“Avalio de forma positiva a presença de mulheres negras em conferências da ONU”, diz Rafaela Seixas

Artigo produzido por Redação de Geledés

Diplomata é convidada de Geledés a participar de evento promovido pelo instituto

A diplomata Rafaela Seixas é uma das convidadas de Geledés para o evento ‘Estratégias para o Empoderamento Econômico da Mulher Negra’, que acontece nesta quarta-feira 13, às 16h30 (horário de Brasília), em paralelo à 68ª Comissão Sobre o Status da Mulher (CSW 68), em Nova York.

Participam ainda do encontro de Geledés a ministra das Mulheres, Aparecida Gonçalves, a ministra de Igualdade Racial, Anielle Franco, a coordenadora de Geledés na área de Advocacy e Incidência Política, Nilza Iraci e a coordenadora de Geledés na área de Políticas de Promoção da Igualdade de Gênero e Raça, Maria Sylvia de Oliveira.

Nesta entrevista a Geledés, a diplomata ressalta a relevância da atuação de lideranças do feminismo negro nos fóruns das Nações Unidas, uma vez que as mulheres negras se colocam a partir do ponto de vista de suas experiências e vivências. Ressalta ainda o impacto da Conferência de Durban na diplomacia brasileira e conta sobre sua experiência de mentoria para incentivar candidatos negros e negras a cargos no Itamaraty.

Geledés – O instituto promove nesta quarta-feira, 13, o encontro paralelo à 68ª Comissão Sobre o Status da Mulher (CSW 68), que acontece na sede da ONU, em Nova York, do qual fará parte. O que espera deste evento sobre empoderamento econômico de mulheres negras?

Rafaela Seixas – Primeiramente, gostaria de fazer uma ressalva que falo a título pessoal e que minhas opiniões não representam a visão do Ministério das Relações Exteriores. Minha expectativa sobre este evento são as melhores possíveis. Estamos em um espaço superimportante, que é o segundo maior evento da ONU e só perde para a Assembleia Geral das Nações Unidas, com representações da sociedade civil. A partir de uma perspectiva pessoal, acredito ser muito importante que mulheres negras e latino-americanas falem do ponto de vista delas, trazendo elementos para o debate e criando conceitos a partir da realidade em que vivem.

É muito importante que Geledés, uma referência no Brasil e no movimento negro no mundo, ocupe esse espaço na sede da ONU, em Nova York. E ao mesmo tempo construa com outras organizações de mulheres de outros países, já que temos mais de duas mil organizações participando. É um espaço para o diálogo acontecer e acho muito salutar ter Geledés neste fórum mundial.

Geledés – Há quase dois anos, o instituto vem realizando ações efetivas junto aos diferentes fóruns das Nações Unidas. De que forma as iniciativas de uma organização da sociedade civil, como Geledés em órgãos como as Nações Unidas, podem contribuir para a mudança de políticas internas no Brasil relacionadas ao combate ao racismo e ao sexismo?

Rafaela – Acho Geledés muito importante e necessário como uma organização coletiva de mulheres negras, que traz para o debate sobre políticas públicas as vozes de mulheres negras que denunciaram, por exemplo, na década de 1990, a esterilização de mulheres negras e periféricas como uma questão de saúde pública e de direitos sexuais e reprodutivos, ampliando as perspectivas desse debate, inclusive dentro do feminismo. Uma organização, que, em 2001, teve uma ativa participação na Conferência de Durban, trazendo o tema das ações afirmativas para o Brasil, para homens e mulheres negras.

Geledés é um exemplo vivo de como o feminismo negro no País luta pelos direitos de mulheres e também de homens negros, e por uma sociedade mais igualitária e mais livre para todes. Acredito que a luta pela justiça social passa justamente pela criação de um verdadeiro espaço público, a escala transnacional, onde todas as vozes não só sejam ouvidas, como também sejam levadas em conta. Com essa ação que realiza hoje Geledés contribui para a consolidação desse espaço público.

Geledés – Como diplomata brasileira, como vê o movimento de outras nações na luta antirracista e quais políticas no mundo acredita que podem servir como exemplo ao Brasil?

Rafaela – Como uma mulher negra, avalio de forma positiva não só o movimento de outras nações, mas também o das sociedades civis. A cada ano, nestes espaços de conferências internacionais, nestas reuniões, vejo um aumento da participação da sociedade civil.

E, novamente, como uma mulher negra, eu só posso falar sobre quão salutar foi a experiência da sociedade civil e da delegação do Brasil na Conferência de Durban, em 2001. O Brasil é signatário de vários compromissos internacionais para combater o racismo, tanto no âmbito interamericano, a exemplo da Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, que foi proposta pelo Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), logo após a Conferência de Durban, o que demonstra o impacto dessa conferência também na diplomacia brasileira, a convenção internacional para a eliminação de todas as formas de discriminação racial, e, claro, a declaração e a plataforma de ação de Durban . Esta última foi muito importante para o debate das ações afirmativas, das cotas, dos tipos de reparações que podemos fazer para a população afrodescendente. É um debate que ainda está vivo, que segue, para além das ações afirmativas, com questionamentos que estão sendo feitos hoje, como a construção de políticas de reparação. 

