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Nunca me sonharam….

Nunca me sonharam….

“Nunca me sonharam” é o nome do documentário produzido por Maria Farinha que retrata a realidade da educação brasileira, em  particular do ensino médio do ensino médio em escolas publicas, na perspectiva de alunos, professores e especialistas da Educação. Mas o titulo desse documentário, motivo pelo qual, fui levada a assisti-lo, poderia bem retratar a condição existencial das mulheres negras  no Brasil. E eu sei que muitas delas se identificariam com o enunciado: “Nunca me sonharam”.  E não vou retratar o amor romântico ou a busca por um cara legal que nos “sonhe”. Não é só disso  que quero falar. Quero pensar em voz alta sobre a nossa ausência no projeto de sociedade. Nunca nos sonharam!

Por Fabiane Cristina Albuquerque para o Portal Geledés 

Quando li pela primeira vez o clássico de Virginia Woolf  “Um quarto só para si”, fazendo mestrado na Itália, pensei “é isso!” Toda mulher, como narra Virginia sobre sua experiência, deveria ter uma renda básica que a possibilite de obter certa autonomia do homem, mesmo que seja quase impossível não estar amarrada no âmbito dessa sociedade patriarcal. Uma renda que a deixe livre para exercer sua criatividade e liberdade. No seu caso, foi graças a uma herança que recebeu de uma tia que a tornou uma mulher independente e uma escritora fantástica que conhecemos hoje. Ela também diz que toda mulher deveria ter seu próprio espaço, físico nesse caso, como um quarto, daí o nome do livro. O espaço que muitas mulheres negras nunca tiveram. E diga-se de passagem, é um dado objetivo o fato de que a maioria das mulheres negras forma o grande contingente de pobres nesse pais e que a maioria da população das favelas e periferias é negra. Logo, sabemos todos como é difícil ter um próprio quarto nessa realidade, imagina então uma renda básica que nos possibilite SERMOS.

A distancia de alguns anos desde a leitura desse livro e voltando ao Brasil, habitando um espaço “só meu”, havendo uma renda básica, mesmo que vulnerável e sujeita ao término a qualquer hora nesse pais, me dei conta de que, para nòs, mulheres negras, não basta o quarto e a renda, a questão é bem mais profunda: “Nunca nos sonharam”. Mesmo conquistando um pouco de autonomia, mesmo exercendo nossa criatividade, ou lutando dia a dia para não perde-la, mesmo resistindo, não é suficiente.

Nos negam fazer parte dos “sonhos” de uma nação justa e igualitária. Não digo que nos negam participação numa sociedade como essa, pois é obvio, tampouco resolveria nosso problema ser parte de uma sociedade patriarcal, racista e sexista, como disse Angela Davis, na Universidade da Bahia, esse ano. Não estamos nos sonhos de ninguém, nem dos homens, nem das Universidades (e não estou falando de cotas, isso é a modo de entrar e não de permanecer), dos governos, das religiões… Ilustro o que quero dizer com alguns exemplos.

Em julho desse ano estive em Santos, passei uma tarde, caminhando na praia, vendo o mar, avistei um carrinho de milho verde. Decidi comprar um. O senhor que vendeu-me, cortou o milho e colocou numa embalagem de isopor. Assim se faz aqui no Estado de São Paulo. Reclamei em tom de brincadeira dizendo que o gostoso era roer o milho ate o caroço, coisa que aprendi em Goiás. Ele retrucou dizendo que “aqui as pessoas querem tudo cortado” e que  na terra dele também se come o milho assim roendo. Perguntei de onde era e ele respondeu que era do nordeste, do Rio Grande do Norte. Conversa vai, conversa vem ele disse:“Eu vim para cà e me disseram que era cheio de mulher bonita, mas aqui só tem nordestina, não achei uma europeia”. Ofendida, eu  retruquei: “mas o senhor acha que as nordestinas são feias?” Ele, numa reação defensiva contou um pouco de sua vida e para se justificar da sua falta de preconceito afirmou: “Eu arrumei uma nordestina e ainda de cor”. Suspirei… O “ainda” mostrava o quanto ele a via como inferior e que sua cor era uma desqualificação, um a menos, um “atè isso eu fiz”, “olha pra você vê como não sou preconceituoso ou racista”. Terminei a conversa muito chateada, pois ele, era também negro. Essa desqualificação da mulher negra pelos próprios companheiros é algo que  me dói, nos dói. Somos o “menos” na vida deles, somos o que “sobrou”.

