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Intolerância religiosa: a livre expressão do racismo brasileiro

Intolerância religiosa: a livre expressão do racismo brasileiro

No Rio de Janeiro, umbandistas do Centro Espírita Irmãos Frei da Luz foram agredidos com pedradas pelos frequentadores de uma Iurd situada ao lado desse Centro, na Abolição. Uma adepta da Tenda Espírita Antônio de Angola, no bairro do Irajá, foi mantida por dois dias em cárcere privado numa igreja evangélica em Duque de Caxias, com o objetivo de que esta renunciasse à sua crença e se convertesse ao evangelismo. Em Salvador, […], uma iniciada no candomblé teve sua casa, no bairro de Tancredo Neves, invadida por trinta adeptos da Igreja Internacional da Graça de Deus, que jogaram sal grosso e enxofre na direção das pessoas ali reunidas durante uma cerimônia religiosa […] Em São Luís, capital maranhense, alguns fiéis da Assembleia de Deus residentes no bairro acusaram os chefes do Terreiro do Justino, localizado na Vila Embratel, de sequestro de um bebê, filho de um casal de frequentadores da igreja que residia na vizinhança. Acreditavam que o bebê teria sido raptado para ser sacrificado nos ritos do terreiro. […] O terreiro, fundado há 104 anos, é um dos mais antigos da cidade e vem sofrendo pressões por parte dos evangélicos do bairro para que seja transferido dali. […] Uma mãe-de-santo da Cidade Tiradentes em São Paulo reclamou de um carro de som, contratado por uma igreja neopentecostal das imediações, que parava ou circulava insistentemente em frente ao seu terreiro para anunciar em alto volume as “sessões de descarrego” realizadas na referida igreja. (SILVA, 2007, p. 12-14)

Brasil.

Por Joice Berth, do Justificando 

País de diversas negações e contradições sobre sua própria história, sobre a formação de seu povo e sobre os mais vergonhosos problemas que descendem dessa negação e contradição. Todas as verdades por aqui são mascaradas, sobretudo aquelas que exigem trabalho apurado de autocrítica e humildade para quebrar tabus e regras perigosamente arcaicas e promover mudanças permanentes.

 

O mito da democracia e liberdade de expressão que nunca experimentamos, o mito da comunhão racial cunhado em meio a efervescência contínua do racismo estrutural, a falsa valorização da figura da “mulher brasileira” que encobre a misoginia e potencializa estereótipos dentro e fora do país, o tratamento promíscuo e irresponsável que se dá a formação de nossas crianças e adolescentes, entre outras diversas incongruências que fazem parte do nosso estado natural de coisas e não estão na pauta do dia.

“O profundo das coisas não está na pauta do dia. De nenhum dia.” Micheliny Verunschk em Nossa Tereza – Vida e Morte de uma santa suicida.

Mas, essa atitude de jogar a sujeira para baixo do tapete, ao longo da nossa história, vem se mostrando de uma ineficiência persistente e proveitosa, pois vez por outra, um assédio aqui, um estupro coletivo ali, um Rafael Braga acolá, joga na cara da sociedade a sua hipocrisia passiva e covardia pujante.

Como é o caso dos recentes vídeos propagados nas redes sociais, onde traficantes evangélicos violentam casas de culto religioso africano (ou de dissidência africana), que trouxe para os 15 minutos de debates rasos e indignações passageiras, um sofrimento que, além de histórico é seguramente uma ramificação da expressão do racismo arraigado nas estruturas e instituições alocadas desde o extremo sul ao extremo norte do país.

E não devemos nos ater ao rótulo de ‘traficantes evangélicos’ para destilar argumentos e contrapontos, sob pena de cair em outro erro histórico característico do nosso povo: o esvaziamento sumário das discussões, uma vez que, o Brasil é racista e a manifestação desse racismo não é concentrada em um só ponto, em uma só pessoa ou instituição.

Há que se considerar os preconceitos de toda ordem que se assentaram no senso comum dos brasileiros e estão vivos nas mais variadas vertentes sociais, reverberando como heranças devidamente costuradas pela ação do tempo que transcorre sem confrontá-las de forma madura.