E também avançamos muito em nível conceitual, no âmbito multilateral. Por exemplo, o próprio conceito de afrodescendente foi criado durante a Conferência de Durban pela então presidenta da conferência, Edna Roland, que queria um termo que agrupasse a diáspora negra como um todo, incluindo a latino-americana e caribenha. Havia o termo afro-americano, mas era inapropriado, porque era muito vinculado à população negra dos Estados Unidos. Então foi cunhado o termo afrodescendente que hoje está nas políticas públicas do Brasil, na lei de cotas, é um termo que nós nos que nos apropriamos internamente. Portanto, percebo que a atuação da sociedade civil em fóruns transnacionais tem muitas vezes esse “efeito bumerangue de mobilizar na escala internacional, para que, em um segundo momento, esses temas voltem à pauta, internamente.

Geledés – Quais os impactos evidentes deste empoderamento econômico para as brasileiras, principalmente as negras?

Rafaela – O empoderamento econômico é importantíssimo. Na minha escala micro, individual, eu vejo o que é relevante ser uma mulher negra economicamente empoderada. Mudando de escala, partindo para a escala macro, o empoderamento é importantíssimo porque você mostra a outras mulheres negras que é possível. É possível ser uma mulher negra e ter a profissão que quiser, não necessariamente uma profissão subalterna, limitada pelo racismo e sexismo. Ainda nesta perspectiva individual você passa essa mensagem de que meninas e mulheres podem traçar esse caminho, que elas conseguirão chegar a um determinado lugar. Do ponto de vista coletivo, o empoderamento de mulheres negras é muito importante quando pensamos também nas comunidades, muitas delas tradicionais, em que muitas dessas mulheres estão inseridas, porque quando a gente empodera comunidades negras, que também são bem diversas, como as quilombolas, de fundo de pasto, marisqueiras, colhedoras de sempre vivas, povos de terreiros, comunidades periféricas, entre outras, estamos empoderando outras formas de viver.

 Quando se facilita que comunidades negras tenham acesso a bens primordiais, como o acesso à terra e a recursos para produção, você mexe em questões estruturais da sociedade e da economia e acaba produzindo de uma forma diferente, não só bens materiais, mas bens imateriais, bens culturais. A mudança da realidade econômica permite uma melhor visibilidade das demandas de um grupo excluído e a mudança de valores tem, geralmente, como consequência, a mudança da realidade econômica. É uma relação dialética.

Geledés – Diante de dados que cerca de 23% do corpo diplomático brasileiro é composto por mulheres e apenas 3,2% são de mulheres negras, como escurecer o Itamaraty?

Eu idealizei e sou ainda uma grande estimuladora da Mentoria Monica de Menezes Campos. Ela surge como uma reação ao concurso de 2021, cuja prova de inglês da segunda fase eliminou mais de 80 % dos cotistas negros e mais de 90% dos cotistas com deficiências. Inclusive, uma das vagas de Pessoas com Necessidades Especiais – PNE foi para a ampla concorrência à época. Foi uma prova que aconteceu durante a pandemia, quando a maioria da população ainda não tinha tido acesso à primeira dose da vacina. 

No dia 4 de setembro de 2021, eu e mais quatro diplomatas fizemos uma reunião com os candidatos cotistas negros e dessa reunião tiramos o encaminhamento, que já havia sido discutido previamente no grupo de leituras de mulheres, de fazermos uma mentoria, gratuita e voluntária, para candidatos negros. Nós já tínhamos lido coletivamente, no grupo de leituras, o pensamento de algumas mulheres negras como, Sueli Carneiro, Grada Kilomba, Angela Davis e bell hooks.

No primeiro ano do programa, estruturamos a mentoria em acompanhamento individual, 35 diplomatas acompanharam os estudos de 50 candidatos, em sua maioria mulheres negras. Durante os encontros coletivos, inclusive, organizamos a primeira reunião de diplomatas negras com os candidatos negros. Houve também captação de bolsas e distribuímos cerca de 170 mil reais no primeiro cilo. Quatro mentorandas do programa foram aprovadas em 2022. O projeto também dialogou com o Instituto Rio Branco, fez propostas, cuja maioria foi implementada.

No ano passado, o programa foi ampliado para 69 candidatos e 50 mentores diplomatas. Continuamos com os encontros coletivos, com a captação e distribuição de bolsas e o acompanhamento individual. Nesse segundo ano, conseguimos a aprovação de cinco mentorandos, sendo quatro homens e uma mulher, promovemos um encontro sobre saúde mental e racismo, instituímos um plantão psicológico antes da primeira fase do concurso e publicamos na página da mentoria do Instagram conteúdo não apenas sobre a Mônica, mas também sobre outras pessoas negras na diplomacia, como Francisco Jê Acaiaba Montezuma, o primeiro embaixador negro do Brasil. Em suma, é um projeto que busca resultados bem concretos, como o apoio à aprovação de mais pessoas negras como diplomatas, como você diz, para escurecer o Itamaraty. É também um projeto que também visa resgatar a memória da presença negra na diplomacia brasileira, dialogar com o Ministério e o Instituto Rio Branco e chamar a atenção sobre as questões racial e de gênero para todos os diplomatas que são convidados, a cada novo ciclo, a fazer parte do programa. 

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