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Empreendedor? O preto Francisco Madeira “desenrola, bate e joga de ladinho”

Empreendedorismo é um termo ambíguo na atualidade. Explorado por uma mídia alinhada ao capitalismo da era da automação (que diminui postos de trabalho mesmo com aumento progressivo da população mundial), o empreendedorismo está associado ao mito do self made man. Um mito importante para sociedades capitalistas que estabelecem um enganoso patamar de igualdade entre pessoas de diferentes cores, etnias, origens, sexos, gêneros, idades e classes sociais. Aos “vencedores” (homens brancos, majoritariamente), enfim, bastaria a perseverança, a fé num Deus, a garra, uma boa ideia e algum capital para transformá-los em pessoas ricas e bem-sucedidas. Um provedor da família creme dental.

Essa ideia é enganosa e nem mesmo transformará em empreendedoras todas as pessoas da Geração Z, que, segundo o escorregadio Fórum Econômico Mundial, são aquelas nascidas entre o final dos anos 1990 e 2010, alfabetizadas digitalmente desde bebezinhas. A geração que “valoriza menos o salário do que qualquer outra geração e vê o trabalho remoto como uma prioridade”. O futuro dos mundos do trabalho para a maior parte dos bilhões de pessoas do planeta ainda é uma incógnita, mas já é certa a diminuição de políticas públicas e privadas que priorizam demandas da enorme população na atualidade.

O que temos visto é o aumento da exploração dos/as empregados/as com a RPA (robotic process automation ou automação robótica de processos), a redução dos direitos trabalhistas e as reformas na previdência social em diversos países do mundo, inclusive no Brasil. Jovens negros e negras das periferias são as que mais sofrem neste início do século XXI: celular, bicicleta alugada e uma caixa de isopor às costas para entrega de alimentos, como sabemos, não é empreendedorismo. É trabalho precarizado!

Essas atividades mal remuneradas e sem garantias marcam boa parte das trajetórias e experiências sociais de negros e negras na História do Brasil. Escravos ao ganho, carregadores, engraxates, domésticas, diaristas, lavadores de carros, ambulantes, etc, entre tantos outros ofícios precarizados foram e são majoritariamente exercidos por pessoas negras. Brancos também exerceram parte desses ofícios, mas sem o peso limitador para a ascensão social trazido pelo racismo.

Daí vêm as perguntas: será que o capitalismo foi e é capaz de incluir pessoas negras entre empresárias/os bem-sucedidas/os? Por exemplo, os capitalismos do pós-abolição (após séculos de trabalho de pessoas escravizadas) e o da lucrativa automação de hoje foram e são capazes de trazer algo mais que a enorme exploração e a pobreza da massa de trabalhadores/as negros/as? Novamente serão as pessoas negras e indígenas as mais sacrificadas e exterminadas pelos efeitos do avanço da automação?

Essa questão leva-nos a investigar o passado acerca da existência de pessoas negras empreendedoras no imediato pós-abolição que, mesmo sendo poucas, de alguma forma ultrapassaram as limitações do racismo e foram “bem-sucedidas”. Por não termos a cor como categoria de verificação nos censos populacionais entre o golpe militar que implementou a República e o Censo de 1940, muitas dessas pessoas negras “bem-sucedidas” passaram “em branco”.Durante muito tempo, minhas pesquisas abordaram sobre indivíduos negros pobres que enfrentaram a escravidão e o pós-abolição. Mas vi a importância de pesquisar sobre pessoas empreendedoras negras no passado, especialmente após entrevistar D. Almerinda Madeira, filha de Francisco Caetano Madeira, quando fazia estudos acerca das histórias de idosos negros de Nova Iguaçu. Aquela entrevista era o início da minha busca.

D. Almerinda e o retrato do seu pai, Francisco Caetano Madeira. Nova Iguaçu-RJ, 2010. Fonte: fotografia do acervo pessoal do autor.

