Alemães querem combater “antro” do neonazismo na Alemanha

Marchas neonazistas e grafites de teor racista deram a Zossen, no leste da Alemanha, a fama de antro da extrema direita. Os moradores concordam que o problema tem que ser combatido, mas divergem quanto às medidas.

Zossen fica no estado de Brandemburgo, que circunda Berlim, no leste alemão. Antes da reunificação do país, a cidade de seis mil habitantes fazia parte da Alemanha Democrática. A localidade, da mesma forma que toda a ex-RDA, passou por maus momentos após a anexação e posterior unificação do país.

O capitalismo recém instalado nos anos 1990 trouxe para os cidadãos o desemprego, algo desconhecido para os alemães da República Democrática. Além do desemprego, o desprezo nutrido aos Ossies, como os ocidentais chamam os alemães do leste, também gerou as condições para que a extrema-direita encontrasse um ambiente favorável para a metástase.

Embora a situação política seja menos pior que na década de 2000, a direita ainda age em Zossen. O desenvolvimento econômico da região continua não sendo dos melhores. Há muitas lojas abandonadas e prédios precisando urgentemente de reformas. No centro da cidade, não é difícil encontrar jovens que confessam abertamente suas predileções pelo extremismo de direita.

Zossen “mostra a sua cara”

Jörg Wanke faz parte da Iniciativa “Zossen mostra a sua cara”, uma organização local que reúne aproximadamente 50 pessoas voltadas para o combate do extremismo de direita. “Em fins de 2008 e início de 2009, os neonazistas marcharam por Zossen, carregando tochas nas mãos”, relembra Wanke. “Acontecem ainda crimes menores, como pichações de suásticas e slogans nazistas nos muros da cidade. E alguém desfigurou um memorial em homenagem às vítimas do ‘Terceiro Reich'”, conta ele.

O local usado como sede da iniciativa, a Casa da Democracia, também foi incendiado no ano passado. E apesar das boas intenções da “Zossen, mostra sua cara”, Wanke e sua equipe não são bem vistos por todo mundo na cidade. “Um corretor de imóveis me culpou por não estar conseguindo vender suas casas mais, por causa da má fama que a cidade estaria ganhando em função de nossas atividades”, diz ele. “Vivi aqui 20 anos, mas algumas pessoas me tratam como seu eu fosse um traidor por estar fazendo o que faço”, relata Wanke.

Prefeita não quer estardalhaço

Michaela Schreiber ocupa o cargo de prefeita desde 2003, tendo sido reeleita em setembro último. Embora ela admita a presença de extremistas de direita em Zossen, ela diz que há um certo exagero em torno do problema, acreditando que fazer estardalhaço em volta do assunto não irá ajudar em nada. “Essa é uma cidadezinha pequena. Todo mundo conhece todo mundo. Sendo assim, a maioria das pessoas sabe quem são os cinco ou seis extremistas organizados aqui. Zossen não um antro de extremismo de direita, como muita gente alega”, fala Schreiber.

Ela também minimiza o significado do incêndio ocorrido na Casa da Democracia. “Ele foi causado por um adolescente de fora da cidade, que tem deficiências mentais”, diz a prefeita. Nascida na cidade, ela saiu para estudar no estado de Renânia-Palatinado, no oeste do país, e voltou depois que concluiu a universidade, de saudades da cidade onde cresceu. Desde que assumiu a prefeitura, ela acredita que o combate ao extremismo deve se dar de maneira discreta, economicamente. Para isso, ela aumentou o número de assistentes sociais na cidade. E o índice de 7% de desempregados é baixo, se comparado ao resto do estado de Brandemburgo.

Clima pesado

Jan Kassiske diz que Michaela fez bem em voltar a viver em Zossen. “A prefeita tem boas ideias, como por exemplo dar apoio à assistência social. Isso foi um sucesso”, analisa o funcionário da MAT. Ele também elogia os esforços de Schreiber para combater o extremistmo, embora seus métodos nem sempre alinhem-se com os da Ong “Zossen mostra sua cara”. Enquanto “a iniciativa tem orientação de base, a prefeita segue uma orientação administrativa. As duas coisas não funcionam juntas. É difícil propagar uma atmosfera democrática em uma situação difícil como essa”, conclui Kassiske.

Em meio às divergências entre a prefeita e a ONG “Zossen mostra sua cara”, os extremistas de dieita poderão se beneficiar da ausência de progresso, mantendo-se na cidade. “A cena da extrema direita é muito móvel. Eles estão sempre mudando para onde é mais confortável para eles”, analisa Kassiske.

O argumento da prefeita é de que se deve observar o extremismo com cuidado e discrição, a fim de não chamar a atenção, o que fortaleceria Partido Democrático Nacional (NPD), de extrema direita. “Nossa experiência é a de que com quanto mais força a iniciativa lutar contra nós, mais seguidores ganhamos, principalmente quando chegam as eleições”, diz Sven Haverland, organizador local do NPD.

Wanke, por sua vez, fica incomodado toda vez que alguém pergunta se as ações da “Zossen mostra sua cara” estão, de fato, causando mais danos que benefícios. “É mais perigoso não fazer nada”, diz ele com plena convicção.

Com informações da Agência Deutsche Welle

Fonte: Vermelho

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