“Seminário 20 anos sem Clóvis Moura” – Resgate da vida e obra de um intelectual mais vivo do que nunca!

Parafraseando certo livro de filosofia política alemã, afirmamos que um espectro ronda a Academia brasileira, o espectro de Clóvis Moura. Todas as potências da ortodoxia intelectual aliam-se numa continua negação da existência desse espectro. Espírito impiedoso com aqueles que negam tanto a sua existência, quanto os seus saberes. Sem a mínima tolerância ante aqueles que impedem o livre pensar daqueles que não seguem stricto sensu os ritos normativos acadêmicos. Ao mesmo tempo em que se faz extremamente cioso e presença constante, aos que buscam trilhar suas próprias insurreições epistemológicas, tornar publicas e reconhecidas historicidades até então (re)negadas ou invisibilizadas. Uma práxis de pensata social contemporânea em seu embate constante, aos que negam e não valorizam suas premissas, ao mesmo tempo em que se constituí enquanto referencial as novas intelectualidades que se dão a partir das potências críticas dos socialmente marginalizados desta terra nada gentil, por vezes ingrata, chamada Brasil.

Autor que através de sua obra se revela vivo, presente em constantes processos de incorporações conceituais, pontes teóricas e diálogos intelectuais de geração em geração, desde seu falecimento em 2004. Num processo de (re)descobertas e (re)valorização acerca de seu conjunto teórico, que acaba por questionar os próprios limites de nossa historiografia e pensata institucionalizada. Nos revelando o quanto esta se dá, mesmo em tempos atuais, por padrões conservadores e elitistas, que só acabam por reforçar o caráter racista e discriminatório de nossa sociedade. Acabando por nos situar, o quanto a sua própria obra foi vítima dessa realidade sistêmica, ficando aquém do seu devido reconhecimento ante a inovação teórica e conceitual que representou, que inseriu e problematizou as Ciências Sociais brasileiras.

O que nos possibilita compreender a realização do “Seminário 20 anos sem Clóvis Moura”, entre os dias 21 a 23 de Novembro, como um acerto de contas que o pensamento social acadêmico nacional, em especial de sua vertente histórica e sociológica paulista, realiza em referência a Clóvis Moura e ao seu pensamento social. Não em sentido de vingança ou revanche, mas de um próprio desmascaramento ante uma pretensa neutralidade cientifica, costumeiramente usada como justificativa ideológica mantenedora de privilégios dominadores e alienantes de nossas pretensas elites. 

Seminário articulado em torno da premissa de revalorização do pensamento social crítico da obra mouriana, a partir da articulação intelectual coletiva daqueles sujeitos sociais, dos atores políticos atuantes e constituintes em espaços de produção de conhecimentos e saberes que antes se faziam vedados as suas premissas, devido a uma série de impedimentos a estas presenças em ocupar e circular por estes espaços em plena criatividade e autonomia crítica. Não mais vistos e interpretados apenas enquanto simples e amorfos objetos de pesquisa, ou corpos físicos a serem tipificados e qualificados de acordo com os (pré)conceitos vigentes e legitimados, insistimos, enquanto padrões intelectuais canonizados e por isso incontestes, sempre acatados e nunca tensionados em suas discursivas e práticas. Para assim, tornando, ressignificando, o espaço predial do Instituto de Filosofia de Ciências Humanas (IFCH), enquanto um local de geração e reflexão intelectual orgânica, que problematiza e confronta diretamente as estruturas das mazelas sociais de nossa sociedade, visando a superação destas. Uma forma de produção cientifica para fora e além de gabinetes, de elaboração e circulação de saberes efetivamente públicos a partir das demandas e perspectivas das classes historicamente oprimidas. Realizando, dessa maneira, com que a universidade intérprete de fato o seu papel de promovedora cientifica visando o pleno desenvolvimento estrutural e democrático da sociedade brasileira.

E tal evento, de repercussão nacional, dessa magnitude, se dar numa instituição como a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), nos situa ante a importância do momento em que estamos presenciando. No sentido até mesmo de uma culminância de toda uma ação de resgate da obra de Moura – que se desenvolve, com uma maior constância e visibilidade, na última década – com a republicação crítica de grande parte de sua obra, além da realização de uma série de seminários e eventos. Em que a produção e práxis intelectual de Clóvis Moura, se fez paulatinamente resgatada, tornada pública e apresentada em novas perspectivas, sentidos e premissas para muito além do que se poderia supor até mesmo os seus mais fiéis leitores. 