Como narrado por D. Almerinda, seu pai era um homem de negócios. Encontrei mais detalhes sobre esse empreendedor negro nos processos de concordata e falência aos quais ele respondeu. Os documentos revelaram-me que após um período de crescente enriquecimento, os negócios de Francisco Caetano Madeira foram impactados pelos efeitos desastrosos da Segunda Grande Guerra sobre a economia mundial. Faliu em 1942, junto com tantos outros produtores e comerciantes locais.No início de sua vida, ele foi soldado do Exército e envolveu-se no movimento tenentista de 1922. Não sabemos por quanto tempo ficou preso e qual seu engajamento junto aos militares revoltados com a eleição de Arthur Bernardes e a República das oligarquias. Mas nos ficou claro que a região de Cabuçu (parte da atual Baixada Fluminense, zona metropolitana da cidade do Rio de Janeiro), na qual ele foi preso, era a mesma do seu nascimento e dos seus primeiros passos como empreendedor. Próxima aos atuais municípios de Seropédica, Queimados e Rio de Janeiro e à Serra de Madureira, foi nessa região, cortada pela Estrada de Ferro Central do Brasil, que Francisco Madeira fez seu capital.

1º Distrito de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, 1940. Fonte: Biblioteca Nacional, Brasiliana Fotográfica (Museu Aeroespacial).

Iniciou seus empreendimentos comercializando carvão, e o distribuía com seu caminhão na cidade do Rio de Janeiro. Logo em seguida, incluiu as frutas produzidas em Cabuçu (goiaba, fruta de conde, laranja, etc.) no seu negócio. Com a valorização da citricultura no comércio internacional, Madeira passou a arrendar pequenos lotes e sítios e neles plantava laranjas, comercializando-as nas suas frequentes jornadas à então Capital Federal da República.

Um importante passo para a consolidação do seu enriquecimento foi adquirir as lojas 50 e 52 da rua IX, no imponente Mercado Municipal do Rio de Janeiro, demolido décadas depois. A construção, toda em ferro importado da Inglaterra, foi projetada pelo engenheiro Alfredo Azevedo Marques e ocupava uma área de 12.500m2, ao lado da Estação das Barcas para Niterói. Em seu interior, o consumidor tinha acesso a setecentas lojas, de 24m2 cada, distribuídas em 24 pavilhões, onde poderiam ser encontrados frutas, flores, pescados, legumes, entre outros produtos nacionais e importados.

Para sua empresa de comércio, associou-se ao português João Carlos Cabral, que era seu vizinho em Nova Iguaçu. A empresa era a “Carlos & Madeira: Exportadores e Importadores de frutas, por conta própria, em grande escala”. As vendas eram só por “atacado” e seus primeiros registros são de 1933. De soldado do Exército preso em 1922 a exportador de frutas em 1933, com duas lojas montadas no Mercado Municipal do Rio de Janeiro, decorreram onze anos. E ele foi além.

Em 9 de dezembro de 1939 foi publicada, no Diário Oficial, a inscrição da “firma Francisco Caetano Madeira”, no Registro Federal de Exportadores de Frutas. Na mesma oportunidade e página do Diário Oficial, também ficamos sabendo que ele remetera um “exemplar de rótulo da marca ‘F.C.M.’, de propriedade da mencionada firma e com o qual a mesma estava autorizada a distinguir a sua exportação de Laranjas”. Em março de 1940, ele foi a Buenos Aires comercializar seus frutos e alcançou seu intento.

Madeira deu um passo incrível, e individual, ao criar sua própria empresa e negociar diretamente numa cidade de poucos negros, após a grande imigração italiana para a Argentina. E o empreendimento deve ter sido alto, pois o Decreto n. 23.835, de 6 de fevereiro de 1934, obrigava a todos os exportadores a cumprirem metas e regras próprias para embalo, transporte e aparência das frutas para a exportação. Francisco Madeira teve de corresponder àquelas exigências para dar entrada em toda documentação e exportar suas laranjas. Uma intensa transformação, que lhe permitiu, inclusive, alcançar financiamento para sua lavoura pelo Banco do Brasil. A pergunta que fica é simples: como ele conseguiu o primeiro capital?

