Carta de uma travesti à igreja evangélica brasileira

Jesus sempre fez questão de andar às margens e de repudiar o abuso da fé e do poder

Querida igreja,

Sei que meu nascimento foi celebrado no meio de vocês. “É um menino!”, meus pais diziam, aqui e ali, para todos os irmãos. Sei também que fui envolvida pelos abraços, pelas músicas, pelas danças, pela cantina depois do culto e me apaixonei. Eu vivia entre seus aposentos e cresci junto com o mato no terreno baldio do lado do templo.

Inevitavelmente, cresci. Igreja, eu escrevo porque sei que frustrei todas as expectativas que você tinha sobre mim. Não respeitei as palavras do médico que me viu nascer e ousei transformar o meu corpo: e surgi. O Deus que transformou Jacó em Israel profetizou sobre mim e agora sou Allie. Escrevo porque queria ter permanecido entre seus sons, mas meus deslocamentos não foram bem recebidos por ti. Se eu aparecer de novo, e me apresentar com um nome diferente daquele que você conhecia, vou poder cear contigo?

Sim, eu sei. Sou Allie agora, mas sou muitas outras! E insistimos em dizer que continuamos amando Deus. Escrevo porque sei que muitos em seu meio não me querem bem, inclusive pensam que pessoas como eu nem deveriam existir, que são um “desvio” de uma “ordem natural” que nunca foi reivindicada por Cristo. Pelo contrário, Jesus sempre fez questão de andar às margens e de repudiar o abuso da fé e do poder. Escrevo porque foi você, Igreja, que apedrejou a casa em que o filho de Janaína, de 12 anos, morava e crescia, no interior da Bahia. Foi sob os gritos de “quero ver se é homem mesmo!” e “bicha!” que as pedras atingiram a janela do garoto quatro vezes.

Igreja, eu escrevo porque o coração de Quelly da Silva foi arrancado e colocaram uma imagem de santa no lugar. “Era um demônio”, disse o assassino e companheiro da vítima. Te escrevo porque não sei se tenho muito tempo. Vivo no país que mais mata travestis em todo o mundo e a minha expectativa de vida é de 35 anos. Quanto tempo ainda falta? Quantas de nós ainda vão resistir? Igreja evangélica, eu te escrevo porque Keron, travesti de 13 anos, foi espancada até a morte. Te grito porque nossas crianças estão morrendo! E você tem sangue de travesti nas mãos.

Quero derrubar as mesas que você colocou para mercantilizar a fé, em vez de permitir que todas e todos se achegassem ao banquete da Graça. Se eu te contasse sobre meus hormônios e sobre meus afetos, você me ouviria? Querida igreja, você conhece a irmã Sylvia? Latino-americana, travesti e ativista pelos direitos humanos, Sylvia Rivera era diaconisa da Igreja da Comunidade Metropolitana nos Estados Unidos, e fez parte dos levantes após Stonewall, em 1969. Lembra dela? Foi ela quem teria lançado um molotov em direção à polícia de Nova York para impedir a repressão contra a juventude queer.

Na igreja em que a irmã Sylvia congregou no final de sua vida, existe o “Sylvia’s Place”, um abrigo para pessoas LGBTI+ em situação de vulnerabilidade que oferece alimentação, distribuição de roupas, além do acolhimento comunitário. Escrevo-te, igreja evangélica brasileira, porque uma vez pensei que fosse casa e não prisão. Se eu fosse te visitar novamente, iria me olhar de cima a baixo mais uma vez?

Igreja, eu te escrevo porque também faço parte de ti! Eu te construo com aquelas e aqueles que insistem em anunciar abundância de vida para todas as pessoas. E continuo escrevendo, igreja, porque em algum momento Jesus escorreu pelos seus dedos e vocês inventaram um outro Deus, desequilibrado e sádico, que odeia a diversidade da própria criação. Te escrevo porque desconheço esse Deus.

E só escrevo porque cansei de gritar.


“Povoada,
Quem falou que eu ando só?
Tenho em mim mais de muitas!
Sou uma, mas não sou só”
(Povoada, Sued Nunes)

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