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Pelé-estrela negra em campos verdes

“PELÉ-Estrela Negra em Campos Verdes”, livro de Angélica Basthi, 
editora: Garamond ano: 2008

Sinopse:

Os dribles, as jogadas geniais, o enorme talento com a bola e os gols inesquecíveis fizeram de Pelé um mito. O menino pobre que nasceu Edson Arantes do Nascimento e era carinhosamente chamado de Dico na cidade de Três Corações, em Minas Gerais, alçou vôos inimagináveis para um garoto negro da época. Aqui, podemos acompanhar uma história de glórias, de alguém que brilhou intensamente como estrela negra em campos verdes, mas também uma história humana, de uma pessoa como todas as outras, com os altos e baixos que a vida impõe.

Este livro narra o seu percurso. Uma trajetória marcada pela fama e o sucesso, que o levaram a ser cultuado como figura máxima do futebol – ou, para ser preciso, como verdadeiro sinônimo do esporte – em todos os quadrantes do planeta. Isto durante décadas, sem que sua retirada dos gramados, há mais de 30 anos, tenha afetado a popularidade de Pelé nem diminuído sua aura de eterno campeão. Pelé enfrentou dificuldades de ordem econômica, familiar, afetiva.

Teve problemas com os filhos, sofreu baques comerciais, viveu o fim de dois casamentos e alguns tórridos romances públicos. Saiu-se, como todo mundo, às vezes melhor, às vezes pior. Na média, uma trajetória digna e bonita, com alguns tropeços e muitas grandezas. Agora, às vésperas de completar 68 anos, Pelé ressurge como personagem múltiplo e complexo, idolatrado por milhões de admiradores ao redor do mundo e profundamente brasileiro – sempre fiel ao menino negro que, ainda conhecido como Dico, saiu com a familia de Três Corações para conquistar o mundo. É o que este livro relata, com graça e leveza, a partir de uma vasta e rigorosa pesquisa documental.


Fonte:
www.livrosebola.blogspot.com

17 de Novembro de 2008

ENTREVISTA COM  ANGÉLICA BASTHI, AUTORA DE “Pelé-estrela negra em campos verdes”

Angélica Basthi, autora do livro “PELÉ-estrela negra em campos verdes”, é a nossa entrevistada, Angélica, é jornalista, escritora e mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, nesta entrevista ele nos fala sobre como surgiu o livro sobre o Rei, e também comenta sobre não participação ativa, de Pelè em movimentos em defesa da raça negra.

1- Como surgiu o convite para que você escrever este livro?

Foi uma grande surpresa. Um velho amigo, o Carlos Nobre, que também é jornalista,me chamou para participar do seu projeto Coleção Personalidades Negras. Confesso que levei um susto, afinal, nós jornalistas sonhamos em escrever um livro,mas é o tipo de sonho que fica escondido no fundo da gaveta.

Inicialmente eu escreveria sobre o Aleijadinho, nosso mestre barroco. Mas durante a conversa com o Ari Roitman, dono da editora Garamond, surgiu a idéia de escrever sobre o Pelé. Foi outra grata surpresa para mim.Desde que eu vi uma exposição sobre a vida do Pelé na Casa França-Brasil, há uns cinco anos aqui no Rio de Janeiro,alimento a idéia de escrever sobre o Rei. Algo me tocou naquela exposição que era diferente de tudo o que eu pensava até então sobre o Pelé. Fiquei muito impressionada com o que vi e são essas impressões que estão no livro “Pelé estrela negra em campos verdes”, que tem ainda a co-edição da Fundação Biblioteca Nacional.

2- Você na obra, até digo isto na resenha que fiz, para este blog, mostrou um Pelé, humano, com sucessos e fracassos, tristezas e alegrias. Te pergunto: ao pesquisar p/ escrever o livro o que mais te surpreendeu na biografia do Pelé, que até então você ainda não tinha conhecimento?

Acho que não existe um brasileiro que nunca tenha ouvido falar sobre o Rei Pelé. Quando morei nos Estados Unidos, em 2006, as pessoas vinham me perguntar sobre o Rei, sobre como homens e mulheres jogam futebol no Brasil e até se EU jogava futebol! E isso por causa do Pelé. Lá fora tem gente que acha que todos sem exceção (homens e mulheres) crescem jogando futebol por aqui!!! E, de fato, toda a trajetória de vida do Rei Pelé confirma a sua importância para o futebol brasileiro e no mundo. Mas o que realmente me surpreendeu foi ter descoberto que, mesmo sem assumir uma posição política contra o racismo,Pelé não passou imune a ele na sua vida pública. E isso sendo um fenômeno do futebol mundial na época. É uma contradição na sua trajetória que ninguém nunca explorou.

