Ao receber título de Emérito, Kabengele diz que USP dobrou-se ao darwinismo social; em agressiva “fala do trono”, Maria Arminda polemiza com homenageado

Enviado por / FonteAdusp

Aos 83 anos, Kabengele Munanga agora é Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). O título foi concedido ao professor em cerimônia realizada no salão do Conselho Universitário (Co), em 2 de junho último, e presidida pelo diretor da unidade, Paulo Martins. Porém, a vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda, que foi diretora da FFLCH e estava presente, protagonizou um incidente inédito nesse tipo de evento ao rebater, de imediato, afirmações do Professor Emérito no seu discurso de agradecimento.

Ao agradecer à homenagem, Kabengele relembrou sua trajetória intelectual como pesquisador engajado na luta contra o racismo, e de passagem teceu uma crítica pontual à postura adotada pela USP no início do século 21 no tocante às políticas afirmativas. Assim, depois de ressaltar o fato de a instituição haver assumido a “vanguarda intelectual” na discussão da questão racial no Brasil (com Roger Bastide, Florestan Fernandes e outros), e de haver “ensaiado um passo promissor”, em 1995, ao formar um grupo de trabalho (do qual ele próprio participou) “para elaborar políticas públicas para a população negra”, Kabengele apontou um retrocesso no comportamento da universidade.

Aplaudido pela professora Lilian Schwarcz, sua colega na Antropologia e amiga pessoal – Gabriel Gama/FFLCH

“Mas quando entramos na última fase, que se inicia no fim do século 20, início do século 21, a USP renunciou à sua posição de pioneira e vanguarda intelectual, para assumir uma postura conservadora, presa ao darwinismo social dominado pelo discurso da defesa do mérito, da qualidade e da excelência, diante da exclusão do universo universitário de milhões de jovens de ascendência africana, indígenas e brancos pobres, oriundos da escola pública”, afirmou o Professor Emérito. “Politicamente a USP se fechou e se recusou a enfrentar os debates sobre cotas que se desenrolaram nos últimos quase vinte anos”.

Ao final de seu discurso, de modo totalmente inusual, a vice-reitora, sentada a seu lado, solicitou a palavra a Martins para responder, indiretamente, às críticas de Kabengele e defender a atuação da USP. A atitude da vice-reitora chocou docente presente à cerimônia: “É insólito que alguém polemize com o homenageado”, comentou. “Se alguém discorda, expressa isso em outra ocasião, não rouba a cena. Foi ridículo e agressivo”.

E efetivamente Maria Arminda roubou a cena, de modo teatral, sua “fala do trono” contrastando com a conduta gentil e discreta do docente do Departamento de Antropologia. Embora o inesperado pronunciamento da vice-reitora tenha se iniciado e terminado com elogios à contribuição de Kabengele, seu sentido geral foi o de uma reprimenda às considerações críticas do Professor Emérito. Essa inusitada repreensão pública, por opinião emitida sobre tema relacionado exatamente ao campo de pesquisa no qual Kabengele se notabilizou, foi vista por alguns como demonstração de racismo.

“Eu acho que a USP deve [avançar mais]. Acho que deve sim”, manifestou a vice-reitora em relação às políticas de enfrentamento das desigualdades raciais e outras. “Mas eu queria chamar atenção para as transformações que a USP tem vivido, e a rapidez dessas transformações. Foi instituído o sistema de cotas em 2017… rapidez que talvez não seria desejável, talvez fosse melhor ainda se tivesse acontecido de outra maneira. Mas hoje a Universidade de São Paulo tem 54% dos seus estudantes vindos da escola pública. Hoje a Universidade de São Paulo dispende recursos mais com políticas de permanência do que com a folha de pagamentos de professores. E a Universidade de São Paulo pensa que é absolutamente necessário ter uma política inclusiva étnico-racial, de gênero, em todos os campos”.