As investigações apontaram dois caminhos. Em primeiro lugar: Madeira tinha negócios ligados à venda de carvão, como revela seu processo de concordata. Para essa produção era preciso extrair a madeira, transformá-la em lenha e comercializá-la; atividades muito comuns entre escravos quilombolas da região no século XIX. Mesmo vendendo laranjas para o mercado internacional, ele não deixou de trabalhar na produção e no comércio de carvão, gênero mais que necessário nas casas, indústrias, ferrovias, etc. Uma outra possibilidade de acumular capital pode ter sido a exploração do trabalho de familiares, parentes e pessoas amigas mais próximas a partir de acordos de meação: ele entrava com a terra e os/as trabalhadores/as, com os serviços de cultivo, tratamento das plantas e colheita.

Francisco Caetano Madeira, no processo de falência, arrolou como bens alguns sítios que havia arrendado ou que ainda estava pagando. Porém, em parte dessas terras morava e trabalhava sua própria irmã e mais irmãos de seu falecido cunhado. Ao saberem que as terras seriam liquidadas para o pagamento de dívidas do falido, os parentes da sua irmã e ela própria entraram na justiça alegando que as benfeitorias na terra de Madeira eram dela e deles (os pés dos frutos não pertenciam ao falido). Havia ali antigas e novas formas de exploração da mão de obra no campo, que se encontraram e podem ter contribuído para o acúmulo de capital e enriquecimento de empreendedores, mesmo de negros nascidos pobres como Francisco Madeira.

Tudo aponta que o capital inicial se transformou em um patrimônio de 520:721$117 (Quinhentos contos, setecentos e vinte um mil e cento e dezessete réis), à época da sua falência. Ele comprou caminhões, arrendou e adquiriu terras para plantio, adquiriu uma nova casa para a família Madeira no urbanizado e diferenciado 1º Distrito Sede de Nova Iguaçu, além de fundar uma empresa de exportação de frutas. Aqueles primeiros milhares de réis garantiram-lhe empréstimos bancários e de fundos estaduais para a melhoria da agricultura no município. Beneficiou-se igualmente do aquecimento da demanda por frutas no mercado internacional e pela exploração da mão de obra de familiares e homens pobres que trabalhavam para ele. Francisco Caetano Madeira era um capitalista.

Ele foi muito bem em seu negócio até 1940. Em 3 de fevereiro de 1941, foi obrigado a entrar com um processo de concordata no Juízo de Direito da Vara Cível de Nova Iguaçu. O homem originariamente de poucas posses, empreendedor negro, que deve ter sido descendente direto de libertos ou filhos de libertos, foi à falência com os efeitos imediatos da Segunda Guerra Mundial. O mercado internacional amargava imensos prejuízos e a gasolina tornou-se caríssima, afetando assim o transporte dos frutos. Com esses impactos, Madeira viu-se forçado a pedir a concordata. Mesmo prometendo pagar a todos/as a quem devia, que eram muitos/as, ele deixou de quitar uma das parcelas e seu processo transformou-se num outro, de “Falência”, solicitado por um credor. A família de Madeira sofreu imensamente as consequências, embora parte de seus descendentes tenha alcançado bons empregos e formação educacional.

Como vemos, pessoas negras também foram capitalistas e empreendedoras, gerando empregos, acumulando e investindo capitais. Dessa forma, também fizeram parte da História, por mais que a historiografia os tenha igualado a capitalistas brancos ao não investigar e entender suas cores como elementos de análise. Essa trajetória de Francisco Caetano Madeira nos ajuda também a termos maior cuidado com certas visões generalizantes de um tempo histórico e/ou dos próprios sujeitos sociais. Os egressos do cativeiro, em 1888, eram mais plurais que um grupo de pessoas largadas à própria sorte. Havia intelectuais, artistas, médicos, políticos/as, produtores/as rurais, comerciantes negros/as, entre outras atividades que a historiografia do pós-abolição vem apresentando em trabalhos magistrais.

