quarta-feira, setembro 22, 2021
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“Amar a negritude”: a descolonização na luta antirracista

Uma das coisas mais difíceis é você amar aquilo que você vê. Bell Hooks (2010) escreve, “a arte e a forma de amar começa na capacidade de nos conhecer e nos afirmar” (s/p). Olhar para o espelho e nos reconhecer como seres humanos incríveis é um processo que está sempre em construção. Olhar para si sem crítica e sem julgamentos é uma tarefa quase impossível em uma sociedade racista. Porém sendo “quase” significa que a capacidade de nos amar é tarefa alcançável. Amar esse corpo escuro; esses cabelos rebeldes; esse nariz largo; essa boca grande; amar a si do jeitinho que se sente mais confortável. 

Repito a palavra “amar”, pois como bem aponta a autora, “o amor cura”. Não venho querendo explicar o que é o amor, cada um sabe e entende de forma diferente o significado dessa palavra, venho expressar um pouco de todo turbilhão que eu sinto/senti nesses anos sendo uma cientista social (futura socióloga), mulher, negra, bissexual, acima do peso, com 24 anos. Tento compreender o significado de “amar a negritude”, conceito colocado pela intelectual Bell Hooks e o impacto na luta libertadora da lógica da supremacia da branquitude.

Em uma das aulas em que lecionou, Hooks (2019) discute o romance “Passing”, de Nella Larsen com a turma. Nesse livro, uma das personagens, Clare, uma mulher negra que passou como branca por toda a sua vida adulta casando com um empresário branco e rico, tem o desejo de “ser negra”, desejo esse que a faz ser assassinada. Hooks coloca uma pauta para turma, a possibilidade de pensar o perigo de amar a negritude em uma cultura supremacista branca, que sua ameaça no tecido da ordem social poderia levar a morte. 

O clima da sala ficou pesado, os estudantes estavam interessados em debater o desejo que as pessoas negras têm em ser brancas. Não puderam levar a sério um debate crítico sobre “amar a negritude”, o interesse era discutir o auto-ódio. Narrativas demonstrando as diversas maneiras que as pessoas negras tentaram conquistar a branquitude, sejam nas atitudes, nas escolhas de roupas ou nos grupos específicos.

Após o término da aula, Hooks relata que se sentiu como se tivesse observado um ritual do impacto da supremacia branca com a coletividade em nossas psiques, moldando a forma como agimos, falamos, andamos e sonhamos. O aspecto mais assustador desse ritual é o silenciamento no debate construtivo sobre amar a negrite. Estamos tão imersos em falar sobre nossas dores, em como essa cultura nos diminui, que não refletimos nosso valor, o de nossa identidade e cultura, pois imaginar que podemos desejar ser contra uma hegemonia é um ato muito perigoso. 

“Em um contexto supremacista branco, ‘amar a negritude’, raramente é uma postura política refletida no dia a dia. Quando é mencionada, é tratada como suspeita, perigosa e ameaçadora.” (HOOKS, 2019, p. 40).

O auto-ódio ainda é muito discutido dentro da academia, mesmo quando há uma aceitação das nossas características fenotípicas, continuamos apegados ao discurso ligado na narrativa ao desejo anterior de “ser branco”. Mas o que seria, afinal, essa tentativa de construção de amor à negritude que tanto ameaça a cultura hegemônica?

“Amar a negritude” é esse ato de descolonizar e romper com pensamento supremacista branco que insinua que somos inferiores, inadequados, marcados pela vitimização (HOOKS, 2019). Internalizar para si o amor pela sua cor; pela sua cultura; pelos seus traços e pelos seus modos. Podemos dizer que é um “pensar negro” entender que a nossa negritude e a nossa epistemologia é relevante, pois nós somos relevantes, nosso pensamento tem que estar dentro das instituições, assim como nós temos que estar presentes. E isso é perigoso.

“Em nossos empregos, quando nos expressamos a partir de um ponto de vista descolonizado, arriscamos ser vistos como perigosos e pouco cordiais.” (HOOKS, 2019, p. 50).

Colocar nossas opiniões pode ser muitas vezes entendido como uma afronta digna de punição fazendo com que muitos negros estejam dispostos a ignoras essas diferenças, mesmo consciente em seu ambiente de trabalho, na estimativa de alcance de recompensa de bens materiais e status quo na sociedade supremacista branca. 

