sábado, maio 28, 2022
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“Escravos da Religião”: Como era ser escravizado pela Igreja Católica no século XIX?

Em 23 de julho de 1863, a comunidade de cativos da Fazenda São Bento de Iguassú, no Recôncavo do Rio de Janeiro, estava de luto. O motivo: Fortunata, uma das escravizadas mais idosas da propriedade, veio a falecer aos 70 anos. Idade bastante avançada para sua condição. 

Seu corpo, provavelmente, foi velado por amigos que formou no infortúnio do cativeiro, por seus compadres, comadres, filhas e netos, estes últimos também escravizados na mesma fazenda. Sua morte foi igualmente sentida a quilômetros dali, na cidade do Rio de Janeiro, onde ela ia com frequência para participar das atividades da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, no Mosteiro de São Bento, da qual era irmã desde 1847. Seus confrades registraram seu falecimento no livro de entrada dos irmãos. Ou seja, em vida, Fortunata estabeleceu relações sociais complexas que iam desde a fazenda onde fora escravizada, nos fundos da Baía de Guanabara, até a Corte imperial. 

Naquele triste inverno de 1863, Fortunata ganhava sepultura com os sacramentos cristãos garantidos pelo Frei Antônio de Santa Águeda, monge da Ordem de São Bento e um de seus senhores. Eis aí um aspecto definidor de sua experiência no cativeiro: ela era propriedade de uma ordem religiosa católica. Dito de outro modo, Fortunata era uma “escrava da Religião”, pois assim eram denominadas as pessoas escravizadas pela Igreja Católica durante o século XIX. Os discursos católicos em defesa da escravidão africana são bastante conhecidos. No entanto, há um terreno fecundo de análises sobre os modos como esta instituição — fundamental e multisecular — lidou com os seus próprios cativos. Mais que isso, há um longo caminho que nos leva a entender como esses escravizados agenciaram as suas vidas num cenário que combinava religião cristã, violência e escravidão. 

A Ordem de São Bento foi a primeira ordem regular do Mundo Católico, sendo fundada por Bento de Núrsia, no século V, na atual Itália. Seu estilo de vida, guiado por uma Regra, cujo lema era “Ora et Labora” (Orar e trabalhar), serviu de modelo para muitas ordens católicas posteriores. No século XVI, os beneditinos aportaram no Brasil na esteira da ocupação portuguesa, e rapidamente se assentaram em inúmeras regiões do país. No Rio de Janeiro, os monges possuíam uma opulenta abadia na cidade e diversas fazendas em lugares como a Ilha do Governador, Camorim, Vargem Grande, Vargem Pequena, Maricá, Cabo Frio, Campos dos Goytacazes e Iguassú. Esta última foi onde Fortunata (sobre)viveu em cativeiro, e que atualmente corresponderia a parte do município de Duque de Caxias e Belford Roxo, na Baixada Fluminense. 


Mapa da Fazenda São Bento de Iguassú, no século XVIII
Fonte: Arquivo do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro

Toda a vida monástica construída do lado de cá do Atlântico dependia, em larga medida, dos lucros auferidos com a exploração do trabalho escravo de africanos e seus descendentes nessas propriedades rurais. Nelas, que muitas vezes eram um verdadeiro complexo produtivo, os escravizados desempenhavam as mais variadas funções, desde a produção de gêneros de subsistência (como feijão, arroz e mandioca), gêneros agrícolas de grande valor de mercado (como a cana de açúcar), pecuária, até as atividades mais especializadas como a ferraria, a carpintaria e a olaria. A Fazenda de Iguassú, adquirida por doação ainda no século XVI, era especializada na produção de cerâmicas, principalmente, telhas e tijolos. Foi em uma dessas olarias que Fortunata trabalhou. Quem sabe nossa personagem tenha aprendido as técnicas ceramistas com seus pais africanos, uma vez que era descrita como “crioula” (nascida no Brasil). Na África Centro-Ocidental, por exemplo, de onde muitos dos africanos que chegaram ao Rio de Janeiro provinham, a atividade ceramista era uma tecnologia feminina.

