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Hei, contabilize meus acertos

Hei, contabilize aí, por favor, todos os meus acertos, mas não se esqueça de nenhum, hein? Desde o dia em que fui sequestrada de África e precisei fechar os olhos pra não morrer de tristeza profunda ao deixar pra trás a vida maravilhosa que tinha com minha família naquelas terras de Nzinga.

Por Eliane Silva enviado para o Portal Geledés 

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Anote aí, bem delineadamente e com cores fortes da tinta preta da caneta, ou tecle delicadamente com deus dedos fofos, que aquela dor precisa ser contabilizada, porque ela se arrasta até hoje. Marque que a viagem nos porões obscuros foram incessantemente horrorosos, e que muitos dos meus irmãos e irmãs não chegaram em terra firme. Morreram de banzo, de dor, de estupros múltiplos, de fome e de outras infinidades de atrocidades as quais o europeu testou em nossos corpos.

Não se esqueça de anotar também que sou sobrevivente de uma matança de meu povo. Que cheguei a este país, junto com outros muitos irmãos de civilizações africanas, buscando me comunicar, na medida do possível, e entoando, a contragosto do sistema escravagista, cantos de libertação, que atravessavam a alma daquele que estava na mesma situação que eu.

Que busquei dar o meu melhor na cozinha, na lavoura e no amamentar das crianças brancas, das suas crias! Fui mãe de leite, e meu irmão, foi reprodutor de seres gigantes que seriam preparados para serem seus escravizados. Tudo isso com vocês nos chicoteando, insultando e nos humilhando o tempo todo.

Contabilize já, eu exijo!E instigue sua memória pelo menos para conseguir contabilizar cada um de meus acertos, dos acertos de meus ancestrais ao tentar sobreviver de todas as formas, usando estratégias surreais de um passado de reis e rainhas, pra que eu pudesse dedilhar neste computador e expor o quanto vocês são bons em apontar defeitos meramente inventados para nos invalidar.

São bons nisso, já sabemos de seu truque torpe. Já sabemos de seu jogo sujo e, por isso, entendemos também que quando chegamos com nosso gingado em busca dos espaços que nos foi negado, vocês procuram jogar areia em nossos olhos, fazem um Au atrapalhado e sorriem de uma vitória que foi, por ora, rapinada.

Bem como, registre em suas folhas, as muitas derrubadas de terreiros e assassinatos em massa de benzedeiras, capoeiras, quitandeiras, zumbis, dandaras e escritores negros que escancaravam suas práticas racistas. Tentam nos matar aos poucos, senão por mortes sangrentas, buscam aniquilar nosso psicológico, querendo confundir pra sempre vencer.

Sabemos de sua estratégia racista de sempre, ela só mudou um pouquinho de forma, mas continua sorrateira e cruel, que nos persegue a cada dia, a cada tentativa de requerer o que nos sempre foi negado. Seus olhos se esbugalham e sua face se avermelha ao nos ver subir ao pódio. Pisa ligeiro, contabilizador de ‘erros’ de negras e negros, porque nós avançamos a cada dia, mesmo que você se contorça na cadeira ao visualizar meu rosto lindo e minha mente genial nos lugares que até outro dia era todo de sua linhagem.

A gente chega devagar porque sua desconfiança e racismo sempre buscam nos tirar das jogadas todas, todas! Contabilize isso. E anote aí que algumas pretas e pretos ficam pelo caminho devido os tiros todos dados por vocês, mas alguns se desvencilham, usa aquela brecha na porta mais estreita…e chega. E quando ele chega, faz revolução. Anote aí!

 

*Eliane Silva –  Graduada em Letras/ UFMS
Mestre em Filologia e Língua Portuguesa/USP
Pesquisadora do CEPEGRE/GEPEGRE-UEMS


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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