metragens de jovens direções negras contempladas no único edital afirmativo da história da Ancine; que  tornou possível Um Dia com Jerusa de Viviane Ferreira e Cabeça de Nego de Déo Cardoso. O longa fez ainda a estreia do cinema mineiro na corrida para o Oscar, com incansável apoio da Universo Produções, que fomenta os diretores da Filmes de Plástico desde que Gabriel Martins era um adolescente nas oficinas da Mostra de Tiradentes. A Universo Produções que já homenageou a produtora de Contagem na 13ª CINEBH – Mostra Internacional De Cinema De Belo Horizonte Brasil Cinemundi – 10th International Coproduction Meeting, volta a celebrar a Filmes de Plástico, nesta edição da Mostra de Tiradentes, pois além de estrear a mostra Clássicos de Tiradentes, com o curta Meu Amigo Mineiro (2013), de Gabriel Martins e Victor Furtado, homenageia André Novais.

Assim,  às vésperas dos quinze anos da produtora Filmes de Plástico, a 27a. Mostra de Tiradentes celebra em especial a carreira do cineasta André Novais. Numa fase bem produtiva, o diretor trouxe três filmes para na matula: O aclamado O Dia que Te Conheci, com estreia premiada no Festival do Rio de 2023, uma comédia romântica autoral, que trabalha de modo singular questões delicadas como medicação psiquiátrica, insônia, demissão do trabalho e encontro amoroso, que traz em toda sua gramatura, as atuações de Grace Passô e Renato Novais. André, consagrado mestre da arte dos relacionamentos, aposta que quando pretos e pretas se amam, se curam, pelo menos na ficção. Especialmente para a sessão de abertura da Mostra, foram exibidos dois filmes inéditos: O curta Roubar Um Plano, co-dirigido com Lincoln Péricles, um fantástico non-sense sobre um trabalhador mineiro como uma espécie de herói sem muito caráter, que desiste de sua insatisfatória vida laboral, cujas portas foram abertas por um veterano paulista. Assim, Contagem se encontra com o Capão Redondo na cinefilia de dois titãs da periferia que fazem cinema. 

Por fim, o média-metragem Quando Aqui, concebido especialmente para a Mostra em tempo recorde. Dialogando com a ideia de tempo espiralar, a partir de um espaço habitado de tempo, André revisita sua obra, abrindo as portas da casa-quintal que o consagrou, numa espécie de álbum vivo. Dona Zezé é re-eternizada, enquanto seu Norberto se despede da casa-cenário que o fez metalúrgico, marido, pai e ator. Revelando novas facetas do diretor canceriano que troca de pele como quem troca de exoesqueleto, o filme conecta ciclos na carreira de André Novais, apontando futuros de um cineasta que ama filmar o amor em sua face doméstica. Ademais, o filme avança no amadurecimento de um cineasta que começa negro e periférico por coincidência, mas que agora desbrava maior consciência, forjada no mangue, com maior profundidade (in)consciente e coletiva. Quando Aqui pode ser lido como um concentrado contra o esquecimento, numa arqueologia que lembra um trecho de “Perder a mãe : uma jornada pela rota atlântica da escravidão”, da autora Saidiya Hartman.

Em Gana os cativos recebiam um banho cerimonial antes de serem vendidos, a fim de entregá-los livres das identidades anteriores. […] No norte, eles possuíam remédios tão poderosos que transformavam homens e mulheres vigorosos em escravos vazios e pacíficos. A planta ‘Crotalária Arenaria’, um pequeno arbusto leguminoso encontrado na savana, era chamada de ‘Manta Uwa’, que significa “esquecer a mãe”, em haussá. Os traficantes apregoavam que escravos que  ingeriam a planta logo esqueciam suas origens e não tentavam mais fugir.

Manta Uwa fazia esquecer parentes, perder de vista o próprio país e parar de pensar em liberdade. Ela expurgava todas as memórias de uma terra natal e arrancava a proteção espiritual da escrava. Ignorante de sua linhagem, a quem ela poderia apelar? Não mais capaz de lembrar dos santuários, ou dos bosques sagrados, ou das divindades das águas, ou dos espíritos ancestrais, ou dos feitiços capazes de exigir vingança por ela, a escrava era indefesa. Não mais a filha de alguém, a escrava não tinha outra escolha senão suportar as marcas visíveis da servidão e aceitar a nova identidade no lar de seu proprietário.

Era um fardo ser um estrangeiro numa terra estrangeira, e inteiramente pior ser um estranho para si mesmo.”

Quando Aqui  funciona como um antídoto para a Manta Uwa. E nada mais poderoso do que o encontro entre encantamentos ancestrais, cinematográficos e políticas públicas. Quando Aqui foi concebido graças ao apoio da prefeitura de Contagem, na figura visionária da prefeita Marília Campos, em seu terceiro mandato e da Universo Produções, a primeira grande apostadora na Filmes de Plástico. Assim, janeiro de 2024 celebra abril de 1968, 2009 e 2024, alimentando um ciclo de fertilidade política e cinematográfica de Contagem.  


 *Este texto é uma versão revisada e ampliada do artigo Filmes de Plástico offre la mer, Mars et l’Oscar au Minas Gerais. Publicado na Revue Cinémas d’Amérique Latine/Toulouse em Março de 2023


Viviane Pistache (Foto: Arquivo Pessoal)

Viviane Pistache é preta das Minas Gerais, pesquisadora, roteirista e, de vez em quando, crítica de cinema.


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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O Serviço Social da Indústria (Sesi-SP) promove, entre os dias 4 de abril e 23 de maio, uma programação com dez filmes que celebram o cinema...

A Sombra do Sonho de Clarice

O longa-metragem convidado para ser exibido no Lanterna Mágica no dia 21 de março foi O Sonho de Clarice, de Fernando Gutierrez e Guto...

Quando  Orí Protagoniza Uma Sessão de Animação

Um dos destaques da programação da sexta edição do Lanterna Mágica, festival de cinema de animação que acontece entre os dias 19 e 24...
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