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Literatura afrodescendente: uma proposta de diálogo entre Maria Firmino dos Reis e Conceição Evaristo

montagem-Geledés Instituto da Mulher Negra

por Robson Lacerda Dutra1Vanessa Figueiredo2  no e-Scrita

RESUMO: Baseados em Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis, o primeiro romance abolicionista no Brasil, consideraremos a produção literária de gênero, comparando as transformações e permanências sentidas em Insubmissas lágrimas de mulheres(2011), de Conceição Evaristo na literatura e na história do Brasil. Como ponto de chegada, pretendemos observar como a literatura e as artes em geral, têm auxiliado numa nova versão da história a partir dasminorias.

Palavras-Chaves: Literatura. História. Maria Firmino dos Reis. Conceição Evaristo. Gênero.

Afrodescendant literature: a proposal for dialogue between Maria Firmino dos Reis e Conceição Evaristo 

ABSTRACT: Based on Úrsula (1859), by Maria Firmino dos Reis, the first romantic and abolitionist novel in Brazil, we consider gender literary production, comparing transformations and permanencies with Conceição Evaristo’s Insubmissas lágrimas de mulheres (2011) along literature and Brazilian history. As an ending point we intend to observe how literature and arts, in general, have helped a new vision of a new history told by minorities.

Key Words: Literature. History. Maria Firmino dos Reis. Conceição Evaristo. Gender.

Ao longo dos séculos a literatura tem se tornado grande aliada no  processo de reversão e transformação do contexto social brasileiro em favor, sobretudo, das minorias historicamente cerceadas. Assim, nesse artigo, pretendemos suscitar um diálogo possível entre obras literárias dos séculos XIX e XXI, mais especificamente entre Maria Firmino dos Reis e Conceição Evaristo, destacando o discurso ideológico veiculado em algumas de suas obras a partir da voz das minorias, a começar pela própriaautoria.

Para tanto, partimos da concepção de Jean Paul Sartre (2004) de que a literatura exerce uma função social por colocar a “palavra” a serviço de uma ideologia social ao longo da história oficial, representando a sociedade através da linguagem, com a produção de um sentindo específico. Essa ideologia e o sentido produzido pelas palavras traduzem o que Walter Benjamin (2004) entende como “discurso”, ou seja, uma linguagem influenciada por fatores externos (formação e características socioculturais do escritor, o contexto, etc.) e internos (elementos textuais) ao ato de escrever. O contexto ajuda no desvendamento da obra pelo leitor e faz do ato de escrever uma arte atemporal no movimento da leitura em que os indivíduos acabam por comungar das mesmas percepções a partir das lembranças e da memória.

A produção literária dessas escritoras parte deum princípio de irreverência e insubmissão presente na própria autoria, visto que, mesmo em épocas distintas, há uma aura silenciamento que ainda a circunda. Para elas, a letra representa uma arma contra a desigualdade e a opressão que fazem do ato de escrever uma busca pela liberdade de falar para o outro e a consequente possibilidade de serem ouvidas. Tal se dá porque, como enuncia Sartre, “o meioé de fato determinante: o meio produz o escritor; é por isso que não acredito nele.” (Sartre, 2004, p.60).

Sendo assim, a primeira obra a ser considerada é Úrsula(1859), romance de autoria de Maria Firmino dos Reis, que apresenta ao leitor o ambiente social e histórico brasileiro doséculo XIX, cuja temática problematiza questões de gênero, raça, escravidão, etc., numa proposta de recuperação do patrimônio literário do país e de superação do ponto de vista usual sobre a representação dos negros e do feminino nos romances abolicionistas de seu tempo. Mais que isso, é um texto que se volta ao falso pressuposto de unidade nacional das três bases que constituem a sociedade brasileira, ou seja, o negro, o índio e obranco.

Num segundo momento, ainda nesta perspectiva de resistência e superação de paradigmas e convenções socioculturais estereotipadas do negro e do feminino no Brasil, abordaremos alguns dos treze contos de Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2011), de Conceição Evaristo, obra que reúne narrativas sobre histórias de mulheres violentadas nos mais diversos aspectos, mas que se mostram insubmissas às pressões e cerceamentos masculinos que, desde o texto de Firmino, persistem na sociedade brasileira.

Assim, veremos como obras literárias de épocas diferentes e aparentemente antagônicas podem refletir sobre as mesmas temáticas, fornecendo dados importantes e significativos para os pesquisadores das relações entre os gêneros e das interfaces do Direito e Literatura, exaltando a relevância desses estudos e contextualizando-os no tempo e no espaço.

 

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1 Doutor em Literaturas Africanas. Professor Adjunto Doutor do Mestrado Interdisciplinar em Letras e Ciências Humanas da UNIGRANRIO. Duque de Caxias, RJ, Brasil. [email protected]

2 Mestranda em Letras e Ciências Humanas – UNIGRANRIO. [email protected]

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