Quem é Midria, sensação do slam que investiga a solidão da mulher negra na poesia

Escritora de 24 anos explora em 'Desamada' como é sentir sua carne como 'a mais barateada do mercado afetivo'

“E não tem nada que eu possa fazer, queimar estátua, passeata, protesto, abaixo-assinado, posição na Câmara, reconhecimento/ que me dê/ a ação afirmativa de ser amada.”

Em sua poesia, Midria elabora o que diz ser “a pior parte da solidão da mulher negra”. “Não sei ao certo se está nisso de no mercado afetivo ser a carne mais barateada, pisoteada, deixada no fundo da própria autoestima como a última opção/ sem merecimento do verbo ser/ amada?”

Se os versos longos do livro “Desamada” têm uma cadência que lembra a oralidade, não é coincidência. É possível que você conheça Midria não por ter lido seus livros, mas por ouvir sua poesia falada em performances nos palcos de slam de todo o Brasil.

“Foi no sarau que comecei a escrever os primeiros textos sobre a minha trajetória”, conta a poeta de 24 anos, sentada numa poltrona rosa do seu apartamento. “No contraturno da escola, ficávamos lendo clássicos da literatura, uau, e escrevíamos textos contemplativos sobre a vida, as flores, a brisa do mar. Não é problema, mas aquilo estava distante da minha realidade. “

Tinha em torno de 15 anos quando descobriu como era libertador se expressar a uma plateia em voz alta, discutindo um processo doloroso de transição capilar pelo qual passava. “As pessoas se sentiam à vontade para falar sobre o meu corpo de maneira racista depois que parei de alisar meu cabelo.”

Daí para a frente, virou literatura. “Midria parece ter chegado pronta à cena, ao contrário da geração de poetas da performance de que é um dos ícones, que amadureceu esteticamente ao vivo e a cores”, diz Julio Ludemir, criador da Festa Literária das Periferias, que sediou há pouco um campeonato mundial de slam. Ele diz se lembrar especialmente do poema “A Menina que Nasceu sem Cor”, “que já nasceu um clássico”.

Foi um dos textos com que, no ano passado, Midria roubou a cena na Flip, dividindo a mesa com um Lázaro Ramos que parecia estar ali mais para testemunhar sua performance e a da colega Alice Neto de Sousa que para falar qualquer coisa.

É um poema longo, em que a autora confessa a compreensão progressiva de sua identidade racial. Termina com uma paulada: “Por muito tempo eu fui a menina que nasceu sem cor/ Mas um dia gritaram-me ‘negra!’/ E eu respondi”.

E é um belo cartão de visitas para uma obra que ganha força ao expor o processo acidentado de autoconhecimento por que todo adolescente passa —temperando com referências populares e sacadas divertidas um testemunho lúcido sobre como os sofrimentos da juventude ainda têm raízes em estruturas arcaicas.

“Uma amiga passou seis anos sem beijar durante a adolescência/ outra transou pela primeira vez aos 27 anos/ outra dormiu de conchinha com o cara de quem havia acabado de levar um fora”, começa um poema. “Outra, outra, outra, outra e outra/ e tantas dessas outras sou eu/ e tantas dessas somos nós umas nas outras.”

A solidão das mulheres negras, assunto de “Desamada” —que sai pela Rosa dos Tempos, selo feminista da Record, primeira editora de grande porte que publica Midria— é um raro conceito acadêmico que também é íntimo.

“É algo bem pesquisado, como mulheres negras não se sentem acolhidas no espaço da vida afetivo-sexual”, comenta a autora. “São sempre tratadas como a última opção, são traídas com mulheres brancas, têm seus parceiros priorizando publicamente parceiras de outra cor. É um processo de apagamento no mercado afetivo. Se não é sexualizada, é invisibilizada.”

As referências que mobiliza para falar do assunto vão desde a tese de doutorado “Mulher Negra: Afetividade e Solidão”, da baiana Ana Cláudia Lemos Pacheco, até composições de Djavan Luedji Luna, passando por menções ao tarô e à astrologia.

São demonstrações de como a cultura da poeta não faz hierarquia entre discurso oral e escrito, o que é apropriado para uma cria dos saraus paulistanos —mais especificamente, do Sarau do Vale, no Recanto Verde do Sol, região da zona leste onde ela cresceu.

Alguns artistas da palavra falada não publicam livros porque não ligam para isso; e muitos, porque a cultura da voz não é devidamente reconhecida pelo mercado.

“Há uma valorização daquilo que é palpável e desvalorização daquilo que não vira mercadoria, como a performance. É como se o livro, que pode ser comercializado, desse legitimidade para aquilo que estamos falando todo dia”, diz Midria.

A epígrafe de “Desamada” é um forró da cearense Mari Fernandez. O pai da poeta, Milton, com quem ela não tem contato há mais de dez anos, também tinha uma banda que tocava esse ritmo. Falar da árvore genealógica de Midria, aqui, não é fofoca de Casos de Família, mas parte integrante de seu projeto literário.

Como diz um poema de “Desamada”: “Não tenho medo de ser abandonada/ tenho memória”. “Pai, seus atrasos/ me ensinaram a ser mais radiante e paciente do que deveria com as migalhas do amor”, reza outro texto.

Midria afirma ter sido criada por “duas mães” —Andreia, que engravidou dela, e Alessandra, segunda mulher de seu pai, que a criou a partir dos cinco anos de idade, quando ele também dissolveu a relação e partiu para outra.

“Meu pai é um homem negro que praticou abandono paterno e teve quatro esposas, todas elas brancas”, diz Midria. “Isso não é um dado à toa num país em que a maioria das mulheres é negra.”

A história se refletiu na sensibilidade da jovem, que passou a observar amigas brancas começando a namorar enquanto ela ficava para trás. Mesmo nas festas universitárias —fez ciências sociais na Universidade de São Paulo, onde hoje cursa mestrado em antropologia social—, notava que as pessoas “só chegavam” nela no fim da balada.

Mas “Desamada” não é um livro fatalista nem um muro das lamentações. A última parte da coletânea se intitula “Exercícios de Ser Piranha” e abre com músicas encabeçadas por “Playlist para Ser Putona”.

Mesmo que sua poesia brote da solidão, Midria já começa o livro querendo parar de falar sobre isso. E no meio do caminho, susta a espera por ser desejada —ou “desejade”, já que foge dos binarismos ao misturar gêneros feminino e neutro— e, no lugar, entender o que ela própria deseja.

Já na dedicatória, Midria faz dois agradecimentos separados por poucas linhas. “Para a solitude que aprendi a cultivar” e “para Giovanna, por quem me apaixonei reciprocamente no caminho” —e
com quem começou um relacionamento há dez meses.

“Amor só é bom se doer: teu cu, Vinicius”, xinga a poeta lá pelo meio do livro. Talvez na letra do mesmo “Canto de Ossanha”, escrita pelo carioca, valha a pena se fiar a outros versos. “Eu só vou se for pra ver/ uma estrela aparecer/ na manhã de um novo amor.”


DESAMADA: UM CORPO À ESPERA DO AMOR

  • Preço R$ 44,90 (116 págs.)
  • Autoria Midria
  • Editora Rosa dos Tempos

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