Negros relatam como o racismo os afetou ao longo da vida: ‘Doía na alma’

Enviado por / FonteG1, por Isabella Lima

Passar grande parte da vida sendo pressionados pela ‘ditadura do cabelo’, roupas e costumes, fez com que eles tentassem se enquadrar dentro de um padrão estético branco. É assim que negros ouvidos pelo G1 relatam como o racismo afetou suas vidas e fez com que se sentissem inseguros e minoria no Brasil.

Um levantamento sobre o racismo no país apontou que 94% dos brasileiros reconhecem que as pessoas negras têm mais chances de serem abordadas de forma violenta e mortas pela polícia. Os dados são da pesquisa “As Faces do Racismo”, feita pelo Instituto Locomotiva a pedido da Central Única de Favelas (CUFA).

O assistente social Ketinho Oliveira, de 28 anos, já presenciou e viveu a violência só por ser negro. Ele relata que entrou na Justiça duas vezes por casos de racismo que sofreu, e em ambos perdeu a causa.

Um deles foi por intolerância religiosa, já que segue uma religião de matriz africana – o candomblé. Ele relata que trabalhava no setor de telemarketing de uma empresa, e quando chegou de roupa branca e turbante na organização, foi proibido de entrar. Ele registrou boletim de ocorrência, mas perdeu a causa.

Para reverter as sequelas do racismo em sua vida, Ketinho passou a se aproximar da temática — Foto: Arquivo Pessoal

O segundo caso ocorreu na rodoviária da cidade de Santos, em 2018, quando Ketinho estava a caminho de Ribeirão Pires, no interior paulista. Ele comprou a passagem e, ao sair do banheiro, um segurança que estava do outro lado da escada fez um gesto com a mão para que se retirasse daquele espaço. Ele afirma que notou o gesto, mas continuou arrumando sua bolsa. “Em seguida, o segurança se aproximou e mandou eu me retirar, porque, segundo ele, eu era pedinte. Fui vítima de um estereótipo, preconceito, porque eu era negro. Ao chamá-lo de racista, fui agredido três vezes com o cassetete em meu braço e punho”.

Mais uma vez, Ketinho afirma que registrou um boletim de ocorrência e o caso foi para a Justiça, mas também perdeu a causa. “Em 2014, eu estava em uma barraca de pastel em frente à universidade. Fui comer lá e disse que ‘queria comer uma coisa tão gostosa, é fogo ser pobre no Brasil’. Uma mulher, que também comia na barraca, me olhou e disse que tudo é questão de mérito. Eu discordei e disse que nem todos têm os mesmos acessos. Questionei se ela achava que, se eu trabalhasse 24 horas todos os dias, conseguiria ser dono da Mercedes. Ela respondeu: ‘não, porque a Mercedes é alemã, e você é torradinho’. Foi a primeira vez que realmente entendi o que era racismo”, conta.

Para tentar reverter a influência do racismo em sua vida, ele passou a escrever poesias e participar de movimentos sociais ligados à causa.

“O racismo é como um prego, e o nosso corpo é uma madeira. Quando você retira esse prego, o buraco ainda permanece. Isso faz com que os negros se sintam menosprezados e desumanizados, nossa voz não é ouvida. O preconceito é muito perverso”, desabafa.

Infância marcada

O assistente social Ricardo Moreira, de 53 anos, recorda que, logo que entrou na escola, as situações de preconceito começaram a se manifestar e já o deixavam incomodado, principalmente por conta de apelidos. Um dos apelidos que o marcaram era ‘Kunta Kinte’, personagem sequestrado e escravizado retratado no romance “Raízes: A Saga de uma Família Americana”, do autor norte-americano Alex Haley.

“A história trazia todo o sofrimento de um homem escravizado, humilhado e destituído de humanidade, e eles me comparavam a ele, então aquilo me doía na alma. E infelizmente isso não acontecia só antigamente, porque minha filha mais nova passou por episódios muito tristes de racismo na escola que frequenta, os coleguinhas ficavam xingando ela por conta do cabelo”, diz. Para se defender das agressões e xingamentos que vivia na infância, Moreira precisou ingressar no caratê.

Ricardo relata que o racismo deixa sequelas desde sua infância — Foto: Arquivo Pessoal

O assistente social também nunca se sentiu representado ao assistir programas de TV ou frequentar lugares com pessoas em posição de poder, pois percebia que, naqueles espaços, os negros eram minoria. Então, passou a entender a seriedade do racismo e se aproximou da temática, fazendo parte de projetos sociais ligados à causa e ingressando na universidade pública.