No entender da vice-reitora, “a universidade é uma instituição altamente complexa”, fato que explicaria certas demoras. “Nós sabemos também que se tentou fazer políticas afirmativas durante um certo tempo, e estamos fazendo. São suficientes? Com certeza não são”, admitiu. “E todo cientista social sabe muito bem que o mundo não é espelho absoluto das nossas vontades. E que as cotas foram frutos dos movimentos pró-cotas, foram fruto de movimentos sociais, e isso é um processo que acontece ao longo desses embates. Nós sabemos também que comumente, os sociólogos sabem muito bem isso, comumente o resultado das nossas ações diverge das nossas intenções. Por isso que existe o social, e o social é isso”, pontificou. “Nós estamos construindo na Universidade de São Paulo nesse momento políticas afirmativas que darão e têm dado frutos. Quando eu digo [que] 54% dos estudantes da Universidade de São Paulo vêm da escola pública, eu considero isso um avanço”.

Maria Arminda também enalteceu a criação, pela atual gestão reitoral, da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), estrutura que, segundo ela, “não existe em nenhuma [outra] universidade brasileira”, além de ser “capilarizada”, por dispor de conselhos em todas as unidades (confira, na última parte desta matéria, a íntegra do pronunciamento da vice-reitora).

“Antropologia engajada, descolonizada” e projeto de luta contra o racismo

No seu discurso, Kabengele assinalou haver passado três décadas como “primeiro e único professor negro” no Departamento de Antropologia. Disse ter chegado ao Brasil e à FFLCH pela primeira vez em 1975, para desenvolver sua pesquisa de doutorado, iniciada na Universidade de Louvain, na Bélgica. Seu orientador foi o professor João Batista Borges Pereira. Voltou ao Congo em outubro de 1977, “com o diploma de doutor na mão”, mas teve que deixar o país natal por perseguições políticas e retornou ao Brasil.

Disse não ter “inventado a roda” e apontou os estudos pioneiros e ensinamentos de docentes como Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Oracy Nogueira, João Batista Borges Pereira, Teófilo de Queiroz Jr. e outros. Explicou que mudou radicalmente suas próprias perspectivas teóricas, ao optar por uma “antropologia engajada, descolonizada”, coerente com um “projeto de luta contra o racismo”, e entrou no mérito de certas controvérsias, ao falar de livros seus e de outros autores e autoras.

“No Negritude: Usos e Sentidos, parti da observação de que a identidade negra no Brasil se tornou essa realidade da qual se fala tanto, mas sem definir no fundo o que ela é e em que consiste. Tal fato me obrigou a contar a história desse conceito desde quando foi cunhado, no Quartier Latin dos anos trinta, pelos intelectuais negros africanos e antilhanos que estudavam na Universidade francesa em plena colonização da África subsaariana e para que servia e serve no contexto da diáspora negra no Brasil hoje”, rememorou.

“Partindo do princípio de que o corpo constitui a sede material de todas as identidades, o processo de construção da identidade negra devia partir da geografia dos corpos negros, cuja pele escura, ou seja, a negritude, é uma das características fundantes. Ou os negros assumem sua negritude em sua luta contra o racismo ou eles se perdem totalmente no outro, ou melhor, no branco”, explicou Kabengele.

Kabengele é homenageado durante seminário do Andes-SN realizado no IME-USP (2012) – Daniel Garcia

Ao abordar a questão das cotas étnicas, discutiu a questão da miscigenação. “Escutamos tantas vezes no debate sobre cotas a pergunta ‘Cotas para quem? Quem são negros num país de mestiços?’. Sem dúvida, o Brasil é um país muito miscigenado, mas os negros não foram extintos. Além do fato de que os mestiços são também vítimas dos preconceitos e práticas discriminatórias pelas gotas de sangue negro carregadas no seu patrimônio genético, ou seja, por causa de sua negritude”, disse.

“O princípio de que a união faz a força foi roubado de pretos e pardos na política de dividir para dominar. O livro Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: Identidade nacional versus identidade negra enfoca justamente o uso político-ideológico da miscigenação para escamotear as práticas racistas e, consequentemente, as desigualdades raciais decorrentes, além de dividir as vítimas do racismo através do ideal do branqueamento.