3- Pelo que você leu, viu e acompanhou, se Pelé tivesse tido uma atuação mais forte, mais presente, quanto às reivindicações dos direitos da raça negra, ele seria visto de maneira um pouco melhor pelos negros? Te pergunto isto, porque em vários momentos no livro você lembra ao leitor esta falta de participação, por parte dele!

É verdade. Eu faço algumas referências à ausência de Pelé nas lutas em torno das questões do negro no Brasil. Faço isso porque essa é a principal mágoa da comunidade negra em relação ao Rei. E, na minha opinião, essa ausência não pode ser ignorada na sua trajetória de vida. Afinal, Pelé nasceu numa família negra e pobre. É um homem negro que mostrou um talento ainda inigualável com a bola. Ele ajudou a mudar a história dos jogadores negros no futebol no Brasil e no mundo, que até então privilegiava jogadores brancos. Quem conhece um pouco sobre a história do futebol sabe disso. No livro, procuro mostrar a história de um homem negro que deu um giro de 180 graus aos 16 anos de idade. Pelé era muito jovem e imaturo quando ingressou no Santos e logo seria campeão mundial. Fez da bola seu principal objetivo na vida. Não sei até que ponto podemos culpá-lo por isso. Mas acho que é possível refletirmos sobre a sua história de vida no contexto do racismo brasileiro e, assim, tentar achar respostas sobre os motivos que o levaram, na época, ao silêncio em relação à causa negra no Brasil. Ao mesmo tempo, podemos ter uma reflexão madura e entender como Pelé teria sido um aliado em potencial se tivesse abraçado essa causa. Certamente, o referencial simbólico do Rei Pelé teria hoje um outro impacto para além do futebol na história do Brasil.

4- Quando o Pelé foi para os EUA, jogar no Cosmos, você acredita que naquele momento, foi o momento exato que ele teve realmente a noção de como ele podia viver de sua marca PELÉ, afinal, até então ele pouco explorava este nome, não?

Acho que o Pelé foi o primeiro jogador de futebol brasileiro a explorar incansavelmente sua marca. Encontrei anúncios em revistas com Pelé do início dos anos 60, ele vendendo, por exemplo, um complexo vitamínico. Sem dúvida desde cedo,o Rei – preocupado com o que aconteceria com o seu futuro e de sua família após “pendurar” as chuteiras ,tanto investiu no mundo dos negócios como também explorou a sua imagem de jogador vendendo produtos, fazendo filmes, etc. Um dos melhores exemplos de marketing pessoal que existe no futebol.

5- Angélica, gostaria de lhe dizer, que seu livro podemos considera-lo, como único, apesar da grande bibliografia já existente sobre Pelé. Digo único, porque mostrou o homem , o empresário, o pai, que como todos nós, tem e teve seus momentos de extrema felicidade, e também momentos de tristezas e insucessos, ou seja, um ser humano, em grande parte das bibiografias, sobre ele, só encontramos o herói. Meus parabéns!

Por favor, fique á vontade para fazer alguma consideração que acredite seja necessária ao nosso leitor, que gostaria de saber mais sobre seu livro e sobre seu trabalho!.Meu propósito com este livro é mostrar a trajetória de Pelé de uma perspectiva ainda não vista até hoje. Achou que sou a primeira mulher a fazer a biografia do Rei. Dizem que nós mulheres somos mais afeitas à sensibilidade e à intuição. Talvez… O que posso dizer é que o leitor irá ver uma história humana de um homem negro que se tornou referência no futebol mundial.

E isso do ponto de vista de uma mulher, que também nasceu negra e pobre e soube, à minha maneira, “driblar a vida” e explorar o meu talento com a escrita. Formei-me como jornalista, trabalhei em algumas das principais redações de rádios, jornais e revistas do país onde escrevi sobre temas variados: de cultura à economia. Mas nunca deixei de militar pela causa negra em todos os lugares por onde trabalhei.

Quem me conhece, sabe disso. Também sou pesquisadora desse tema na academia (minha dissertação de mestrado foi sobre organizações de mulheres negras). E, como todo (a) brasileiro (a), desde criança, aprendi a admirar a arte do futebol. É por isso que “Pelé estrela negra em campos verdes” é um livro com uma linguagem simples, acessível, leve e objetiva e que propõe uma reflexão. A idéia é convidar o leitor a entrar num universo ainda não conhecido sobre o Pelé. E, porque não, sobre a história do futebol no Brasil. Espero, sinceramente, que todos gostem da leitura.

Fonte: Afrolatinidade

 

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