“Penso que não há algo mais cruel, tudo é ruim no racismo, é nefasto, é destruidor, basta ver nossas evidências, a população carcerária mundial é predominantemente formada de pessoas negras, nos rincões de pobreza mundo afora lá estamos nós, homens e mulheres negras novamente”.

Racismo velado

A estudante Laís Thomaz Rodrigues da Silva, de 29 anos, sofreu com o racismo pela primeira vez aos 15 anos, em 2006. Filha de pai negro e mãe branca, ela afirma que, por muitos anos, tentou se encaixar nos padrões dos brancos: alisar o cabelo e andar com a turma majoritariamente branca.

“A dificuldade foi sendo escancarada aos poucos. Vez ou outra, escutava algumas coisas que chamamos de racismo velado, que para quem fala não tem peso, mas para quem ouve, sim. O racismo impõe dor à nossa raça há muitos anos”, diz.

Laís alisou o cabelo por muitos anos após ouvir críticas de uma colega de escola — Foto: Arquivo Pessoal

A estudante afirma que tem três episódios marcantes em sua vida relacionados ao racismo. O primeiro, aos 15 anos, no primeiro ano do Ensino Médio. Na época, uma colega disse que nunca tinha reparado como o cabelo dela era feio e “de bandido”. A menina, de acordo com ela, tinha o cabelo liso.

“Algumas semanas depois, fiquei horas no salão para relaxar e alisar o cabelo, fiz isso por dez anos da minha vida. O segundo episódio foi aos 18 anos, quando um vizinho me chamou de “neguinha insolente” quando o chamei de folgado. Na hora, fiquei sem reação e ele disse que gente da minha cor não ia para frente. O terceiro foi em um chá de bebê, onde uma tia perguntou para uma pessoa que estava lá de quem eu era filha e o motivo de eu ser tão escura, sendo que minha mãe e irmãs eram brancas”, relembra.

A estudante diz que é muito triste ser resumida pela cor de sua pele, e por ser a única negra da família da mãe, por muito tempo foi definida como a pessoa exótica. “Sempre escutei que era bonita e que não tinha traço negroide. De tanto escutar coisas que diminuem a nossa existência, acaba que faz um buraco na autoestima da pessoa”, completa.

“O peso de sofrer preconceito é enorme. Primeiro, você precisa se resguardar o dobro para não virar mais um na estatística. Eu ainda tenho a ‘vantagem’ de ser mulher e não ser retinta. Eu preciso provar todos os dias que eu tenho capacidade, que terei meu diploma do Superior. A falta de oportunidade que a sociedade nos impõe dói bastante. Às vezes, sinto que o racismo só piora e parece que não tem mais saída. Eu vejo que tem muita gente que pode ajudar a combater, mas infla os preconceituosos, colocando os negros como vitimistas e oportunistas”.

‘Violência’

A fotógrafa Bete Nagô também relembra como o preconceito a prejudicou desde a infância. Ela relata que, desde pequena, ouvia xingamentos sobre seu cabelo, nariz, corpo e altura. “O pior lugar para uma criança negra vai ser sempre o cenário da escola. São dores que ela vai carregar para o resto da vida. Você sempre vai ouvir de uma menina negra que ela nunca foi escolhida para ser a noiva da quadrilha, porque nunca fomos o padrão de beleza esperado”, diz.

A discriminação, que Bete define como um tipo de violência, é algo que ela vive diariamente. “Eu entendo o racismo só no olhar, e não é mania de perseguição, essa é a realidade. As pessoas se incomodam ao verem uma mulher preta e periférica escurecendo esses ‘locais de brancos’. Se você olhar para o lado em lugares privilegiados, raramente você verá pessoas negras. E se vê-los, na maioria das vezes é na função de servidão, e nosso sonho é que isso acabe”, conta.

Para ela, o mais cruel é que muitas pessoas ainda consideram falas racistas como brincadeira. “Se o racismo só existisse mesmo na cabeça dos negros, porque seríamos os mais assassinados no Brasil?”.

Um levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública entre 2005 e 2015 mostrou que o abismo entre brancos e negros aumentou na última década. Entre os mortos nos homicídios registrados nesse período, o número de brancos caiu 12%, e o de negros aumentou 18%. Mesmo com os negros representando 54% da população, eram 71% das vítimas de homicídio na época do estudo.

Bete destaca que essa realidade é uma das coisas mais doloridas para pessoas negras, e conta que chegou a ser acusada de roubar uma carteira e teve que mostrar a bolsa em um espaço público que visitou. “Nos fortalecemos um dia atrás do outro, porque o racismo nos adoece”, conclui.

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