Obra que se posta mais viva e dinâmica do que nunca, com possibilidades tão imprevisíveis em suas intersecções e diálogos, mas sempre em embate aos que se conformam, se calam e se omitem ante a mediocridade intelectual canalha que normaliza nosso arcaísmo civilizatório. Para desespero de seus detratores ou difamadores, o espectro de Clóvis Moura não demonstra sinais de acomodação e muito menos de silenciamento. Continuará rompendo barreiras, transpondo fronteiras, circulando por esferas e espaços inimagináveis. Influenciando e gerando novas potências de pensatas e de conjuntos teóricos, juntos aos seus, pelos seus, eternamente vivo no seu desafi(n)ar ao coro dos contentes. Sempre em companhia e inspirando aqueles que não deviam ser, mas são. Daqueles que não deviam existir, mas existem. Daqueles que não deviam estar, mas estão. E daqueles que nunca mais terão as portas fechadas ante seus sonhos e, muito menos, serão silenciados em suas lutas, em suas existências! Clóvis Moura junto a eles sempre estará. Serelepe e faceiro, debochando e se deliciando com o espanto e desespero dos senhores e senhoras da velha casa-grande universitária, ante a quilombagem intelectual que se faz ocorrer no meio universitário brasileiro. E do qual o “Seminário 20 anos sem Clóvis Moura” se constitui como um de seus mais recentes exemplos!

Que este seja um espaço de trocas de experiências e percepções, de construções de novas potências críticas e interpretativas. Uma gira de comunhão intelectual, de irmandade de saberes e reflexões. De encontro e (re)construções de novas historicidades. Dessa forma analisando, renovando e mantendo vivo o espírito contestador do brabo entre os brabos, do pensador social negro, marxista, humanista radical e libertário, do Exú sociológico, chamado Clóvis Moura. 

Um intelectual mais necessário do que nunca, para um país, para uma sociedade que precisa urgentemente encarar-se e aceitar-se como é de fato, sem pudores ou temores de cunho eurocêntricos. Que de fato valorize e respeite suas heranças africanas – ou não europeias – não se envergonhe ou apague suas negritudes para que assim possamos vir a ser de fato uma sociedade racialmente igualitária e democrática, não em falácia ufanista, mas em plena realidade cidadã. Obra resultante de uma autoria única de um autor único, radicalmente libertário e independente, mesmo ao campo progressista da intelectualidade brasileira, na sua premissa de buscar compreender, teorizar e contribuir para a erradicação de nossas inequidades estruturais crônicas. Resultante da busca por toda uma vida em constituir uma ciência social viva, orgânica e compromissada com as causas e benefícios de seu povo, de sua população. E não em reproduzir teorias exógenas a nossa realidade histórica ou subsidiar os alicerces ideológicos opressores que nos caracterizam enquanto sociedade arcaica, racista em eterna inconclusão civilizatória.

A obra de Clóvis Moura se dá nesse sentido e por essa potência transformadora, não passando despercebida quando perante aqueles que com ela tiveram algum contato. Mesmo aqueles que não optam em sua concordância ou que estabelecem divergência com ela, não negam o seu exercício de potência, de uma identidade própria entre tantas manifestações amorfas e sem identidade que tanto pululam aos mares das humanidades nos últimos tempos. 

Clóvis Moura é o intelectual que redescobriu e reinventou o Brasil, um de seus intérpretes seminais e mais originais, a partir de sua revolucionária práxis de interpretação e problematização histórica-sociológica que ressignificou o Brasil em seus mais profundos meandros pela valorização do elemento negro enquanto agente político e modernizante da sociedade nacional, através dos processos de rebeliões, insurreições e revoltas contra o regime escravocrata e, posteriormente, o processo de racialização das relações sociais do país ampliadas com o modelo de capitalismo tardio a partir de nosso período republicano. Ao interpretá-lo pelos olhares e saberes daqueles a quem sempre cabe, quando muito, os não espaços de fora da margem da História. Contra todo um cânone historiográfico e das Ciências Sociais que se opunham a tal premissa, persistiu e perseverou no seu devir de que sua obra dialogaria e seria reabilitada pelas gerações futuras na sua ânsia transformadora de erguer uma sociedade não mais alicerçada em nossas origens escravagistas, machistas, discriminatórias e reacionárias. 

E este seminário que se anuncia, é prova de que seus frutos já se dão tenros e saborosos em meio as searas acadêmicas, que antes lhes eram tão inférteis. Que celebremos a sua colheita! Pois o futuro se faz agora…

Ontem, hoje e sempre, Clóvis Moura Vive! Viva, Clóvis Moura! 


Link para acessar o edital de chamamento e envio dos trabalhos: 

http://linktr.ee/seminarioclovismoura


Christian Ribeiro, sociólogo, mestre em Urbanismo, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil.

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