O branco que branco não quer, e gruda em negros

Tem um fenômeno do qual quero escrever faz tempo. De exemplos, tenho muitos, só me faltava articular uma explicação possível para tal problema: brancos e brancas que “preferem” estar no meio de negros e negras, que se aproximam em qualquer circunstância, que demanda a nossa atenção e presença. Parece algo “fofo” e, pode passar até mesmo por antirracismo, mas, não é. Tem algo em muitos e muitas delas que sempre me incomodou e, agora, parece claro para mim: a aproximação não é por causa dos negros, é por causa de si mesmo. É como olhar-se num espelho deturpado onde ela/ele se vê, olhando-nos, de forma superior.

Fui convidada para uma festa na casa de uma família francesa. Como sempre, eu era a única mulher negra. Estavam presentes outras estrangeiras, como por exemplo, uma russa, mas negra mesmo, somente eu. Com um copo de vinho na mão, eu caminhava pelo pequeno jardim da residência, abarrotado de gente que conversava em pequenas rodas. Parei, e, sem pretensões, olhava as pessoas na festa. Uma mulher muito magra, cabelo vermelho e os dentes escurecidos pelo cigarro, aproximou-se de mim: “De onde você é?” indagou. “Sou brasileira”, respondi. “Percebi pelos cabelos que você deveria ser latino-americana”, acrescentou. Generosamente, dei ouvidos e ela continuou: “Eu estive no Brasil. Que país maravilhoso! Que gente maravilhosa! Fui para Salvador. Uau! Que lugar mágico!” E estendeu-se por muito tempo, descrevendo os lugares onde já estivera, como se sentiu e o quanto queria voltar para recarregar o que ela chamava de “energia”. Em nenhum momento, ela perguntou algo sobre mim. Nada. O centro era ela. Somente ela. A dona da casa passou por mim diversas vezes e, com o olhar, perguntava se estava tudo bem, se aquela mulher me incomodava. Eu fazia sinal com o corpo respondendo que estava tudo bem, afinal, sei muito bem o que brancos querem de mim, na maioria dos casos: confirmação do ego construído como o centro da relação. Depois que me liberei da mulher, a anfitriã disse: “Ela é muito inconveniente, desculpe-me se ela te achou”. Depois desta frase, passei o resto da festa pensando. Com todas as pessoas disponíveis no ambiente, inclusive seus compatriotas, ela foi “achar” justo eu. E, aqui entra o ponto. Brancos e brancas, que os seus não suportam, tendem a se aproximar de negros para ter atenção pois, como acreditam-se superiores e agem como se tivéssemos que agradecer a presença deles. Como não podem competir com o ego branco, pois entre os seus, são considerados inconvenientes, sem noção, menos que os outros, com a gente se consideram mais. 

Há uns dois anos, trabalhei com um francês que não era muito querido no ambiente do trabalho. Era pedante demais. Certa vez, diante de enésima brincadeira que os colegas fizeram com ele, uma frase, espontânea quanto reveladora, foi pronunciada: “Eu vou voltar para a Colômbia, lá todo mundo me quer bem”. Ele tinha estado no país alguns anos atrás, por seis meses. Achei interessante o desabafo. Ele sentia nostalgia do país latino americano não pela sua cultura, pelo seu povo, pela sua história, mas por ele mesmo, pelo que ele recebia do povo, pelo que ele era lá e não era na França, entre os colegas, ou seja, querido. 

E os exemplos não faltam, desde uma professora de francês, considerada narcisista e inconveniente por muitos franceses, mas idolatrada por brasileiros que dizia preferir nossa gente aos seus compatriotas. O seu gosto era devido à demasiada atenção que recebia e na idolatria da sua brancura. Ah! Os brancos! Tão fechados em si mesmo e tão longe dos outros! Mulheres brancas, fora dos padrões de beleza, que dizem só gostar de homens negros, porque lhes dá demasiada atenção. Homens brancos que só procuram mulheres negras porque, com as brancas, não têm a mínima chance, como se a afirmação e o reconhecimento da sua superioridade dependessem de nós. 

E, o último exemplo aconteceu recentemente durante o VI Congresso de Pesquisadores Negros do Centro Oeste (COPENECO). Diversos participantes contaram-me que um homem branco apareceu no evento, na Universidade Federal de Goiás, e ninguém sabia quem ele era e o que fazia ali. Este homem pediu a palavra algumas vezes, se apossou do microfone e começou a ensinar ao grupo de pesquisadores como agir na política e até a sugerir fontes para entenderem as questões raciais. Teve, ainda, a desfaçatez de perguntar o nome do Congresso, pois ele não sabia. Só sabia que era algo de “negros” e foi parar lá, com a cara de pau, querendo brilhar e ensinar. É claro que ele foi colocado no seu devido lugar. Mas, chama a atenção a falta de puder em intervir num evento que ele sequer foi chamado para falar e mal sabia do que se tratava. Sua brancura foi o passe livre para pegar o microfone achando que os negros, estes sim, ao contrário dos brancos, teriam algo para aprender com ele. E, sua desenvoltura foi tamanha que ele realmente acreditava estar no lugar onde podia reinar.

Eu observo brancos e brancas que os seus iguais não querem por perto e que grudam em negros. É um show de narcisismo grotesco que pode passar por antirracismo, mas não é. Há uma linha sútil (ou nem tanto). O antirracismo não está centrado em si, o antirracismo enxerga a dignidade do outro e está na linha de frente para defendê-la. O branco grude, coloca os negros na linha de frente para defender a sua imagem, a saber, aquele construída pela branquitude como a mais inteligente, sensível, civilizada, que tem sempre algo para ensinar aos outros.

Que tenhamos olhos bem abertos para não servirmos de afagador de egos, nem de espelho para brancos frustrados. Não temos afetos para desperdiçar com quem não nos enxerga, só a si mesmo.


 Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 


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