sábado, novembro 27, 2021
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A música de Aaliyah enfim vai chegar ao streaming. Por que demorou tanto?

Batalha entre espólio e empresário retém controle do catálogo

Por anos, essa vinha sendo uma das ausências mais notórias, e intrigantes, na música: a maior parte do catálogo da cantora Aaliyah, uma inovadora estrela do R&B na década de 1990 e começo dos anos 2000, estava ausente dos serviços digitais, o que tornava quase invisível o trabalho de uma das estrelas pop mais influentes das últimas décadas, e a privava do legado que merece.

A cantora, cujo nome completo era Aaliyah Haughtonmorreu em um acidente de avião em 2001, aos 22 anos. Mas no início deste mês, surgiu de surpresa o anúncio de que sua música em breve chegará às plataformas de streaming, começando por seu segundo álbum, “One in a Million” (1996), nesta sexta-feira (20).

Os fãs de Aaliyah, entre os quais Cardi B, celebraram online. Mas o retorno de sua música continua complicado, e a batalha entre seu espólio e o empresário musical que a contratou quando ela ainda era adolescente, e que retém o controle da maioria de seu catálogo, prossegue. Abaixo, descubra por que seu trabalho esteve por tanto tempo indisponível nos serviços que dominam o consumo de música hoje.

Que partes de seu trabalho serão lançadas agora?

A Blackground Records, fundada pelo produtor Barry Hankerson –tio de Aaliyah– anunciou que 17 álbuns de seu acervo seriam lançados nos próximos dois meses, em serviços de streaming e também em CD e vinil. Isso inclui a maior parte da produção de Aaliyah –os discos de estúdio “One in a Million” e “Aaliyah”, a trilha sonora do filme “Romeu Tem que Morrer” e duas coleções póstumas—, além de álbuns de Timbaland, Toni Braxton, JoJo e Tank.

Os lançamentos, que estão sendo realizados por meio de um acordo de distribuição com a companhia independente de música Empire, apresentarão o trabalho de Aaliyah a uma nova geração. Na década de 1990, ela era uma voz poderosa no som emergente do hip-hop: uma jovem determinada –ela tinha apenas 15 anos ao lançar seu primeiro disco, “Age Ain’t Nothing but a Number” (1994)—, que cantava como um anjo urbano, cercada por alguns dos acompanhamentos mais inovadores do período.

“Enquanto a maior parte das divas insiste em ocupar posição central na canção”, afirmou Kelefa Sanneh, do The New York Times, em uma avaliação sobre Aaliyah em 2001, “ela sabia como desaparecer na música, como equiparar sua voz à linha de baixo –às vezes era difícil distinguir uma coisa da outra”.

Quem é Barry Hankerson?

Hankerson é uma figura misteriosa, poderosa e divisiva no mundo da música. Ele foi casado por algum tempo com a cantora Gladys Knight, e mais tarde descobriu R. Kelly e administrou sua carreira. Ele transformou a Blackground em uma das mais bem sucedidas gravadoras negras de todos os tempos, mas se envolveu em numerosas disputas com seus artistas. Braxton, JoJo e outros processaram a gravadora, e Braxton acusou Hankerson de “fraude, trapaça e duplicidade”, de acordo com um artigo publicado em 2016 pelo site de música Complex e intitulado “a inexplicável ausência online do melhor da música de Aaliyah”.

Em 1991, Hankerson apresentou sua sobrinha, que tinha 12 anos de idade, a Kelly, duas vezes mais velho. Kelly, na época um cantor, produtor e compositor em ascensão, se tornaria a principal força na condução inicial da carreira de Aaliyah, compondo e produzindo boa parte de seu material e transformando a cantora em parte de seu séquito.

Mais tarde surgiu a informação de que Kelly tinha se casado secretamente com Aaliyah em 1994, quando ela tinha 15 anhos e ele 27. No processo criminal que Kelly está enfrentando no momento em Brooklyn –e cujo júri começou a ser selecionado na semana passada— os procuradores públicos afirmam que Kelly subornou um funcionário público do Illinois para obter documentos falsos de identidade para Aaliyah, segundo os quais ela tinha 18 anos na data do matrimônio. O casamento deles foi anulado mais tarde.

