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Cara gente branca, eu te amo? Mulheres negras, militância e palmitagem

O filme Cara Gente Branca (2015) – que tem como contexto o único dormitório negro de uma universidade americana de elite – é sobre os diferentes percursos pelos quais trilham os negros na busca de uma identidade racial ideal, que, por vezes se torna uma prisão. Afinal, o que é ser umx negrx consciente? De acordo com o filme, coerência é a exigência principal, e subverter o sistema que hipervaloriza a branquitude é a regra. O grande problema é que, se não tomarmos cuidado, acabamos reproduzindo uma lógica de julgar os nossos ao invés de nos acolher, entendendo como mais ou menos negro aquele que corrobora ou não com o que achamos que é certo – maniqueísmo herdado do pensamento cristão e Ocidental.

Por  Naomi Cary, enviado para o Portal Geledés 

“Dear White People.” /Roadside Attractions

A heroína de Cara Gente Branca é uma estudante de cinema que logo no começo do filme se vê conquistando um lugar de poder não imaginado, a presidência da casa Rose Parker, que abriga os estudantes negros de Winchester. Como na vida real, não demora muito para que a militância a sufoque e a necessidade de ser coerente com uma negritude inventada a faça sentir desconectada de si mesma. Sozinha no pedestal da liderança, depois de sua ascensão durante o primeiro ato, vemos Sam sentir o peso de estar na linha de frente como a “garota negra raivosa” que vai lutar por todos nós. Afinal, para nós, mulheres negras, a militância compensa?

A mulher de aço dos primeiros minutos vai se transformando numa humana e um dos elementos acessados para mostrar a vulnerabilidade de Sam é a trama amorosa que perpassa e divide a protagonista. Ao ver a heroína sendo sugada pela vida pública de representante ou líder dos negros no campus, seu par romântico – um estudante branco padrão – tenta resgatá-la desse lugar que os seus a colocaram. O personagem tenta mostrar como ele a ama e conhece sua essência, e como ela não é tão negra quanto finge ser. É como se o amor deles a separasse dos outros negros e construísse um mundo paralelo, em que eles são iguais. Apesar de estar cercada de pessoas negras, quem a conhece e compreende, é o branco. Fanon, em “Pele Negra, Mascaras brancas”, muito versou sobre o auto ódio e a necessidade de tornar-se brancx que impulsionava mulheres negras em relacionamentos interraciais, mas, se somos conscientes dessa teoria, por que isso acontece? Parece que para nós, mulheres negras militantes/feministas/conscientes, uma pessoa branca que demonstra abertamente seu racismo é a regra e qualquer palavra ou ato mínimo de “empatia racial” é o bastante para nos surpreender positivamente e derrubar essa certeza milenar de que pessoas brancas são, inevitavelmente racistas.

O privilégio do acesso ao discurso, aos olhos de uma pessoa negra que quer enxergar o bem numa pessoa branca, é visto como o sacrifício de recusar esse privilégio pra nos compreender em nossa dor e complexidade e, mesmo sabendo que somos um tipo de “troféu da desconstrução”, nos arriscamos em construir um tipo de amor proibido, que luta contra uma sociedade limitada. Parece que nós acreditamos que fomos afortunadas de encontrar a única pessoa branca que não é racista, que foi ou é potencialmente capaz de se desfazer das concepções sobre nós que recebeu durante toda a vida.

 

O grande desfecho do filme, depois de resolver os conflitos políticos, é a conclusão da trama romântica. A última catarse da personagem – que vive um dilema por ser fruto de um relacionamento inter-racial e ver a necessidade de escolher um lado – é aceitar seu amor pelo homem branco e revelar a ele sua vulnerabilidade. Depois da declaração romântica, a personagem insinua que vai deixar o dormitório e o “drama” político que estava inserida, ou seja, no final do filme, Sam escolhe um lado, cura-se da negritude e torna-se branca. Uma das estratégias usadas consciente ou inconscientemente por pessoas brancas que vivem relacionamentos interraciais, é criar distanciamentos entre x parceirx e o restante das outras pessoas negras, como se, para viver esse universo surreal em que o racismo não xs separa, fosse necessário expurgar sua identidade negra, ou suavizá-la ao ponto que seja possível conviver com a assimetria inevitável de tais relações.

 

 

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