“Não aguento mais publicar matéria de criança morta”

Artur Voltolini, editor do Favela 247, escreveu artigo lamentando o assassinato de Herinaldo Vinicius de Santana, de 11 anos, e a naturalização da violência no país: “Quantos amigos do Herinaldo não foram pra praia no último fim de semana? Será que eles foram só ‘para curtir’? Ou foram pra ‘esculachar’? Não sei, mas a vontade que eu tenho agora é de sair por aí de bermuda, sem camisa e nem dinheiro, fazendo um arrastão triste e solitário em protesto a todas as crianças negras que ainda vão morrer dentro da favela em que o Estado as quer em cárcere, por serem ‘vulneráveis’ demais para sair de lá”

Por Artur Voltolini, para o Favela 247

Foto:  Paula Giolito/O Globo 

Não aguento mais publicar matéria sobre criança morta

No último dia de dezembro fará dois anos que edito o Favela 247, e durante esse período já perdi a conta de quantas matérias de jovens e de crianças mortas pela polícia já publiquei. E o pior, devo ter perdido também a conta de quantas mortes de jovens em favelas já passaram por mim sem serem publicadas. É muito triste perceber o processo de naturalização dessa violência absurda dentro de você mesmo. Sou editor, curador de conteúdo, tenho limitações de pessoal e linhas editorias a seguir, este canal não é um folhetim policial. Segundo a Anistia Internacional, mais de 20 mil jovens negros e pobres são assassinados todos os anos no Brasil. A porcentagem desses crimes que viram matéria não chegam a uma casa decimal.

Ontem à noite recebi pelo Favela 247 uma mensagem de um perfil anônimo doFacebook com um vídeo horrível mostrando um menino morto na favela do Caju. Não sei se foi impressão minha, mas tive a impressão de ter visto ali seu último suspiro de vida. Eu ainda não tinha informações o suficiente para dar uma matéria, e fechei o expediente. A imagem do menino me acompanhou por toda a noite.

Hoje de manhã o menino morto já tinha nome: Herinaldo Vinicius de Santana, de 11 anos. Ele estava descendo correndo por um beco para comprar bolinhas de pingue-pongue quando um policial se “assustou” com a cena e deu um tiro de fuzil em seu peito. Recebi outro vídeo em que moradores, chorando de raiva e tristeza, apontavam quem era o policial acusado da barbárie. Não sei se o policial é um monstro, ou se do alto de seus seis meses (isso mesmo, seis meses) de formação para ser policial, armado com fuzil de guerra dentro de uma favela com UPP, ele pudesse estar realmente assustado.

É tudo triste demais, horrível demais e cínico demais. Dá raiva, porque eu sei que nada, mas absolutamente nada está sendo feito para mudar esse quadro. E eu sei que enquanto eu trabalhar aqui eu vou dar mais um monte de matéria sobre crianças mortas em favelas ocupadas por forças de segurança armadas para a guerra.

E enquanto isso o governador dessa bagunça diz que vai prender todo mundo que estiver de bermuda e sem camisa e nem dinheiro a caminho da praia. E o prefeito desse consórcio diz que jovens pobres fazerem arrastão na praia não é problema social. Quantos amigos do Herinaldo não foram pra praia no último fim de semana? Será que eles foram só “para curtir”? Ou foram pra “esculachar”? Não sei, mas a vontade que eu tenho agora é de sair por aí de bermuda, sem camisa e nem dinheiro, fazendo um arrastão triste e solitário em protesto a todas as crianças negras que ainda vão morrer dentro da favela em que o Estado as quer em cárcere, por serem “vulneráveis” demais para sair de lá.

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