Ele também citou um livro recente, publicado em 2022 em sua homenagem, Negritudes- Diálogos com o pensamento de Kabengele Munanga, que reúne textos de dezoito autoras e autores, docentes universitários “que tentam dialogar com algumas de minhas ideias a respeito do negro no Brasil”. Confira aqui a íntegra de seu discurso, em arquivo cedido por ele ao Informativo Adusp.

Pronunciamento da vice-reitora Maria Arminda

Muito boa tarde todas e todos. Rápidas palavras. Eu em primeiro lugar quero cumprimentar muitíssimo o professor Kabengele Munanga, que a professora Lilian [Schwarcz] denominou o nosso Emérito ancestral. Professor, essa homenagem justa, mais do que justa, de reconhecimento pela sua envergadura intelectual, moral, e ao mesmo tempo como um atuante sem nenhuma alforria das questões e da causa da igualdade e da igualdade étnico-racial. Eu me sinto emocionada em estar assistindo [a] uma cerimônia como essa, e a universidade fica engrandecida não só com a sua presença aqui, e com toda a sua história, mas sobretudo com o que o sr. construiu para não só o Departamento de Antropologia e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, construiu para a Universidade de São Paulo.

Eu quero cumprimentar muitíssimo a mesa, o meu companheiro professor Paulo Martins, meu diretor, professora Ana Paula Megiani, vice-diretora, professora Marta Amoroso, chefe do Departamento de Antropologia, a professora Lilian Schwarcz, o professor Guilherme Moura Fagundes e também os professores eméritos professora Lux Vidal, João Batista Borges Pereira, Eva Blay, José Reginaldo Prandi, Eunice Prudente, José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.

Quando vivemos rituais, nós estamos falando de nós, os rituais falam da gente, daquilo que valorizamos. A Faculdade de Filosofia está falando dela, mas a Universidade de São Paulo também está falando. Naturalmente eu estou aqui sobretudo por uma expressão de admiração e de amizade pelo senhor. Mas sei muito bem, tenho clara consciência de que o cargo que ocupo também entra sempre na ordem de consideração. Mas eu quero deixar assinalado, reafirmado, independentemente dessa função que ora ocupo eu estaria aqui presente. Quero dizer que nessa condição… é uma condição extremamente incômoda. Parece que a Universidade está sempre numa dívida. Mas como a Universidade não é algo abstrato, ela é composta por pessoas, nós… parece que pessoalmente estamos sempre devendo. Eu acho que a USP deve. Acho que deve sim. Mas eu queria chamar atenção para as transformações que a USP tem vivido, e a rapidez dessas transformações. Foi instituído o sistema de cotas em 2017… rapidez que talvez não seria desejável, talvez fosse melhor ainda se tivesse acontecido de outra maneira. Mas hoje a Universidade de São Paulo tem 54% dos seus estudantes vindos da escola pública. Hoje a Universidade de São Paulo dispende recursos mais com políticas de permanência do que com a folha de pagamentos de professores. E a Universidade de São Paulo pensa que é absolutamente necessário ter uma política inclusiva étnico-racial, de gênero, em todos os campos.

Não podemos esquecer, está aqui a professora Eva Blay, que o padrão de desigualdade de gênero na USP é o mesmo há vinte anos: 39% de professoras, 61% de professores homens. Desses 39% só 30% chegam ao fim da carreira, que é a titulatura, e desse contingente só 27% ocupam cargos: coordenadorias, chefias etc. Tem uma desigualdade de gênero que também tem que ser enfrentada. Nós temos que romper todas as formas de desigualdade. A desigualdade social brasileira, que se reflete na composição da universidade, é obscena. Não dá mais para convivermos com isso e a universidade tem que ter um papel fundamental nesse sentido, tem que ser uma agência civilizatória, como ela foi em alguns momentos.

