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Brasil desperdiça poetas por racismo, misoginia e homofobia, dizem estudiosos de Luiz Gama e Hilda Machado

Mesa desta sexta juntou Lígia Ferreira e Ricardo Domeneck para falar sobre nomes ‘ignorados’ pela crítica que ficaram fora do cânone literário. Eles foram chamados de ‘garimpeiros da literatura’.

Por Cauê Muraro, G1

A partir da esquerda: a mediadora Rita Palmeira, Lígia Ferreira (pesquisadora da obra de Luiz Gama) e Ricardo Domeneck (pesquisador da obra de Hilda Machado) na mesa ‘Poeta na torre de capim’, que abriu a programação da Flip 2018 nesta sexta-feira (27) Foto: Walter Craveiro/Divulgação/G1

O Brasil desperdiça poetas e escritores e os deixa fora do cânone literário por racismo, mosigonia e homofobia. Essa foi uma das conclusões da mesa que abriu nesta sexta-feira (27) a programação da 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

O encontro juntou, Lígia Ferreira e Ricardo Domeneck, pesquisadores que estudam justamente obra de poetas “ignorados por leitores” e “silenciados pela crítica”: o ex-escravo, poeta, escritor e abolicionista Luiz Gama (1830-1882), conhecido ainda por sua atuação política, e a poeta Hilda Machado (1951-2007), mais conhecida por seu trabalho como cineasta e estudiosa de cinema.

“Infelizmente, existe um problema sério no brasil, que é a forma que a gente estuda literatura, é um desperdício de poetas e escritores, essa obsessão por escolas e períodos literários. É uma coisa complicada, porque o estudo deveria ser pelo texto, e não pela escola literária”, afirmou Domeneck, que pesquisa Hilda Machado.

“E as questões políticas, que fazem com que poetas e escritores acabem caindo do cânone, por questões de racismo, misoginia, homofobia. O trabalho dos editores tem de ser uma espécie de antídoto a isso.”

Escritor e artista visual nascido em 1977 e radicado há 16 anos na Alemanha , Domeneck comentou que descobriu Hilda Machado em 2004 e tinha planos de conhecê-la quando soube do suicídio da escritora, em 2007.

No palco da Flip, leu um poema que o marcou por “conjugar lírica com um humor muito autodepreciativo”.

“É um poema para mim de tamanha potência. Essa mistura de registro, palavras rebuscadas, alguma gíria. Uma poesia claramente de amor, mas ao mesmo de uma potência muito feminina, uma vingança contra esses machos filhos da P. Eu estava fazendo por uma separação amorosa com um rapaz e pensei: ‘É isso, é isso aqui que tenho que dizer praquela criatura’.” A plateia riu.

Ele também foi aplaudido ao dizer que “o fato de o brasileiro se apresentar como tão tolerante torna difícil a conversa sobre preconceitos”. “Se o país nem acredita que os preconceitos existem, como é que você vai mudar esses preconceitos?”

Em seguida, voltando ao tema, completou:

“Se você não mostra essa literatura que não está sendo produzida por homens brancos e heterossexuais, você está simplesmente desperdiçando textos. Não por serem negros, não por serem mulheres, não por serem homosexuais. (…) Mas a melhor literatura do país está sendo produzida por esses grupos.”

Para o convidado da Flip 2018, esses grupos “não estão sendo lidos por questões que não são sequer literárias”. Por outro lado, acredita que isso está mudando.

Luiz Gama

Já Lígia Ferreira lembrou o pioneirismo de Luiz Gama: “Um ex-escravo, um desses intelectuais negros, o único que passou pela escravidão. Ele vai se marcar como homem de letras, como abolicionista. Esta Flip coincide com os 130 anos da abolição. Ele foi nomeado neste ano herói da pátria e patrono da abolição”.

Professora de Língua e Literaturas Francesa e Francófonas da Unifesp, publicou “Primeiras Trovas Burlescas e outros poemas de Luiz Gama (Martins Fontes, 2000) e “Com a palavra Luiz Gama: Poemas, artigos, cartas, máximas” (Imprensa Oficial, 2011).

Morou 13 anos na França, e foi lá que começou a pesquisa a obra do poeta, tema de seu doutorado na Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris 3. Tornou-se, então, divulgadora do escritor.

A pesquisadora afirmou gostar muito de ser chamada de “garimpeira da literatura”.

Ao comentar o olhar da crítica sobre Luiz Gama, que foi vendido como escravo na infância pelo pai, ou mais precisamente o “silenciamento”, falou em “cegueiras voluntárias”. Para ela, ignorar um autor como ele tem a ver com “o tipo de nação que a gente quer ter, com que cara a gente quer ter”.

No fim da mesa, Domeneck ainda ganhou novos aplausos ao mandar um recado: “O jornalismo cultural tem obrigação de ser investigativo, tem obrigação de descobrir o que está acontecendo de melhor, mesmo se estiver acontecendo num lugar minúsculo. Parem de falar que a poesia está em crise porque não vende. A gente vai falar que uma arte está em crise no Brasil se ela não está mais sendo praticada e se ela não está sendo praticada com qualidade. O fato de ela não vender não é problema nossom que estamos praticando”.

E lembrou Hilda Hilst, homenageada da Flip 2018: “Hilda pode se tornar um antídoto contra esse conservadorismo cafona. Espero que ela assuste muita gente com os poemas dela”.

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