Madeira revela-nos ainda a perseverança dos legados dos mais velhos em trajetórias dos mais novos. Sabemos que esses legados também são realidades entre pessoas brancas, asiáticas e outras. O diferencial, que marca o racismo, está nas pesadas e duras atividades de produção exercidas e a diminuta possibilidade de ascensão social das pessoas negras. Os antepassados de Madeira sobreviveram da produção de carvão vegetal. E foi essa atividade que ele manteve ativa até o fim, independentemente do sucesso com a produção e o comércio de laranjas. “Não se troca o certo pelo duvidoso”, possivelmente refletia ele em seus negócios. Aquela história vinha de longe.

Quase todos os pretos contemporâneos de Madeira, mesmo iniciando no carvão, muito possivelmente não tiveram o mesmo destino. Certamente ocuparam os postos de trabalho reservados à população negra no pós-abolição e que, com alguns poucos avanços, se mantêm em parte até os dias atuais: serviços domésticos, serviços gerais, construção civil, serviços de entregas, comércio ambulante, carregadores, ou seja, quem literalmente trabalha pesado, sem benefícios, e com menor acesso a direitos e a melhores salários

O que essas pessoas negras do passado deixaram de legado aos seus filhos e filhas? Por necessidade de garantir a sobrevivência sob o racismo, pais pedreiros levaram os meninos para os auxiliarem nas obras, mães levaram suas filhas para ingressarem nos serviços domésticos, entre outros exemplos. O recente empretecimento das escolas de Ensino Médio e das universidades, com as cotas raciais e sociais, gerou uma mudança importante: não são a maioria entre os negros, mas possuem consciência racial e padrões de consumo suficientes para exigirem mudanças presentes na mídia. 

Telefones celulares e computadores têm sido uma forma de as/os mais jovens experimentarem uma nova história distante da dos seus pais. Em épocas de influencers, youtubers, tiktokers, startups, viciantes sites de apostas online, que abrem oportunidades para jovens negros/as apresentarem seus looks, danças, cantos, composições, brincadeiras, ou arriscarem suas parcas economias, as remunerações vão chegando e mantendo vivos pequenos empreendimentos nas periferias ou produzindo artistas para os mais diferentes palcos e plataformas de tocadores de músicas e streamings. Esse será um ponto de pauta fundamental para historiadoras/es negras/os em futuro breve.

Talvez, ao compreendermos essas realidades e observarmos suas poderosas dinâmicas, possamos encontrar instrumentos capazes de intervir mais no Estado e nas empresas capitalistas. Precisamos continuar cobrando e propondo políticas públicas e privadas mais adequadas e eficientes contra os efeitos destrutivos do racismo e da automação,  a partir dos legados dos mais velhos e das oportunidades contemporâneas. É urgente garantir direitos humanos e sociais para o povo preto, indígena e periférico contra essa realidade brutal e desumana. 

Contra o racismo, o fascismo, o machismo, a homofobia, a transfobia, o racismo religioso e o preconceito à música das quebradas, tão fortes na atualidade, nos fortalecemos no legado dos nossos mais velhos, como Madeira nos ensinou. Para nos entendermos na atualidade, ouçamos as vozes da nossa amefricanidade. Os funks e hip hops, originais ou sampleados dos mais novos, são um bom começo para isso. E, aí, “desenrola, bate e joga de ladinho”?

Assista ao vídeo do historiador Álvaro Pereira do Nascimento no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); EF09HI04 (9º ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil); EF09HI10 (9º ano: Identificar e relacionar as dinâmicas do capitalismo e suas crises, os grandes conflitos mundiais e os conflitos vivenciados na Europa).

Ensino Médio: EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos); EM13CHS401 (Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos).


Álvaro Pereira do Nascimento

Doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor da graduação em História e dos Programas de Pós-Graduação em História e das Humanidades Digitais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), integrante da Rede de HistoriadorXs NegrXs e do Grupo de Pesquisa Mundos do Trabalho e o Pós-Abolição. É bolsista de Produtividade do CNPq. E-mail: alvaropn@uol.com.br. Instagram: @alvaro_p_nascimento

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