Alguns anos atrás, a babà (branca) de meu filho me contou sobre o fim do seu casamento de 17 anos e o quanto ela sofreu. Ela então me lançou uma frase que nunca esqueci “Mas ele pagou tudo o que fez comigo, agora tà com uma nega da cor de carvão, bem feito”.

Dias atrás fui conversando  com uma senhora, ela dizia que foi ao posto de saúde fazer o exame Papa Nicolau e a enfermeira disse faria, mas a senhora queria que fosse com o medico e me disse: “Eu não faço mesmo exame com enfermeira, e ainda era uma escurinha, a outra enfermeira era melhor, mas eu disse que só fazia mesmo era com o medico, ele estudou para isso, ele que sabe”.

É nessa falta de sonhos que vivemos e passamos a vida buscando desbravar nossos lugares na sociedade, por falta de quarto e de renda sofremos, e, quando conseguimos temos que provar ainda que a cor da nossa pele e os traços físicos não são limites e nem falta de competência, como o caso da enfermeira negra. Tampouco castigo, como o caso da segunda mulher da  ex baba do meu filho.

E nas relações amorosas (falo das heterosexuais) então… Ahh, essas são perpassadas por falta de sonhos. Não nos sonham porque ainda grande parte dos homens nos veem como aquilo que sobrou. E falo de homens negros e brancos. Muitos brancos nem cogitam se envolver com uma negra, não é castigo pra eles, tampouco “falta de opção”, é invisibilidade mesmo. Como dizia uma amiga, fisioterapeuta de Jundiaí, formada a mais de 20  anos na PUC de Campinas e única negra do curso e praticamente da universidade inteira, nenhuma amiga branca cogitava apresenta-la a um amigo, irmão, primo… todas sabiam que ela era solteira e nas festas  ouvia sempre dizerem a outras meninas brancas “Preciso te apresentar pra fulano”. Essa minha amiga era invisível quando se tratava de ser pensada como possível pretendente, ela não era sonhada, em lugar algum.

Quando vi o documentário “Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado” de Joel Zito, anos atrás, meu desconforto e minha compaixão por muitas mulheres pretas que se prostituem ou se casam com europeus expressava pra mim justamente esse sonho de ser sonhada. E não se trata de se casar por dinheiro ou se prostituir por causa da situação econômica. Tem isso também! Meu  olhar era na fome de ser amada, desejada, vista como mulher. Uma delas  disse mais ou menos assim: “O europeu chega aqui e te paga pelo tempo todo que ele estiver aqui, sai de mãos dadas com você, não tem vergonha, ele te trata como uma princesa”.  Isso me chamou a atenção! Não que os europeus sejam o ideal de homem e menos racistas, mas essas  mulheres buscam também isso: estar nos sonhos, nos projetos de alguém. E a casa, os presentes, andar de mãos dadas sem que o parceiro tenha vergonha, também faz parte. Porque não?
Muitas mulheres negras que viveram a infância nos anos 80 sabe que nas famílias as damas de honra nos casamentos eram escolhidas a dedo, meninas que pareciam “bonecas”. As meninas negras e, quanto mais escura a pele, maior o limbo, nunca foram sonhadas para carregar as benditas alianças. As vezes não se eram sonhada nem menos na própria família, pois a hierarquia de tonalidades de pele era/ainda é algo cruel.

Eu me pergunto se na falta de nos sonharem é suficiente nos sonhar. Tenho a impressão de que as únicas que nos sonharam foram nossas mães e avos pretas. Como no relato de dona Diva, de Stephanie de tantas Marias, Evas, Julias… Foram elas que deixavam de comprar algo para que o dinheiro do lápis ou do caderno não faltasse, e na falta deles também tinha as palavras de incentivo, a labuta para fazer estudar, as noites sem dormir, o cansaço físico das 3 ou 4 jornadas. A atenção dividida com os filhos na ausência e na solidão do abandono do marido. Foram elas que morreram pelo caminho, se quebraram, ou se fizeram invisíveis para nos sonhar. Ninguém nos sonhou tanto quanto elas!!! E somente graças a ela podemos sonhar, nos sonhar, embora não nos sonhem. Ainda.


Fabiane Cristina Albuquerque
Graduada em Ciências Sociais pela UFG
Mestrado em Pedagogia Interculturale e Filosofia pela Università di Verona- Itália
Mestrado em Sociologia- Unicamp
Doutoranda em sociologia- Unicamp

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