Um desses preconceitos gira entorno da crença de que se pode afetar e/ou interferir na vida de qualquer pessoa, pela manipulação de receitas e ingredientes mágicos, em rituais caricatos de feitiçarias e/ou bruxarias associadas a figura de uma legião de forças malignas ocultas que a princípio, daria esse enorme poder para seus adoradores. Isso faz parte das escusas intenções políticas que rondaram a igreja católica na idade da “Santa” Inquisição, onde se queimavam pessoas praticantes de outras expressões do sagrado.

Sendo o Candomblé uma religião trazida pelo povo que seria colocado no lugar de selvagem, sem alma, a associação dos seus rituais com práticas diabólicas que divergiam do que pregava a hegemonia católica seria óbvia.

E isso se estende até hoje, a associação das práticas de matriz africana com o diabólico, com o destrutivo, antagônico a toda santidade pautada pela ideologia colonizadora europeia. Esses estereótipos e preconceitos, aliados a estrutura racista que se impunha, perduram até hoje e são argumentos constantes na explicação dos ataques, devidamente potencializado pelos meios de comunicação e seus desrespeitos para com as religiões de origem africanas.

Cabe lembrar aqui que Racismo não é preconceito, embora este último seja uma das práticas atreladas a manifestação do racismo.

Esse pensamento, advém das imposições e manipulações históricas da igreja católica que, ao cunhar a dualidade bom/mau, divide aquilo que é indivisível e indissociável: o ser humano e suas tendências positivas e negativas, suas contradições e suas incongruências, sua luz e sua sombra.

Essa divisão é ainda hoje não só praticada, como sustentada pelo conservadorismo cínico que julga quem é bom ou mau de acordo com seus padrões e conceitos, definidos de maneira parcial e guiado pelo interesse político que atua por trás dessas divisões.

As religiões evangélicas ou neopentecostais muito bem sucedidas na renovação do passado assombroso de interferência política nos meios religiosos, embora se esforcem para trazer outras formas de cultuar e expressar religiosidade a seus adeptos, não conseguiu (ou convenientemente não quis) apartar esses conceitos tortos e perigosos que já estavam arraigados na personalidade religiosa do povo brasileiro.

Tão arraigado que ao longo da história dos terreiros de Candomblé e Umbanda (sua maior e mais conhecida dissidência, mas não a única), perseguições e ataques foram lançados livremente tendo inclusive, respaldo e reforço policial para sua execução.

A primeira manifestação de intolerância foi para com os indígenas, o que os manipulados livros de história chamam de catequização e que nada mais foi do que a imposição violenta da hegemonia europeia para apagar e doutrinar as expressões religiosas desses povos que aqui já viviam.

Repetiriam isso mais tarde, com os africanos quando da escravização que necessitava do mesmo modo de atuação neutralizadora.

A intenção é sempre de reprimir e eliminar os cultos em um primeiro momento. Mas quando olhamos mais intimamente, constatamos algo que pouco se falou no âmbito público, embora grandes sacerdotes dessas religiões sabem que é verdade: o racismo velado e anulação da expressão cultural e religiosa que remete a ancestralidade africana presente na formação do país.

Dados analisados apontam que, outras expressões de rejeição a religiosidade acontecem, tendo igrejas tanto católicas quanto evangélicas sendo alvos de ataques.

Mas de todos os dados colhidos, destaca-se que 70% dos ataques são dirigidos a religiões de culto africano. Isso porque muitos adeptos não denunciam, os casos relatados são os que tomam maiores proporções públicas. Estima-se que muitas outras violências cometidas não sejam notificadas, até por medo de represálias.

Mas não só esses números direcionam a análise que comprovam que esses ataques são sumariamente ligados ao racismo.

A maneira desrespeitosa com que Candomblé e suas dissidências são tratados nos meios de comunicação é sim um termômetro e um incentivador das práticas violentas de repressão racista a essas expressões religiosas.

A constante ridicularização de seus dogmas e rituais, a rejeição e marginalização direcionadas aos adeptos que assumem publicamente que comungam sua fé nos cultos afros, deixam muito evidente que estamos diante de um problema racial.

