O complicado caso de racismo do Zenit

Mais uma vez o tema racismo surge no futebol russo. Agora, um grupo de torcedores do Zenit São Petersburgo divulgou uma carta na internet se colocando contra atletas negros e gays, como uma forma de manter a tradição no clube. Abaixo, trecho do texto.

“Não somos racistas, mas para nós a ausência de futebolistas negros no plantel do Zenit é uma importante tradição que reforça a identidade do clube. Somos a equipe mais ao norte das grandes cidades europeias e nunca tivemos vínculos com a África, a América Latina, Austrália ou Oceania. Não temos nada contra habitantes destes continentes, mas queremos que joguem no Zenit atletas afinados com a mentalidade e o espírito da equipe”

Antes de tentar entender o que acontece na região, publico uma matéria produzida pela SNTV sobre o tema.

Percebem como há uma ideia única de que ser contra negros e gays não é racismo? Isso nada tem a ver com valorizar os atletas da região ou promover mais garotos da base. Tem a ver com “não quero você no meu time porque você não tem a cor das pessoas ao meu redor”. Isso, meus caros, é racismo.

No entanto, – e não estou tentando justificar, apenas explicar – muitos russos não pensam como eu. A Rússia permaneceu isolada do mundo por muitas décadas durante o período soviético. Isso fez com que a imigração para lá pouco existisse, se restringindo às regiões mais pobres da própria União Soviética. Por isso, no século passado, surgiu um preconceito em Moscou e São Petersburgo contra esses imigrantes específicos. Sem dúvida alguma, o maior racismo que existe na Rússia hoje é contra os próprios russos. Russos do Cáucaso ou do norte da Ásia, presentes no cotidiano dos habitantes das duas maiores cidades do país.

Nos últimos anos entrevistei diversos jogadores brasileiros que atuaram ou atuam na Rússia. Vágner Love, Rafael Carioca, Ari, João Carlos, Maicon… Todos esses que citei têm a pele mais escura. Todos afirmaram que não eram ofendidos na rua, mas muitos relatam problemas nos estádios. E esse é um problema existente em todo o planeta: no campo de futebol, os imbecis ganham força e confiança para se manifestarem.

São Petersburgo é uma cidade histórica na Rússia. Berço das três revoluções do século passado, dona de arquitetura impressionante, palco das Noites Brancas de Fiodor Dostoievskiy, hoje a antiga Petrogrado e Leningrado possui uma horda de direitistas nacionalistas que mancha sua história. Esses são os delinquentes que não veem racismo em ser contra atletas negros e/ou gays no Zenit e gostam de mostrar o que pensam a todos.

Certa vez, em uma dessas entrevistas com jogadores, o Rafael Carioca me contou o que passa na cabeça de alguns jogadores e diretores do Zenit. Segundo o ex-volante de Grêmio e Vasco da Gama, eles não querem jogadores com a pele muito escura, normalmente vindos da África. Em relação a mulatos, não há problemas. Tanto é que o Zenit contratou nesta temporada Hulk e Axel Witsel por 100 milhões de euros.

Sobre toda confusão envolvendo o atacante brasileiro: o companheiro Leonardo Bertozzi levanta a possibilidade de ter havido racismo por parte de Igor Denisov. É impossível rechaçar tal hipótese. Acredito, mais, na questão de dinheiro mesmo, já que o volante russo queria um aumento de salário quando viu os gastos do clube. Inclusive baseio minha opinião na apuração feita por colegas jornalistas do Sport-Express, principal diário esportivo do país. De pessoas próximas a Hulk, ouvi que o problema se restringia à “grana”. No entanto, é difícil imaginar mesmo que a questão da cor não tenha influenciado, até porque Denisov é fruto da base do Zenit.

Para concluir, acredito que o racismo na Rússia é um problema social e cultural, e precisa ser visto como tal pelas autoridades. Enquanto isso não acontecer, manifestações racistas como as dos torcedores do Zenit seguirão sendo vistas com naturalidade pela população russa. Não basta apenas o futebol agir, é preciso que o Governo se atente a isso. Recentemente entrevistei Aleksandr Vasyukov, diretor Geral do Ministério dos Esportes da Rússia. Quando o questionei sobre racismo, ele negou que esse seja um enorme problema. E é.

Em relação às autoridades do mundo futebolístico, Uefa e Fifa deveriam agir com rigor. Expulsão das principais competições em casos de racismo comprovado de seus torcedores. Sim, medidas extremas. Não há espaço para mais punições brandas, como multas ridículas de alguns milhares de dólares. Talvez só isso faria o Zenit agir.

Racismo não acontece só na Rússia, mas como o país está em evidência no futebol por causa de seus clubes milionários e também da Copa do Mundo de 2018, o assunto passou a ser debatido com mais intensidade pela comunidade futebolística mundial. Felizmente, porque surge assim uma oportunidade para os russos evoluírem nessa questão, e não apenas tratarem do problema em seus estádios.

Fonte:Esporte Br

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