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O fantasma da eugenia paira nas redes sociais no Brasil

por Leonardo Dallacqua de Carvalho enviado para o Portal Geledés

Embora muitos tenham tomado conhecimento da eugenia na voz de Adolf Hitler, ela já existia desde o século XIX. Seu fundador, o cientista inglês Francis Galton (1822-1911), era um entusiasta com a possibilidade de melhoramento hereditário da humanidade. Assim, indivíduos que eram considerados com “boas qualidades” ao se relacionarem com outros poderiam gerar proles aperfeiçoadas. A História das Ciências tem mostrado que mediante ao contexto científico, e o que se tinha disponível na ciência daquela época, ela possuía reconhecimento nos estabelecimentos científicos.

Mas sabemos que a ciência não está independente em seu próprio mundo e responde aos interesses de pessoas e grupos. Nas primeiras décadas do século XX, ela serviu como teoria científica para justificar os indivíduos que eram tarjados como “degenerados”. Não que estes possuíam algum “germe interior”, longe disso, mas como explicação para controlar aqueles que deveriam ser marginalizados. A eugenia migrou para os Estados Unidos e respondeu a um projeto de esterilização, tanto de doentes físicos e mentais, como de outros “indesejáveis”. Na Alemanha, ela foi usada por Hitler como justificativa para uma suposta “superioridade” dos arianos. O Brasil, por sua vez, importou a teoria e deu sua própria interpretação. Dentre diversos alvos como homossexuais, alcoólatras e doentes físicos/mentais, a questão da cor da pele teve um enfoque de bastante impacto.

Com a abolição da escravidão formalmente decreta, negros e mestiços brigaram não só por oportunidades no mundo do trabalho, como também contra os próprios preconceitos de um grupo social que dominava o capital, o branco. O fim da escravidão não deu as mesmas condições em oportunidades para os negros, que continuaram à margem de se inserir dentro da sociedade. Seu “fracasso”, na voz de diversos teóricos raciais, foi atribuído pelo (ao) fato de serem negros e, por isso, a deficiência de sua ascensão vertical estaria atrelada à sua condição hereditária, resultando em uma incapacidade de uma sobrevida na sociedade brasileira. Uma excelente explicação para a manutenção do branco como detentor do poder.

O sonho em branquear a nação, ou ser um país “europeu nos Trópicos”, alimentou as esperanças de diversos intelectuais do período. Um dos maiores eugenistas da época, o médico Renato Ferraz Kehl, escreveu diversos livros sobre a eugenia, onde acreditava que o sangue mestiço e negro não deveriam se misturar sexualmente com o branco, para não “degenerar”. Ele, assim como muitos outros do seu tempo, em que o conhecimento científico sobre a questão não se compara ao de hoje, não recomendava a miscigenação, pois era necessário que os de cor branca conservassem seus “bem dotados”.

Se tomarmos como marco o fim da Segunda Guerra Mundial, quase 70 anos se passaram. A genética rompeu antigos paradigmas, fez novas descobertas em seu próprio campo, tivemos o projeto genoma, entre tantas outras novas fundamentações para a compreensão entre genética e hereditariedade. Destarte, rompeu com os argumentos daqueles que atribuíam fatores genéticos problemas hereditários como alcoolismo ou criminalidade, por exemplo.

No alvorecer do século XXI ainda encontramos indivíduos que se imaginam em uma ciência eugênica como justificativa para seus ódios ou sua simples vontade de execrar alguns grupos. Travestidos de “nacionalistas” ou com “orgulho de ser branco”, sofrem uma amnésia coletiva para emanar preconceitos contra imigrantes ou negros. Ainda tentam associar a propensão da criminalidade com a cor negra baseada em postulações do século XIX.

Em uma nostalgia conservadora, apelam para a incapacidade de compreender momentos históricos ou que hoje foram reinterpretados diante as novas informações da ciência, para justificarem opressões raciais sob o véu da “igualdade de expressão”. Mas como clamar igualdade para grupos que sempre tiveram vozes? Como elitizar o elitizado? É possível ter orgulho de ser branco em uma sociedade em que aplaude o branco e recrimina o negro no meio social? É desconcertante fazer estas interrogativas na contemporaneidade.

Falta de conhecimento biológico/científico/histórico ou oportunismo para disseminar preconceitos raciais e xenofobia? Enquanto a política dos fóruns e redes virtuais for complacente ao permitir que liberdade de expressão seja confundida com opressão racial a internet será um veículo poderoso para agregar aqueles que só precisam de um grupo para pertencer e agir. Renato Kehl costumava dizer que o país só embranquecerá a custa de muito “sabão de coco ariano”. Hoje, desgastado, mesmo tentando fazer espuma, o sabão deve-se render a miscigenação.

 

 

 

*Leonardo Dallacqua de Carvalho. Mestrando em História pela Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” – UNESP. Membro do NUPE (Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão). Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP.

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