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Um dia de Luta na Morada Eterna dos Ancestrais

Fonte: Lista Racial –

Por: Reginaldo Bispo

Na eternidade, morada dos ancestrais, embaixo de um Baobá, saudosos militantes do MN discutem a situação do negro no Brasil em 2009.
Zumbi, o sábio mais velho, dirige a reunião e fala primeiro: ” Não sei se choro de tristeza ou de raiva, a luta dos palmarinos não era pra dar nisso!. Depois de 314 anos parte significativa dos negros brasileiros, em eu nome violentam a dignidade de meu povo, e como Ganga Zumba, aceitam as migalhas enganosas do poder escravista. Negras e negros tem a obrigação de reverter essa farsa. ”

Malcoln X, ao lado do líder, olhando ao fundo, para J. Brown, Chico Bento e Florestan Fernandes, J.Julio Chiavenatto, Décio Freitas e tantos outros, agradece “Vocês serão sempre bem vindos em nossas reuniões, mas é função dos pretos dirigirem a própria luta, pelos meios que se fizerem necessários” e olhando fixamente para Florestan mais uma vez, “Sem a participação organizada do povo negro, não haverá desenvolvimento ou revolução no Brasil.”

Luiz Gama, salta a frente, “A luta se faz nos tribunais ou nas ruas, com violência, se preciso, esperando o consentimento de Amilcar Cabral, que completa “A revolução se faz, se necessário, pela força das armas, mas não sem teoria revolucinária.

Martin Luther King, então profetiza em seu longo monólogo – “Os negros são humanos, não super-humanos. Como qualquer um, possuem personalidades diversas, interesses financeiros e aspirações distintas. Há negros que jamais lutarão pela liberdade, há outros que procuram obter com a luta, vantagens pessoais e há outros que colaboram com os opressores. Tais fatos, não devem ser motivo de desespero. Todo grupo e todo povo possui sua parcela de covardes, oportunistas, e traidores.

Os golpes do martelo do racismo e da pobreza fatalmente tem que perverter e corromper alguns. Não se pode pensar que o fato de um povo ser oprimido, leve todos os cidadãos a serem virtuosos e dignos. O importante é que a característica da maioria seja a honra, a decência e a coragem.”

Encolhidos em um canto, maravilhados com a presença de tão expressivas figuras, ídolos de seu tempo, os militantes do MNU,Hamilton Cardoso, Vanderlei José Maria, Cleber Maciel, Orlando Nascimento, Juan Pinedo, Lincoln dos Santos e Izabel Baltazar, Jonatas Conceição, até o velho Antonio Bispo, meu pai, indicam Lélia Gonzalez, como porta-voz do grupo, que entre a emoção e a raiva, vocifera “Traidores! Tentam enfiar goela abaixo de nosso povo, uma derrota como vitoria, atestado da incompetência desta negrada vendida, que tenta capitalizar polí tica e pessoalmente, enganando nosso povo. Repudiemos este estatuto eleitoreiro, sem força de lei, sem verba, que exclui os quilombolas e as cotas raciais dando um tiro no pé. A autonomia e a independência do MN e essência dà luta.”

Solano Trindade responde “Negros que vendem negros… não são meus irmãos. Só os negros oprimidos, em todo o mundo, que lutam por liberdade são meus irmãos, para eles tenho um poema do tamanho do Nilo.”

Levanta-se José Correia Leite, aplaudido pelos colegas da Imprensa e da FNB (Antonio Leite, Henrique Cunha, Odacir Mattos, Clóvis Moura, Aristides Barbosa e Eduardo de Oliveira e Oliveira), e declara: “Na Frente Negra Brasileira lutamos de forma abnegada, com muito sacrificio, para deixar um legado de como fazer as coisas, agora assistimos daqui o espetaculo deplorável esse bando de oportunistas nos vendendo ilusões, atrasando nossa luta de nosso povo em mais de 30 anos? Conclamo a unidade da juventude guerreira e dos lutadores ancestrais contra essa farsa do estatuto e a favor das terras quilombolas!.”

“Estamos por nossa própria conta. ..” arrebatou Stive Biko.

Aplaudido por Patrice Lumumba, Samora Machel e Agostinho Neto que em um jogral unissono enfatizam ” O opressor facista da UDR, dos partidos da direita, no Congresso ou na academia, é o mesmo opressor colonialista e racista contra os quais lutamos, são eles que financiam e orquestram a derrota do nosso povo, são os neo-racistas acadêmicos, políticos, nos poderes e em toda a mídia reinventando o Apartheid para barrar os avanços das lutas de negras e negros.”

De repente uma nuvem de mãos se levantam Edward Burghardt Du Bois, Marcus Musiah Garvey, Ben Bellá, Fanon, Cheikh Ant Diop, e Sekou Toré, e ainda chegando gente, todos pedindo inscrição.

Depois de horas sem fim
ZUMBI não mais coordenava,
a pleno pulmões gritava
a multidão enfurecida,
que numa só voz dizia
Liberdade!.. . Igualdade e autonomia!
O que toda gente queria,
pra construir seu futuro.

Mas da direita a esquerda,
um grande golpe se espreita,
pra enganar todo o povo.
Leis, as temos aos montes,
vazias não valem nada,
sequer a tinta empregada,
vale pra mudar a vida,
Sim, o compromisso com a luta,
da organização consciente
pode mudar esse quadro.

Não ao estatuto infame!
Todos na luta constante
construindo a unidade,
o destino, a independência,
consolidando o Projeto Político,
do negro pra todo o povo e
da Reparação de novo,
pra redimir o crime, as injustiças.

Descubro-me declamando,
tal qual poeta berrante
diante dos nobres nomes…
Acordei de sobressalto,
pensando já ter passado
pro outro lado da vida.
Então uma voz me disse,
calma lá Bispo… Resiste!.
Ainda não chegou sua hora.
Se precisar nossa força,
façam-se protagonistas,
que aqui juntos torcemos
por negras e negros, em vida,
comprometidos e descrentes
do paternalismo traiçoeiro.
Vergonha é não ter lutado.
Honrem a nossa memória,
pois passarão para a historia,
como negros dignos e coerentes
pois só a luta constrói
a liberdade inerente.

Pereci de novo…
e vi Zumbi na frente, chorando
Ainda há esperança!
Com alegria ele disse…

Salve a imortalidade de Zumbi!
Salve o dia Nacional da Consciência Negra!
Pela Retirada do Estatuto do Congresso!
Longa Vida ao MNU-Movimento Negro Unificado.

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