sábado, novembro 26, 2022

Memórias em carne viva

Os olhos estão cheios de lágrimas e de esperança ao mesmo tempo. O navio ‘branqueiro’ a nos carregar nas águas turvas da hipocrisia e do cinismo. A mudez ativa dos bons colonos que estão lá nas escolas, lá na universidade, lá nas igrejas, perto lá de casa, aqui, e em quase qualquer canto onde eu esteja. As dores são tamanhas e os gritos são tão altos que o silêncio fica mais silente, pois os exageros dos gritos estão sempre a ser calados.

Por Francisco Nonato do Nascimento Filho via Guest Post para o Portal Geledés

Pelos infames privilégios de cor e religião de uns, a gente negra tem seus corpos apedrejados, todo santo dia. O apedrejamento faz parte de um processo itinerante de tempo e espaço dos esforços racistas, conscientes e inconscientes, para apagar a memória ancestral das negritudes, negada no cotidiano: sem quilombo demarcado, sem direito a vida, sendo o objeto de escolha na seleção penal, no extermínio das juventudes, na intolerância religiosa.

O ódio aos orixás, aos caboclos, aos exus as pomba giras, aos nossos tambores, rituais, adereços e tudo o mais que se expressa na pele viva, é também o ódio às forças que fortalecem a negrada, a magia negra que nos anima a sermos nós mesmos e resistir ao projeto ‘embranquecendo’ de uma sociedade à luz do sol. As violências são medidas de continuidade ao extermínio da memória coletiva de todo um povo. Perdas que se movimentam em espaços desumanizados e animalizados. Difícil de explicar para quem não vive a violência pelo lado violentado. É possível entender quem não entende. Perdoar, porém, já não digo que seja fácil.

A cultura iluminada da igualdade é tão longe dessa noite estrelada que somos, e tão perto da noite perigosa que pensam que somos! Minha desigualdade é racial, entende? Não se trata de ‘afro-conveniência’, é real mesmo, e há dias, milhares deles! Daí, eis que somos um perigo real, mediante o qual resistimos ao silêncio dos bons e às concessões dos apodrecidos. No final todos nos temem. E é na esperança que, vez ou outra, devo saudar a solidariedade dos privilegiados amigos no intermitente reino colonial.

Curioso é chegar na esquina da universidade do saber, quando cruzo seus portões, sento nas suas cadeiras e me obrigo à uniformização de seus conteúdos. A coisa não é muito diferente (nunca foi) dos portais do ‘esquecimento lembrança’ espalhados aí. Rebatizado serei com um novo nome, novo ser e ver? A cor não sai de mim, e nem pega nos outros. Mesmo se minha negrura é uma desconfiança constante, diabólica feiticeira do mal. Confesso que pra mim é perigoso também, faz mal, a civilização está ‘de olho’. Sempre. Mesmo os bons de coração fazem da nossa vida um porvir civilizante. Nos interpretam e nos traduzem nos patrões ‘eurointelectualizantes’. Vezes há em que o silogismo é alimento, pois quanto à língua dominante, que solução há? Afinal, quem orienta produção negra, enegrecida?

No geral, circulo pelo centro e vivo na periferia. Centro que se arvora de me garantir a vida e periferia que me acolhe o sono. Quando não, as ruas, calçadas e sobras gerais estão aí. E a polícia também. Mas enfim, vou enegrecendo o centro, enfrentando sua higiene. O centro que não é preto em si, luta para destruir nossa memória e sacrifica nossos corpos. Sei não, mas parece que a nossa existência negra é um eterno mal estar para a braquitude em alerta.

E sabe o sentimento do navio? Então, ele arranca a gente do chão e joga no ar das oportunidades para todos, nas políticas publicas ‘universalizantes’, nas oportunidades de coisas que ajudaria a igualdade entre a gente. Mas vá lá, pra ver uma coisa… a igualdade iluminista ilumina tanto que a gente nem é percebida, só é falada, aqui e acolá.

É o pelourinho geral e contínuo. As dores ainda são dores, o sangue continua a escorrer e pior, até no olhar transformador que pensa em civilizar e desenvolver nossas vidas. O estupro é coletivo, está bem perto e as nossas mulheres são as fêmeas. Mas o silêncio produzido e pensado não deixa escutar as lágrimas caídas dos olhos negros das mães de janeiro a dezembro na favela, na cadeia e no presídio. É exagero? Eu sei desde aquela criança chamada de macaco, silenciada pela ‘normalidade’ da comparação. Nada contra os macacos, eles são lindos e pelos racistas mal vistos, por terem a nossa cor.

Pois taí, que o clube de pretos e pretas exagerados estão gritando nesse silencio terrível que se espalha em todo canto. Procurando construir a esperança que nasce de cada toque nas favelas, na quebrada, nos morros e nos campos, em cada passo dançado em nossos terreiros, na autodemarcação e retomada quilombolas. Em cada fio de conta de santo rezado na parada do ônibus, em frente à Igreja Universal, onde os gladiadores estão vivos e atentos. Estamos aqui pessoas! Ao seu lado, mas o invisível sempre é invisibilizado e desconsiderado. Gritemos as angustias não faladas, silenciadas por um suposto “exagero Brasil”.

Acreditemos que nossas dores têm uma geografia de compreensão e atenção lá no beco da favela do gato preto, no quilombo do Cumbe, no som das Tambores de Safo, no Samba de Rosas, nas Cumades do Rap, no terreiro de Aninha de Aganju, no samba de Edithe, na macumba da penha e na esquina da minha rua. Espaços visíveis, onde as angústias são ditas e escutadas. ‘Espaços fontes’ de rebeldia são também os corações e olhos de pretas e pretos que vão passando perto a perto do centro.

E vou dizer uma coisa: mesmo com nossas existências violadas temos o abraço que renova nossas forças nos braços dos Orixás, na beleza e ousadia das Yalodês. Então, nesse navio que ainda estamos aprisionados sintamos esses braços e abraços a consolar nossos corpos tão machucado. O chamado valente e caloroso de nossa ancestralidade. Amemos essas impressões digitais em cada uma e cada um. Dane-se! Cruzemos as ruas em ênfase de negritude, da pele ao cabelo, ao canto, da fé aos fios de contas e cores.

A luz brilha sobre o escuro, enegrecer a luz é coisa para o corpo negro marcado, calado e silenciado por estar em constante exagero. Vai agora a exagerar sim, em cada esquina desse centro. Continuamos a dançar para recuperar nossa memória. Nem o senhor, nem a igreja, nem a bíblia e nem a mídia vão nos apagar. Seremos o perigo das injustiças, o efeito colateral, o revide do amor, o desmantelo da pálida paz. Com os ritmos de nossa poética revolução e com tambores e samba nas ruas, ocupemos a existência em múltiplas dimensões, lugar de cores como contas de orixá no pescoço. Então, as marcas de uma nova noite começam a ser gestadas no encanto negro da gente, daqui e de lá.

Nessa noite gritante, sorrirei a cada passo teu, ouvirei cada palavra tua, alarme dos raios a destruir os danos. Tuas mãos estão cheias de pedaços de brilhosas soluções para essa inquisição tardia, tão dia a dia que dói até na vista.

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