O moinho do samba precisa da água dos novos compositores de calçada

Alcemir Gomes Basto, o Bandeira Brasil, afirmou em um programa de TV há alguns anos atrás que não se via mais os pagodes onde os compositores se apresentavam. A mesnagem era clara: a padronização do samba, mesmo do chamado “samba de raíz”, está fazendo morrer a sensibilidade dos que gostam de samba para com os novos compositores

Os jovens que perpetram essa tradição parecem não estar dispostos a tocar nada que sai do seleto grupo do que já foi feito. O erro começa aí. Não se perpetua uma tradição apenas por cantar e tocar o que já foi feito.Quantas rodas de samba no Rio de Janeiro abrem espaço para novos talentos? Quando digo novos talentos são os anônimo que chegam devagarinho e tem um sem número de potenciais sambas em suas gavetas.

Luz Carlos da Vila, o saudoso, tinha um artificio para conseguir introduzir seus sambas nas rodas lendárias do Cacique de Ramos e em outras ocasiões. Cantava sambas do Candeia, de Aniceto, entre outros, e no meio lançavam um samba seu. Até que alguém perguntava: Esse samba é seu? Sim. Então tira da gaveta!

Eu não consigo imaginar pérolas como o Show tem que Continuar e Doce Refúgio de Luz Carlos da Vila sendo tomadas pelos cupins do tempo em uma gaveta qualquer. Ou mesmo, quem pode imaginar Negra Ângela de Serginho Meriti; Até a Próxima Paixão de Nelson Rufino, entre os mais diversos sucessos do samba, sendo sambas renegados pela forma atual de padronização da manutenção da tradição ( toca, mas pouco espaço para novos compositores).

Percebam  que não se discute se o samba é rum ou é bom, afinal, são todos bons. Mas e o barco? Para onde vai? É preciso continuar enchendo o mar do samba com as águas de novas composições de calçada, do famoso pagode de calçada que antes era tão comum na baixada Fluminense e hoje está bastante resumido.

Não. Todo novo compositor tem o medo natural da rejeição. Mas esse medo se soma a incapacidade de enxergar o erro de se dar valor apenas ao que já foi feito. Fora alguns casos no grande universo que é o samba hoje, o famoso: “tira da gaveta”  está cada vez mais raro.  E o que isso cria?

O mais óbvio é a criação de castas, de grupos específicos de compositores que se fizeram com base na primeira geração da geração de sambistas intérpretes oriundos da vertente do pagode, como Luiz Ayrão, Roberto Ribeiro, por exemplo. Não há dúvida que aqueles compositores que viveram essa época áurea, que se aglutinou ao surgimento do Cacique de Ramos (Fundo de Quinatl como o principal fruto), acabaram por marcar firme posição entre os principais interpretes, não só do Samba, mas na chamada MPB como um todo. Daí, qualquer novo compositor tendo na gaveta sucessos tão bons quanto os que a gente perpetra nas rodas de samba encontra impermeabilidade até mesmo em pagodes desconhecidos (não badalados e frequentados por medalhões).

Isso é interessante e lembra muito o processo que rege o mundo científico referente ao processo de publicação de pesquisa. Muitos novos pesquisadores-cientistas lançam mão de medalhões para atuarem como “vaselinas”, e assim conseguir emplacar suas pesquisas em periódicos de maior expressão, mesmo que esse novo cientista tenha conduzido o trabalho sozinho.

Ai cria-se a situação. Para que o novo compositor tenha alguma visibilidade ele deve buscar se associar a antigos compositores que fazem parte da “casta” surgida nos anos oitenta, ou ter a sorte de ser reconhecida em alguma das novas mídias sociais, coisa muito mais difícil. Contudo, o pior não é o compositor se tornar famoso ou não, é duro viver disso sem ser da casta. O grande problema são as rodas de samba, em sua maioria, não darem ouvido para muitos potenciais sucessos simplesmente porque a tendência é se preservar o que se tocava e não o que se canta. Assim não tem como haver água pro moinho perpetuar aquilo que a gente mais gosta: adivnha?

 

Fonte: GGN

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