Racismo é uma doença que se trata com dureza

Por: Marcelo Carneiro da Cunha

 

Torcida do Atlético Paranaense protesta contra ofensa racista do zagueiro palmeirense Danilo ao zagueiro rubro-negro Manoel
(foto: Elaine Felchacka/Especial para Terra)

 

Pois que ficamos todos sabendo que a coisa ficou feia na bela João Pessoa. Pelo que vemos na imprensa, uma estudante estrangeira foi ofendida com termos racistas e agredida. O que já era lamentável ficou ainda pior por conta de uma delegada de polícia que perdeu justamente o dia de aula de Constituição e não considerou o evento um ato de racismo ou de violência

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O mundo, estimados leitores, é um lugar complicado, que desafia quase todas as tentativas de torná-lo simples e fácil de digerir. O que afinal é racismo, o que é liberdade de expressão? O que é humor e pode ser tolerado? O que é racista e deve ser preso ou punido? Chamar alguém de negro é racismo? E chamar alguém de branco, que que é, afinal? Nada fácil.

 

Mas existe o bom senso. E, através dele, podemos olhar, pensar, e julgar. Se eu chamo alguém de branco, o que existe na história da humanidade que justifique isso ser interpretado como algo negativo? Esperar que “branco” seja ofensivo é ignorar a realidade e a história. Não entender que “negro” possa representar uma ofensa é ignorar a mesma história. Um escravo não era avaliado por seu temperamento, por suas capacidades, por seus talentos, na hora de ser escravizado, mas tão somente pela sua raça.

 

Quem escolhe uma expressão racial para ofender alguém, quer essencialmente ofender , não acarinhar, esse alguém. Nesse caso que choca o país, o idiota agressor, não tendo absolutamente nada para dizer contra uma inocente estudante estrangeira, teve a péssima idéia de usar expressões ligadas à raça da agredida para ofendê-la. Ah, também lhe deu pontapés. E a delegada resolveu ignorar os DOIS crimes?

 

Todos temos as nossas escolhas a fazer. Todos podemos combater a estupidez, e o racismo é apenas a estupidez em sua forma mais estúpida. Todos podemos fazer de conta que não escutamos uma observação racista, ou anti alguma minoria, ou podemos exigir retratação, não aceitar a violência, exigir que o mundo ao nosso redor se comporte.

 

Tempos atrás, e olhem como isso é estranho, havia uma editora nazista atuando em Porto Alegre. Ela se apoiava nas liberdades de imprensa da nossa Constituição, disfarçava o seu discurso maluco e racista atrás de confusos conceitos para boi dormir, e, para ofensa geral, participava da Feira do Livro de Porto Alegre, o maior e mais importante evento cultural da cidade. Exigir a retirada, demonstrar contra, poderia ser uma forma de aumentar a visibilidade daquela coisa ruim. Tolerar a sua presença atentava contra todos nós. E entrava ano e saía ano e a gente ali, sem saber o que fazer.

 

Até vir, e olhem que esquisito isso, estimados leitores, um grupo punk, esses mesmos que temos no Brasil, confusos e periféricos, mas, por algum motivo, contrários aos nazistas, talvez por serem adversários dos skin heads. E o tal grupo punk depredou a tal editora, que berrou, esbravejou, e sumiu, para sempre, nos deixando livres daquela presença ofensiva.

 

Não foi um exercício exatamente democrático, não é mesmo? Mas resolveu o problema de livrar a nossa Feira e a nossa vista de algo tão antidemocrático, feio e mal-cheiroso quando um discurso nazista. Noves fora, gostei. Às vezes, intolerância com intolerância se combate, feiura com feiura se paga, e o resto a gente vê depois, pessoas de bem, mas não bobas, que somos e devemos ser.

Em João Pessoa, a delegada tentou estragar tudo, mas muita gente, além do Ministério Público, entrou para consertar a bobagem da delegada e o crime do criminoso. Precisamos disso, enquanto a sociedade não se livrar definitivamente desses idiotas e suas idiotices.

 

Esse episódio também nos lembra, mesmo que indiretamente, que temos nas universidades uma política de cotas raciais, e como isso é um enorme erro, por fazer com que brancos, ou não negros, sejam prejudicados por algo que eles não escolheram, e por algo que a Constituição proíbe. Precisamos cuidar disso, estimados leitores.

 

Como brasileiro, lamento profundamente que um sujeito na Paraíba tenha feito isso com uma convidada estrangeira, alguém que veio para o nosso país estudar, avançar no convívio com a nossa socidade, um ótimo investimento que fazemos na construção de relações melhores com pessoas dos países africanos, que tanto têm a ver conosco. Lamento, sinto vergonha, e peço ao povo aí de João Pessoa que se esmere nas desculpas, que mostre a essa garota que esse sujeito existe, mas é apenas um péssimo exemplo – que muitos, milhões de brasileiros, nossa vasta maioria, são gente boa e decente, que sabe tratar com respeito os nossos convidados, que sabe receber com afeto a pessoas do mundo inteiro, que aqui vieram e vêm para contribuir para com a nossa diversidade, nossa maior e melhor marca.

 

Somos um país mestiço. Cada vez mais nos damos conta disso e somos felizes assim. Estamos nos tornando a maior potência econômica miscigenada do planeta, sabiam? Falta apenas, e isso é questão de tempo, nos livrarmos dos racistas, que não ajudam e ainda atrapalham. Que se danem, e nos deixem viver, com a nossa rica diversidade, em paz.

 

 

Fonte: Terra

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