“Escravos transportando telhas”, Jean Baptiste Debret, 1823.
Fonte: DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2016.

Na época de seu falecimento, a comunidade escrava de Iguassú contava com mais de 120 cativos, um número significativamente alto para o Recôncavo da Guanabara, onde predominavam as pequenas e médias escravarias, se comporado com a imponente Fazenda de Campos do Goytacazes e seus mais de 600 escravizados. Se somarmos essas pessoas a outras igualmente escravizadas pela Ordem de São Bento no restante do país, chegaremos a não menos que 4.000 escravizados. Isso significa dizer que os beneditinos eram os maiores senhores escravistas da Igreja Católica, no século XIX.

A primeira vez que me deparei com Fortunata nos arquivos do Mosteiro de São Bento foi no registro de batismo de sua filha legítima, Felisminda, datado de 1817. Na época desta cerimônia, Fortunata tinha por volta de 24 anos e era casada com o também escravo da Ordem, Francisco. Como compadres, o casal escolheu Aleixo e Luiza, também cativos na mesma fazenda. O compadrio na sociedade escravista brasileira era muito importante, pois para além do significado religioso, que com certeza os monges frisavam no púlpito, este rito tinha um valor social significativo, uma vez que selava a amizade e aliança entre compadres, e designava essas pessoas como substitutas dos pais, em caso de ausência e morte.

Levando-se em consideração que o mundo da escravidão era extremamente instável e violento, os cativos escolhiam com muito cuidado seus compadres. Assim, analisando um conjunto de 131 registros da primeira metade do século XIX, notei que Fortunata não estava sozinha na escolha de compadres escravizados, mais da metade dos casais e mulheres escravizadas com filhos da Fazenda escolhiam outros cativos como compadres. Isso demonstra que a comunidade escrava na qual viviam estava atada por inúmeros graus de parentesco e solidariedade.

Acredito que entre os anos de 1817 e 1830, seu marido, Francisco, veio a falecer, já que neste último ano, Fortunata batizou uma filha natural — isto é, concebida fora de uma relação sacramentada pela Igreja — de nome Ida. Naquele momento, Fortunata parecia viver em uma relação consensual e estável, uma vez que, dois anos depois, ela batizou mais uma filha natural, chamada Virgínia, que, infelizmente, faleceu poucos meses depois. 

Relações consensuais entre escravizados era algo bastante comum nas fazendas da Ordem de São Bento. Ao contrário do que muitos historiadores acreditavam, os monges não pareciam estar preocupados com a legitimação das relações familiares de seus cativos. O que não pode nos levar a crer que fossem relações promíscuas ou desregradas. Em alguns casos, as mães tinham os primeiros filhos naturais, e poucos anos depois legitimavam o relacionamento perante a Igreja. 

Quando Fortunata tinha aproximadamente 53 anos, ou seja, na maturidade, ingressou na Confraria de Nossa Senhora do Rosário, situada no morro de São Bento, na Corte. Nossa Senhora do Rosário possuía um profundo apelo entre as populações negras no Brasil e no Mundo Atlântico, e em sua homenagem foram erguidas inúmeras irmandades. Além da devoção e da festa da padroeira, essas instituições serviam como sociedades de ajuda mútua. 

Ao ingressar nessa confraria, Fortunata entrava em uma nova rede de solidariedades, que ao longo do século XIX, agregou mais de 600 pessoas, entre livres, libertos e escravizados. Muitos dos seus irmãos residiam em fazendas da Ordem de São Bento fluminense e no mosteiro carioca. Em 1849 foi a vez de sua primeira filha, Felisminda, também ingressar na irmandade. Quem sabe mãe e filha cruzassem a Baia de Guanabara juntas e com frequência para os festejos da santa? Naquele mesmo ano, Felisminda casou-se com Francisco, também escravo dos monges. Seus dois filhos naturais eram, provavelmente, frutos dessa relação.