Os ataques sofridos por outras religiões que tem adeptos no Brasil, são sobremaneira caracterizados por requintes de distúrbio psicológico e fanatismo e essa informação, em geral, é ocultada ou negligenciada. Mas procure ouvir os que são presos após esses ataques, não podemos afirmar que de fato são pessoas com problemas de ordem psicológica sem o devido diagnóstico de profissionais qualificados, mas muito me espanta que esse levantamento não exista ou no caso de existir, não sejam públicos.

De qualquer forma, ainda que essa hipótese seja descartada, faço a seguinte pergunta:

Porque na história da segurança pública não há relatos de repressão executada pela polícia as igrejas, tanto católicas quanto evangélicas, entre outras manifestações religiosas que não estão sendo citadas, como Budismo ou diversas seitas de culto oriental?

E porque nenhuma dessas religiões citadas são associadas a forças demoníacas ocultas?

De qualquer forma, a ignorância e desconhecimento dos cultos africanos, são também um facilitador das agressões, bem como a cumplicidade entre o poder público e a sociedade, que rejeita tudo que é negro, tudo que remete a ancestralidade africana inegável na formação do Brasil.

Muitas pessoas insistem em dizer o contrário, afirmando que não são apenas os cultos africanos que sofrem perseguições. O que é uma verdade, mais ainda que não tivéssemos a prova em números e os relatos verbais dos adeptos, teríamos o registro da história para provar que a perseguição religiosa aos cultos de origem africana são um braço ativo do racismo estrutural:

“Os candomblezeiros eram espancados, seus instrumentos musicais destruídos, as comidas derramadas e suas brincadeiras acabadas prematuramente. Esta fase coincidiu com a gestão dos governadores/interventores Dr. Eronides de Carvalho e do interventor Federal Tenente Augusto Maynard.” (OLIVEIRA, 1978).

Se aprofundamos mais a questão, também enxergaremos outros motivadores oriundos das opressões que estruturam nossa sociedade. Essas religiões, por terem dogmas e rituais mais inclusivos e que aglutinam a diversidade, são muito acessados por pessoas da comunidade LGBT e dentro dos cultos, o protagonismo feminino é respeitado como em nenhum outro lugar da sociedade.

As “mães de santo” ou Ialorixás, são poderosas e atuantes, recebendo respeito e exercendo o poder de forma igualitária, nunca sendo desrespeitadas ou contrariadas pelos adeptos e por autoridades masculinas (pais de santo ou Babalorixás).

Mulheres e LGBTs compõe tradicionalmente o roll de adeptos, pois a ancestralidade africana, quando pura e bem consciente, tem um discurso muito mais abrangente e livre de padrões moralista do que as outras principais representações religiosas de origem europeia, como é o catolicismo, por exemplo.

Nos cultos africanos, o bem e o mal não são antagônicos, são complementares e necessários ao entendimento e crescimento de seres humanos no sentido holístico. Um não vive sem o outro e os dois são caminhos de aprendizado. Não há punitivismo pragmático, há entendimento e correção do caráter, pois quem carrega Orixá tem o dever de buscar elevação contínua, seja aqui nesse momento da existência ou no próximo plano. A morte não existe enquanto fim e merecimento tem outras conotações.

Outras formas de intolerância também são praticadas dentro dos cultos de matriz africana e precisam ser abordados. O embranquecimento e a distorção dos dogmas e elementos dos cultos africanos tem aumentado ao longo do tempo, fruto da apropriação cultura trazida pelos adeptos brancos que não se contentam com o acesso democrático ao compartilhamento da religiosidade africana e desse modo representam uma outra forma de repressão racista sobre as heranças culturais negras, pois pretende eliminar sujeitos negros de seu leito cultural ancestral e apagar as características que o definem para, através da imposição de uma lógica colonizadora histórica, escrever uma narrativa eurocêntrica que cumprirá com o apagamento do mesmo modo que a repressão física por meio da violência policial tem feito.

