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Hiperssexualização e autoestima do homem negro

O livro “Pele negra, Máscaras brancas” do Frantz Fanon foi um divisor de águas na minha vida. É incrível como, mesmo sendo escrito em outro país e em outra época, reflete bastante a forma como as pessoas negras lidam em relação as questões raciais na sociedade. O capítulo 2, intitulado “O homem de cor e a mulher branca”, trouxe nos dois primeiros parágrafos palavras que caíram sobre mim como uma bomba (trecho aqui nesse texto). Foi o trecho que me fez entender o motivo dos homens negros preferirem, de forma geral, mulheres brancas, mas também me trouxe inúmeros questionamentos posteriores.

Do Fala Pretinho 

Eu lembro que há uns anos, eu considerava a minha vida amorosa parte da minha militância. O fato deu me relacionar e namorar com mulheres brancas fazia com que eu me sentisse igual aos homens brancos, como se eu fosse igualmente capaz, igualmente homem. Não importava o motivo pelo qual a menina se interessou por mim, eu aceitava e fazia disso uma “vitória contra o racismo”.

É uma questão a se refletir porque pra nós, homens negros, por anos, tivemos como nossa única vantagem em relação aos brancos, a questão sexual. Homens são muito competitivos uns com os outros na questão amorosa/sexual e, basicamente, todos os homens negros que eu conheço na vida – inclusive eu – já se gabaram alguma vez por ter um pênis grande e por serem “mais homem” na cama.

A gente aceitou essa hiperssexualização como um acalento. Era isso ou nada. Não éramos príncipes, modelos de revista ou colírios da capricho. Não éramos os homens com quem as meninas sonhavam em casar, namorar etc., mas pelo menos haviam umas meninas brancas que nos usavam quando queriam experimentar algo diferente. E isso massageava o ego mesmo. E ainda que a gente soubesse disso, era como se houvesse algum tipo de recompensa. Que pra alguns, era a elevação da autoestima. Pra mim, estranhamente, era combate ao racismo.

Hoje eu entendo que relações afrocentradas passam, primeiramente, pela valorização da mulher negra, mas também pelo abandono dessa aceitação do fetiche que foi dado aos homens negros. Quando nós passarmos a nos enxergar como homens de forma inteira,  além da questão sexual ou das performaces de filmes pornôs, pararemos de nos encantar com a fetichização feita por mulheres brancas. deixaremos de ser o “negão” pra ser o homem negro. E a partir de então deixaremos de entender relações como troféus, e passaremos a valorizar mais aquelas que possuem vivência parecida com  a nossa, que nos amará como homens e não como objetos de prazer. E até que isso aconteça, seguimos desconstruindo.

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