A generosidade imensurável de D. Paulo Evaristo Arns

Nos anos duros da ditadura, ele nunca vacilou em ouvir e buscar um meio para estancar feridas e dores que afetavam os familiares de mortos e desaparecidos políticos

Por Amelinha Teles, do Ponte

Dom Paulo Evaristo Arns se foi. Nos anos duros da ditadura, ele deu voz às pessoas perseguidas pela repressão política, num gesto digno, corajoso e firme. Ele nunca vacilou em ouvir e buscar um meio para estancar feridas e dores que afetavam os familiares de mortos e desaparecidos políticos.

D. Paulo, então arcebispo de São Paulo, fazia questão de abrir a sede da Cúria Metropolitana, localizada na avenida Higienópolis, 890, para acolher todas aquelas pessoas que tinham seus direitos violados. Assim, ele salvou muitas vidas e socorreu famílias que não sabiam o que fazer diante de tanta violência do Estado brasileiro.

Eu passei a ter contato mais frequente com ele quando me integrei à Comissão dos Familiares de Presos Políticos do Presídio Militar “Romão Gomes”, no Barro Branco, Zona Norte de São Paulo, onde militantes políticos que participavam da luta contra a ditadura cumpriam penas elevadas, como 30, 40, até 90 anos. D. Paulo foi a primeira autoridade pública que ousou dizer que o Brasil precisava de anistia aos presos e perseguidos políticos.

No final de 1976, ocorreu o episódio que ficou conhecido como “Chacina da Lapa”, quando as forças da repressão cercaram e invadiram uma casa onde se encontravam os dirigentes do PCdoB Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, que foram executados friamente. Os agentes sequestraram e torturaram vários militantes, e assassinaram o também dirigente João Batista Drummond.

Eu e minha irmã, Crimeia de Almeida, ex-guerrilheira do Araguaia, recém-saídas da prisão, de imediato fomos alertadas por ativistas de que deveríamos nos precaver, pois havia grandes possibilidades de que a repressão nos pegasse de novo.

A nossa maior preocupação era nossos filhos Janaína, Edson e Joca, com respectivamente 9, 8 e 3 anos de idade. Eles já tinham sofrido muito nas mãos da repressão (em 1972 e 1973) e estavam sob cuidados terapêuticos por conta dos traumas. Eles não deveriam novamente passar pelo aparato repressivo e sofrer ameaças e ataques. Meu marido, César Augusto Teles, se encontrava no Presido Romão Gomes, cumprindo a pena de cinco anos a que havia sido condenado.

Juntas, achamos uma solução: falar com D. Paulo e pedir que cuidasse de nossos filhos caso fôssemos presas ou mortas. Como já era de noite, solicitamos uma audiência extra a Irmã Lourdes, sua secretária. Ele nos recebeu e pediu que escrevêssemos uma carta declarando que caso nós desaparecêssemos ou fôssemos sequestradas, ele, D. Paulo, cuidaria de nossos filhos conforme a vontade das mães: Amelinha e Crimeia.

Essa carta, de poucos parágrafos, foi escrita com caneta esferográfica em sua própria casa, e com ele ficou. Não tivemos tempo de fazer uma cópia. Deve estar nos seus arquivos pessoais, penso eu. Felizmente não fomos presas e nossos filhos continuaram conosco. Mas esse acolhimento generoso de D. Paulo jamais poderá ser esquecido.

Escrevo este texto no momento em que ele está sendo enterrado na Catedral da Sé, na tarde de sexta-feira (16/12), e não paro de me lembrar dele e de suas ações generosas. O gesto de ter aceitado adotar nossos filhos, sem titubear, marcou para sempre nossa vida.

* Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, é ex-presa política, militante feminista, diretora da União de Mulheres de São Paulo e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos

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