Fortunata, portanto, viveu tempo suficiente para conhecer seus netos e, quem sabe, auxiliar na sua criação, pois sua filha trabalhava exaustivamente também na produção de cerâmicas. Infelizmente, não viveu tempo suficiente para ver seus descendentes conquistarem a liberdade. Em 1869, Ida, sua filha natural, que naquele momento contava com 38 anos, conquistou a alforria. Ela ainda vivia em Iguassú, na companhia de sua irmã e sobrinhos. Em 1868 e 1869, foi a vez, respectivamente, de Maximiano (26 anos) e Generosa (32 anos), filhos de Felisminda e Francisco, e netos de Fortunata. Ainda são incertos os caminhos que levaram os descendentes de Fortunata, depois de no mínimo três gerações, a conquistar a liberdade. No entanto, não descarto, como mostram outros estudos, que a família tenha um papel fundamental nesse processo. A liberdade era um projeto geracional e familiar. Somado a isso, o fato de que na década de 1860, a Ordem de São Bento, e outras ordens regulares, viviam um duro embate com as autoridades imperiais, e os monges adotaram uma política cada vez mais emancipacionistas, tendo culminado em 1871, com a emancipação de todos os seus cativos no Brasil.

Como podemos observar, viver como cativo em mosteiros e fazendas beneditinas significava ter seu cotidiano regulado constantemente pela disciplina, moral e religiosidade católica. Isso porque na visão senhorial dos monges, os escravizados cumpriam uma dupla função: rebanho e propriedade. Nessa visão, portanto, Escravidão e Religião eram lados de uma mesma moeda. Contudo, foi justamente na capela, na pia batismal, no altar, e no consistório, que os “escravos da Religião” teceram laços parentais e comunitários duradouros e fundamentais para sua sobrevivência no cativeiro. Escravizadas como Fortunata utilizaram a seu favor os mesmos mecanismos que visavam transformá-la em parte de um mero rebanho de cativos cristianizados. 

Por meio do esteio da família e da comunidade escrava, esses indivíduos conseguiram (sobre)viver e construir seus próprios projetos de vida, manuseando como podiam a força pujante dos dogmas católicos, as incertezas do cativeiro e a violência da escravidão. Por isso, não por acaso, ao final da vida, Fortunata, apesar de continuar cativa, foi sepultada na companhia dos seus, e até seus irmãos do outro lado da Baía de Guanabara se solidarizaram com a sua morte.  

 

Assista ao vídeo do historiador Vitor Hugo Monteiro Franco no Acervo Cultne sobre este artigo:

 

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao conteúdo previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

Ensino Fundamental: EF08HI19 (8º ano: Formular questionamentos sobre o legado da escravidão nas Américas, com base na seleção e consulta de fontes de diferentes naturezas); EF08HI20 (8º ano: Identificar e relacionar aspectos das estruturas sociais da atualidade com os legados da escravidão no Brasil e discutir a importância de ações afirmativas); EF08HI14 (8º ano: Discutir a noção da tutela dos grupos indígenas e a participação dos negros na sociedade brasileira do final do período colonial, identificando permanências na forma de preconceitos, estereótipos e violências sobre as populações indígenas e negras no Brasil e nas Américas.

Ensino Médio: EM13CHS501 (Compreender e analisar os fundamentos da ética em diferentes culturas, identificando processos que contribuem para a formação de sujeitos éticos que valorizem a liberdade, a autonomia e o poder de decisão (vontade)); EM13CHS502 (Analisar situações da vida cotidiana (estilos de vida, valores, condutas etc.), desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade e preconceito, e propor ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às escolhas individuais); EM13CHS601 (Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país).

 

Vitor Hugo Monteiro Franco
Professor da rede privada do Estado do Rio de Janeiro. Doutorando em História – UFF.
Idealizador do Podcast Atlântico Negro
E-mail: vt.monteirofr@gmail.com
** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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