Depois que Hankerson transferiu a distribuição dos discos da Blackground da Jive para a Atlantic, na metade da década de 1990, Aaliyah começou a trabalhar com dois jovens compositores e produtores da Virgínia, Timbaland e Missy Elliott. A primeira colaboração entre eles, “One in a Million” (1996) ganhou dois discos de platina e gerou os singles “If Your Girl Only Knew” e “The One I Gave My Heart To”, dois grandes sucessos.

O que aconteceu com a música de Aaliyah?

Na época em que Aaliyah morreu, ela parecia estar bem encaminhada para uma carreira de grande sucesso. Mas com a evolução do negócio da música na era digital, e a redução na produção da Blackground, seu catálogo quase desapareceu.

Excetuado o disco “Age Ain’t Nothing but a Number”, que continuava a ser parte do catálogo da Jive, via Sony Music, e de um punhado de outras faixas, a maior parte das canções de Aaliyah não estava disponível nos serviços de streaming. Os CDs e LPs usados da cantora são vendidos por preços assustadores.

A influência dela persistiu, ainda que às vezes seja mais imaginada do que real. No mês passado, a cantora Normani lançou uma canção, “Wild Side”, com Cardi B, que continha o que muita gente acredita ser um sample de um trecho de bateria de uma canção de Aaliyah. (A revista Billboard afirma que a informação é incorreta, ainda que Hankerson tenha declarado que, caso fosse verdade, o uso teria sua aprovação de qualquer modo.) E o interesse pela história dela foi estimulado pelo documentário “Surviving R. Kelly”, de 2019, que se aprofundou no relacionamento entre os dois.

Ainda que o catálogo dos serviços de streaming tenha quase atingido a condição de “jukebox celestial completa” há muito prevista para o segmento, continuam a existir algumas outras ausências notáveis. Os primeiros trabalhos do De La Soul, entre os quais seu disco de estreia, “3 Feet High and Rising”, de 1989, não estão disponíveis online, aparentemente por conta de problemas quanto à liberação de samples. (Os novos detentores desses direitos musicais prometeram que as faixas seriam lançadas, mas não revelaram planos concretos.)

Por que a música de Aaliyah está saindo agora?

Exatamente o que conduziu ao lançamento da música de Aaliyah neste momento não está claro.

De acordo com um artigo recente na revista Billboard, Hankerson começou a procurar um novo contrato para lançar os trabalhos dela no ano passado, depois que o espólio de Aaliyah fez um anúncio misterioso de que “a comunicação” entre o espólio e “diversas gravadoras” sobre enfim colocar a música da cantora na internet “tinha sido iniciada”. O espólio acrescentou que “novas atualizações virão”.

Mas segundo Hankerson, o espólio não controla as gravações de Aaliyah; é ele que o faz, como proprietário da gravadora Blackground. Os fãs vêm acompanhando há meses outras declarações misteriosas do espólio, entre as quais uma em janeiro, na data do que teria sido o 42º aniversário de Aaliyah, de que “esses assuntos não estão sob nosso controle”.

Quando a Blackground anunciou os planos de relançamento, o espólio respondeu com outra declaração confusa, afirmando que por 20 anos vinha “enfrentando táticas escusas e enganosas em conexão com projetos não autorizados cujo objetivo é macular”, mas expressando “perdão” e um desejo de seguir em frente.

Uma explicação mais direta sobre o que vem acontecendo nos bastidores veio de um advogado do espólio, Paul LiCalsi, que afirmou que “por quase 20 anos, a Blackground deixou de prestar informações regulares ao espólio, nos termos dos contratos de gravação de Aaliyah. Além disso, o espólio não foi informado do lançamento iminente de todo o catálogo até depois de o acordo estar concluído e os planos preparados”.

A revista Billboard citou a resposta de um representante da Blackground, segundo o qual o espólio “receberá tudo a que tem direito” e acrescentando que um pagamento de royalties foi realizado no começo deste ano.

Para os fãs, essa batalha nos bastidores pode importar menos do que o fato de que a música de Aaliyah enfim estará disponível online. “Baby Girl está chegando ao Spotify”, o serviço anunciou no Twitter, com uma foto de Aaliyah. “É algo que pelo que esperávamos há muito tempo”.

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