Nós sabemos também que se tentou fazer políticas afirmativas durante um certo tempo, e estamos fazendo. São suficientes? Com certeza não são. Mas a universidade é uma instituição altamente complexa. E todo cientista social sabe muito bem que o mundo não é espelho absoluto das nossas vontades. E que as cotas foram frutos dos movimentos pró-cotas, foram fruto de movimentos sociais, e isso é um processo que acontece ao longo desses embates. Nós sabemos também que comumente, os sociólogos sabem muito bem isso, comumente o resultado das nossas ações diverge das nossas intenções. Por isso que existe o social, e o social é isso.

Nós estamos construindo na Universidade de São Paulo nesse momento políticas afirmativas que darão e têm dado frutos. Quando eu digo ‘54% dos estudantes da Universidade de São Paulo vêm da escola pública’ eu considero isso um avanço. A outra questão que eu gostaria de chamar atenção, o sr. falou isso muito bem, é que a USP tem se movido. Essa construção da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento [PRIP] não existe em nenhuma universidade brasileira. Voltada para as políticas de permanência e de inclusão. E ao mesmo tempo costuma-se dizer que a USP é a última universidade a fazer a política de cotas.

Quem estava no Conselho Universitário naquele momento, eu era diretora da faculdade, nós fizemos uma batalha dentro do Conselho Universitário para aprovação das cotas em 2017. E a Faculdade de Filosofia teve protagonismo nisso. Fizemos uma aliança dentro do Conselho Universitário e as cotas foram aprovadas. Então a USP tem tentado honrar essas políticas. A USP não foi a última, nem do Estado de São Paulo a adotar… mas como ela é a USP, eu costumo dizer que na USP nós temos complexo, né? Tudo que acontece de bom é na Unicamp, nós estamos sempre em déficit. É interessante ver isso.

Quando essa gestão propôs, e eu apresentei no debate, a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento, no debate no período da escolha da Reitoria, uma professora levantou: ‘Mas por que você está apresentando isso? A Unicamp já tem’. E não tem, só tem na USP. E ela é um verdadeiro avanço. Por que? Porque ela é uma instituição da política acadêmica, tem assento ao lado de todas as pró-reitorias, e é capilarizada. Tem conselhos em todas as faculdades e unidades.

Nós temos que aprofundar as políticas afirmativas. Eu me sinto ao mesmo tempo satisfeita e insatisfeita. Satisfeita porque estou tentando honrar aquilo que eu recebi da minha casa, de um professor como o professor João Batista, que eu quero homenagear aqui, muito particularmente. Porque há toda uma tradição das ciências sociais de São Paulo que construiu as pesquisas em torno da desigualdade e da discriminação, do preconceito. Essa tradição da chamada escola paulista de sociologia, e o sr. citou muito bem, professor Florestan Fernandes, junto com o professor Roger Bastide, professor Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, João Batista Borges Pereira, Oracy Nogueira. E a Faculdade de Filosofia construiu com uma figura notável, também meu professor, o Centro de Estudos Africanos, que foi construção do querido e saudoso professor Fernando Mourão.

Nós estamos no momento de avanço. Insuficiente certamente, mas estamos na trilha do avanço. Um livro como Integração do Negro na Sociedade de Classes, de Florestan Fernandes, nos explica o chamado racismo estrutural, controvertido, que está em debate. Florestan termina Integração dizendo que a questão racial, a questão do negro, era a pedra de toque na construção de uma sociedade civilizada e moderna. Eu nunca esqueci essa lição, eu carrego comigo.

Portanto, quando a universidade homenageia o senhor [Kabengele], com a sua história, com a sua importância, com a sua presença, com essa envergadura, repito, moral que o senhor trouxe para a universidade, de alguma maneira a Faculdade está falando dela, mas a USP também está falando dela. E eu gostaria de terminar deixando essa mensagem. Essa homenagem, que eu não diria justa, porque ela é muito mais que justa, mas essa homenagem de reconhecimento a uma das grandes personalidades da nossa universidade. Essa homenagem, professor, eu também me sinto confortada, e tenho a sensação de que eu não traí meus professores.


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