Bell Hooks (2019) expõe a lógica da branquitude que seduz as pessoas negras com a promessa de sucesso apenas à aqueles que estiverem disposto a negar o valor da negritude condizendo com os valores da supremacia branca e vendo a negritude como um marcador de vitimização.

“Conforme as pessoas negras personificam essas atitudes e se comportam de modo semelhante aos estereótipos racistas, observamos maior apoio ou aceitação na cultura. Um grande exemplo é o branco consumidor de rap misógino que reproduz a ideia de que homens negros são animais violentos e brutos.” (HOOKS, 2019, p. 50).

Uma cultura de dominação se caracteriza com a autonegação dos seus cidadãos, bombardeados por mensagens que desvalorizam nossa imagem, somos mais marginalizados e internalizamos em nossas almas. Diminuímo-nos por acreditar que a subordinação do negro seja algo natural.

 Nesse contexto, é com um debate construtivo ao amor à negritude que conseguiremos nossa libertação para uma luta contra esse sistema opressor. Somente descolonizando nossos pensamentos, vendo nosso valor como seres humanos conseguiremos ter força para combater de frente. 

Ser forte é uma das exigências que nos colocam para viver nesse mundo; temos que ser fortes, pois vivemos em uma sociedade machista; temos que ser forte, pois vivemos em uma sociedade racista; temos que ser forte, pois vivemos em uma sociedade heteronormativa e temos que ser forte porque a vida é difícil e precisamos seguir em frente. E digo, não há problema em ser forte, o problema é querer ser forte sozinho, se podemos contar um alguém, por que não simplesmente contamos com ela? Às vezes é constrangedor, às vezes só conseguimos abrir com certa pessoa, às vezes só conseguimos falar certas coisas que não são nem um terço do que estamos sentido. Mas uma coisa é certa, se tiver alguém não tem porque não tentar. E isso é se amar.

Pedir ajuda é a nossa maior força dentro da luta antirracista e também nosso maior ato de amor, saber que não estamos sozinhos nos faz forte o suficiente para olharmos o espelho e nos afirmarmos como indivíduos que valemos a pena. E nós valemos a pena, basta aceitar. Essa aceitação é amor, 

Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura (HOOKS, 2010, s/p). 

Compreendo que a luta antirracista é antes de tudo uma luta de aceitação. Combate árduo contra uma cultura que ensina a nos odiarmos. Como no poema da coreógrafa, Victoria Santa Cruz (2013), “Gritaram-me negra” na infância, por não saber a verdade que aquilo escondia, retrocedi e me senti negra.  Odiei por muito tempo minha aparência, principalmente, meus cabelos. Até um dia, que de tanto retroceder, dei um basta e voltei às minhas raízes e, juntamente, com leituras das feministas negras e apoio de amigos e familiares, admiti: “negra sou”, me orgulho disso e sei que não estou só. 

A nossa união nos fortalece. Ame, ame a si e seu semelhante; ame a si e seu diferente, une-se a eles e juntos transformaremos o mundo.

E para os nossos colegas brancos que apoiam a nossa luta, um pequeno recado, enquanto não questionarem seus privilégios diante a construção social e política na sociedade causada pela supremacia branca, continuarão a exercer as ideias da hegemonia. Não entenderão a verdadeira intenção da luta antirracista e seu papel na desconstrução da sociedade. Não é só entender o que é racismo é buscar a fundo as consequências que o racismo traz para a formação identitária, política, cultural. Entender sua condição de sujeito em relação aos indivíduos não-brancos, só assim, saindo da zona de conforto que conseguirá entender a real luta antirracista. 

A luta é árdua e perigosa, ir contra a cultura dominante pode levar a série de retaliações, porém estar disposto a seguir em frente sabendo que não está só é um estímulo para uma luta libertária.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOOKS, Bell. Olhares Negros: Raça e Representação. Editora Elefante, 2019

______. Me gritaram negra! A poeta Victoria Santa Cruz. In: Geledes, 2013, s/p. Disponível em: https://www.geledes.org.br/me-gritaron-negra-a-poeta-victoria-santa-cruz/ Acesso: Junho 2020.

_____. Vivendo de amor. In: Geledes, 2010, s/p. Disponível em: http://arquivo.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/180-artigos-degenero/4799-vivendo-de-amor Acesso: Junho 2020.

 


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