Plenária do Quilombo Raça e Classe defende unidade para combater racismo

 

Representantes dos Quilombos Família Silva, Rio Grande do Sul; Charco, Maranhão e Família Teodoro, Minas Gerais (Wester Martins) deram uma importante contribuição para o debate sobre a questão racial, durante a plenária organizada pelo Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe. A atividade ocorreu após o segundo dia de debates no 1º Congresso da CSP-Conlutas.

A mesa contou, ainda, com a participação da haitiana Michaele, de Julio Condaque (da Secretaria da Executiva Nacional da CSP-Conlutas), Célio Rosa e Mayara, estes representando o Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe.

Em todas as intervenções os participantes reivindicaram o fortalecimento do Quilombo Raça e Classe, como nova ferramenta a serviço da luta do povo negro. E mais, que a CSP-Conlutas seja um grande quilombo, que lute para derrubar o racismo, o capitalismo e para construir uma sociedade igualitária.

Mulher negra

A haitiana Michaele disse que se descobriu uma mulher negra somente quando chegou no Brasil. “Quando eu cheguei ao Brasil descobri que sou uma mulher negra. Antes, onde nasci, eu era uma pessoa”, desabafou.

Mas este mesmo país, onde o racismo não impera, é negligenciado e boicotado por ser formado por uma população majoritariamente de negros. Tratam o povo haitiano como uma nação de coitados, ocultando que, na verdade, é referência de luta e resistência.

Luta quilombola

Milhares de família estão ameaçadas com o pedido de anulação do decreto 4887/2003, que regulamenta a demarcação e titulação dos territórios quilombolas. O clima é de terror, pois se anuncia um derramamento de sangue e o extermínio desta parcela da população, caso seja aprovado a inconstitucionalidade deste projeto. Tal afirmação não é nenhum exagero.

A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) 3239/03, que pede o fim do decreto 4887, pode ser votada no Supremo Tribunal Federal (STF) a qualquer momento. “A aprovação desta ADIN vai significar o extermínio da cultura negra e, mais que isso, vidas serão duramente prejudicadas”, proferiu o quilombola Manoel do Charco, em uma conversa que antecedeu a plenária.

Existem mais de cinco mil comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil, seus habitantes foram, e continuam sendo, vítimas de todo tipo de ataque. Atualmente estão na mira de setores reacionários, como a bancada ruralista e a evangélica. A primeira quer tomar a terra, fonte de subsistência dos quilombolas; a outra quer inibir o direito à manifestação cultural e religiosa do povo negro.

E qual a posição do governo do PT? Vejamos, foi o Partido dos Trabalhadores, no governo Lula, quem assinou o decreto 4.887. Mas em quase dez anos no poder, somente oito áreas foram tituladas em todo o país. E ainda assim, foi necessária muita mobilização para obter estas conquistas.

“O governo de Dilma está levando a cabo projetos de extermínio do povo negro”, afirma um dos participantes. “De forma orquestrada concedem uma vitória, que é o sistema de cotas, enquanto tentam derrubar o decreto que prevê a titulação das terras quilombolas”, ponderou Julio Condaque.

Quilombo da Família Silva (RS)

Lorico da Silva relatou, com lágrima nos olhos, as perseguições sofridas pelos moradores do primeiro Quilombo Urbano titulado no Brasil, o Quilombo da Família Silva, situado no bairro Três Figueiras, zona nobre de Porto Alegre.

Segundo ele, qualquer anormalidade ocorrida nos arredores da região leva a brigada militar ao quilombo, partindo da premissa de que em sendo negros e pobres, são suspeitos. Tal postura expõe crianças, idosos, homens e mulheres trabalhadores à violência física e moral, relembrando os tempos do Brasil Colônia, onde os negros eram perseguidos e castigados por lutarem pelo seu espaço de liberdade.

Quilombo do Charco (MA)

O Charco existe desde 1856 e ganhou este nome por ficar com as terras encharcadas durante meses. É um quilombo rural e hoje abriga 71 famílias, que sobrevivem da produção de arroz, mandioca, milho e feijão. Até seis meses atrás eles não tinham acesso a energia elétrica.

Almirandir Costa, com seu jeito altivo, contou que o Quilombo do Charco foi pioneiro na construção do Moquibom (Movimento Quilombola do MA). “Hoje, mais de 184 comunidades engrossam o movimento”, declarou orgulhoso.

Mesmo com as ameaças constantes, os líderes do Charco (Almirandir e Manoel) não se dobram e assumem a responsabilidade de tocar a luta na defesa de suas terras e de seus direitos.

Unificar

Segundo Julio Condaque, a CSP-Conlutas reúne setores importantes para construir as condições necessárias de atuar na defesa dos territórios quilombolas.

A expectativa dos participantes da plenária é que brancos e negros se unam para fortalecer a Central e ajudar a impedir que a questão racial seja relegada a segundo plano.

 

 

 

 

Fonte: Sindsef

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