quinta-feira, julho 7, 2022
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Sobre o Esquenta, da Rede Globo, festejando o Dia da Consciência Negra

 

 

Texto de Fernanda Sousa.

Não há o que festejar no Dia da Consciência Negra em um país em que 70,8% da população que vive em extrema pobreza é negra.

Não há o que festejar no Dia da Consciência Negra quando 60% da população carcerária é negra.

Não há o que festejar no Dia da Consciência Negra quando a chance de um jovem negro ser assassinado é 139% maior que a chance de um jovem branco.

Não há o que festejar no Dia da Consciência Negra quando existe uma política de GENOCÍDIO da população pobre e preta.

Não há o que festejar no Dia da Consciência Negra quando 60,9% das empregadas domésticas são mulheres negras.

Não há o que festejar no Dia da Consciência Negra quando a renda média da mulher negra equivale a 30,5% do que ganha um homem branco.

Não há o que festejar no Dia da Consciência Negra quando no ensino superior brasileiro, independente da faixa etária, apenas 8,9% dos estudantes são negros.

Não há o que festejar no Dia da Consciência Negra quando existe um movimento como as Mães de Maio, lutando por justiça, memória, verdade e contra o terrorismo do Estado.

Racismo não é apenas um preconceito por causa da cor da pele. Racismo é uma relação de poder, é uma ideologia de dominação e exclusão, baseada não só na cor da pele, mas também em um conjunto de traços que revelam uma negritude, como cabelo, nariz, etc. Racismo não é um preconceito individual. Racismo é estrutural em um país construído durante mais de 350 anos por meio da exploração do trabalho escravo e da contínua marginalização do negro após a mentirosa abolição.

Não adianta, uma vez ao ano, encher um programa de pretos/as, cantando e dançando samba, transformando nossa dor e nossa resistência em festa, em entretenimento, achando que isso é combater o racismo. Se nós não falamos da realidade concreta da população negra nesse país, o que estamos fazendo é vender a falaciosa ideia de “democracia racial”. Ela não existe.

Não existe “harmonia racial” entre negros e brancos quando médicos brancos se juntam e protestam contra a vinda de médicos negros cubanos, chamando-os de “escravos”, não existe com gente dizendo que as médicas cubanas têm “cara de empregada doméstica”; não existe “harmonia racial” quando estudantes brancos protestam contra a política de cotas raciais; não existe “harmonia racial” quando jovens negros são assassinados diariamente pela Polícia Militar; não existe “harmonia racial” quando as patroas e patrões brancos se recusam a garantir os direitos trabalhistas das empregadas, em sua maioria, negras; não existe “harmonia racial” quando brancos se divertem e os negros são os seguranças das festas; não existe “harmonia racial” quando brancos estudam e se formam nas universidades e os negros limpam o chão e cozinham pra eles. O que existe é a supremacia branca, de mãos dadas com o racismo, que se esconde sob o véu da democracia racial, clamando pela “paz” ao mesmo tempo que defende a redução da maioridade penal, a pena de morte (“bandido bom é bandido morto”), a higienização das cidades e protesta contra ações afirmativas.

Nós não queremos festa, nós queremos justiça, direitos, oportunidades, reparação. Dia 20 de novembro não é dia de festa!

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Fernanda Sousa é estudante de Letras, professora e militante de um coletivo negro da universidade onde estuda. Está tentando voltar a escrever poesia. Também faz parte das Blogueiras Negras. Esse texto foi publicado originalmente como status em seu facebook.

 

Fonte: Blogueiras Feministas

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