Quando essa imposição da hegemonia branca não é praticada silenciosamente, a omissão de adeptos brancos de sua permanência dentro dos cultos quando das medições e levantamentos, como do IBGE por exemplo, também é uma forma de intolerância bastante preocupante. Ao se abster da obrigação de resistir junto ao povo negro para defender o legado que abraçou, esses adeptos, por racismo acrítico, endossam os discursos demonizadores que saem das bocas de outros adeptos. Eles se unem ao fluxo de racismo, ainda que não seja essa a intenção.

Essas e outras práticas, principalmente a da imposição da hegemonia eurocêntrica dentro dos cultos, deve ser assimilada como a incapacidade da pessoa branca em se adequar a qualquer outra cultura que não seja a sua (ou que ela não se veja como eixo central), sem alterá-la para que a sua subjetividade esteja presente e facilmente reconhecida, já que sujeitos brancos, enquanto não abandonarem sua mentalidade supremacista e desenvolverem a autocrítica sobre sua colaboração dentro das estruturas de privilégio racial, serão sempre colonizadores a serviço da opressão.

Isso é apropriação cultural e também se aplica a religião, pois ainda que saibamos que a Umbanda e principalmente o Candomblé não são expressões únicas da religiosidade africana, elas ainda cumprem uma função cultural, tendo em vista que o apagamento da história da presença negra no Brasil é pobre e reduzido em função das destruições intencionais de agentes humanos do racismo institucional.

E por fim, a intolerância religiosa existe, embora “tolerar” não é a palavra adequada partindo do princípio de que estamos em um país laico, logo, respeitar seria a única alternativa plausível a ser cumprida nesse contexto.

A tolerância, nesses casos, também é limitadora e impositiva, pois sempre dará a ideia de que algo está fora do lugar, inadequado, inapropriado, mas que deve ser “tolerado” pela manifestação da superioridade hegemônica que do alto de seu egoísmo se acha detentor de espaços e decisões. A palavra “tolerar” nesse contexto, corrobora para a manutenção dos estereótipos e preconceitos que compõe a esfera do racismo aplicado ao campo da religiosidade.

“Tolerar, ao contrário do que se vende por aí, não significa aceitar, aceitar com plenitude, como requer qualquer verdadeira aceitação. Tolerar significa, antes, uma espécie de licença especial para que o outro, com seus exotismos e discrepâncias, possa existir. Tolerar é aguentar o outro apesar dele mesmo. É tomar xicarazinhas de café e sorrir no cumprimento, e, sob a impunidade das portas fechadas, sejam elas as de casa ou a do próprio coração, reconstruir o outro segundo os moldes que nos interessam e que no outro não se encaixam.” Micheliny Verunschk em Nossa Tereza – Vida e morte de uma Santa suicida

Aceitação também não é um bom termo, pois nenhum adepto de culto religioso está oferecendo nada, nenhum de seus dogmas e tradições, para apreciação e opinião da sociedade.  Brasil é legislativamente falando LAICO, todas as práticas religiosas são legítimas e reconhecidas.

Respeitar e usar o espaço social de maneira democrática e cordial, convivendo com as diferenças, entendendo que toda hegemonia é anormal e impositiva é pré-requisito para que possamos ser chamados de povo civilizado.

Combater essas violências seculares que se levantam como braço ativo do racismo estrutural, faz parte da nossa cura social e deve ser levada a sério, inclusive com maior rigor dos poderes públicos para coibir e proteger os adeptos, negros, brancos ou de qualquer outra etnia, que comunguem da beleza e da riqueza cultural expressa nos cultos ancestrais de matriz africana.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.


Referências

SILVA JR, Hédio. Notas sobre sistema jurídico e intolerância religiosa no Brasil. In: SILVA,

Vagner Gonçalves da (org.) Intolerância Religiosa: impactos do neopentecostalismo no

campo religioso afro-brasileiro. São Paulo: EDUSP, 2007.

OLIVEIRA, Agamenon Guimarães de. Candomblé sergipano. Aracaju, SEC/CDFB, 1978.

Verunschk, Micheliny. Nossa Tereza – Vida e morte de uma Santa Suicida. Editora Patua, 2014

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