segunda-feira, novembro 28, 2022

Música Afro-Urbana Brasileira

por Clodoaldo  Arruda

A música brasileira é, sem dúvida alguma, uma das melhores do mundo. Sua qualidade é atestada por todos os músicos e críticos do planeta, não só por suas várias vertentes, gêneros e sub-gêneros ou por suas várias influências étnicas e culturais, mas por sua grande capacidade antropofágica. Por sua facilidade de importar estilos, estéticas, ritmos e técnicas, adaptá-los, transformá-los e devolvê-los completamente modificados, mutados em algo novo, que, depois, será mais um elemento que nós vamos chamar de MPB (música popular brasileira).

Na música negra e urbana do Brasil, essa transformação ocorre de forma ainda mais rápida e soa ainda mais natural. Num país de maioria afrodescendente e de dimensões continentais como o Brasil, temos espaço e elemento humano para aprendermos várias músicas negras e criarmos várias MPBs.

Podemos citar vários exemplos de movimentos musicais: a Tropicália, com suas fusões de rock’n’roll, bossa nova e músicas regionais nordestinas, seguida pelos Novos Baianos, primeiros a misturarem guitarra com cavaquinho, o samba-esquema-novo de Jorge Ben(jor), e sua batida inconfundível que unia bossa nova, samba das quadras de escola de samba e rock’n’roll, sem contar a própria bossa nova, que possibilitou tudo isso ao dar o swing do samba aos acordes complexos e requintados do jazz norte-americano.

Era a música africana na diáspora crescendo e se fundindo. Temos o samba-reggae nascido nos blocos afro da Bahia como o Olodum, Ilê Ayê e Muzenza, além dos vários trios elétricos e grupos de samba-duro (samba de roda) do recôncavo baiano. Mesmo movimentos que, aparentemente, não se valiam dessas misturas, como a Jovem Guarda ou o rock da geração dos Anos 80, imprimiam ao rock de influência inglesa e americana um tom, um molho genuinamente brasileiro. Na década de 90, em Pernambuco, o movimento mangue-beat uniu punk, hip hop, funk, soul e música eletrônica com maracatu, ciranda e côco. Lembra da Tropicália? Pois é, era a Geléia Geral profetizada pelos tropicalistas re-acontecendo.

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o Hip Hop e, em seguida os bailes funk, viram os maiores movimentos sócio-culturais da periferia a partir dos anos 80, como continuidade do movimento Black Soul dos anos 70. No caso do Hip Hop, além de recuperar a estética do Orgulho Negro, com tranças e cabelo afro black power, através do recurso tecno-eletrônico do sample, que possibilita usar trechos de músicas antigas para criar músicas novas, o Hip Hop cria ídolos novos (Thaíde, Racionais MCs, MV Bill), e resgata figuras da black music para as novas gerações (Tim Maia, Jorge Benjor, Cassiano, Banda Black Rio), que, devido às inconstâncias do mercado fonográfico e da mídia, tinham suas carreiras consideradas acabadas nos anos 80, a despeito de seu enorme talento e importância.

Pronto: a geléia geral estava formada de novo. Jovens negros e pobres, vindos de regiões violentas e afastadas estavam fazendo música sem nenhum conhecimento teórico-musical ou de informática, apenas utilizando computador e os discos velhos de seus pais. Novamente, o Brasil importou, absorveu, adaptou e criou, nascia assim o rap brasileiro. Mais do que isso, nascia a música urbana brasileira, seguindo a tendência das grandes capitais da cultura ocidental. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife não deviam nada a Nova York, Londres, Berlim ou Paris.

Além de Thaíde, Racionais MCs, DMN ou MV Bill, ainda em atividade, hoje, Rappin Hood e Marcelo D2, já apontam outros caminhos para o rap, fundindo Hip Hop com samba. Resumo do Jazz, Afro-Verso e Alquimistas (o coletivo chamado Clube da Rima) aponta caminhos que unem o hip hop ao jazz, ao samba-rock, à MPB e à música cubana e afro-latina.

No exterior, ingleses, franceses, alemães, norte-americanos, entre outros, já se renderam ao talento dos DJs brasileiros fazendo com que o Brasil se torne referência na cena da música eletrônica em todas as suas vertentes, principalmente o Drum´n´Bass com os DJs Marky, Patife, Xerxes, Ramilson Maia, Marcelinho Da Lua, Dolores, Drummagic, entre outros.

O Hip Hop, o samba-rock, o mangue-beat, o funk, o soul e a música eletrônica são genuínos exemplos da música afro-urbana brasileira.

 

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