sábado, dezembro 3, 2022
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Precisa-se: Um coral de vozes de mulheres negras

Tradução: “Need: A Choral Of Black Women´s Voices”- Audre Lorde, 1979.

Audre Lorde /Foto: Jack Mitchell/Getty Images

para Patricia Cowan e Bobbie Jean Graham 

e as Centenas de Outras Mulheres Negras Mutiladas

cujos Pesadelos Informam Minhas Palavras

Faladeira linguaruda 

sua língua será cortada

e cada garotinho da cidade

ganhará um pedacinho 

– cantiga de ninar 

I

EU: Esta mulher é Negra

então seu sangue é derramado em silêncio

esta mulher é Negra

então sua morte cai na terra

como as gotas dos pássaros 

para ser lavada com silêncio e chuva.

P.C.: Por um longo tempo depois do bebê nascer 

Eu não saia por nada 

e isso ficou realmente solitário.

Então Bubba começou a perguntar sobre seu pai 

Eu desejei me conectar com o sangue novamente 

pensei talvez pudesse encontrar alguém

e nós poderíamos seguir juntos 

tornar o sonho realidade.

Um anúncio no jornal dizia 

“Precisa-se de Atriz Negra

para audição em uma peça de dramaturgo Negro.”

Eu estava ansiosa para voltar a trabalhar 

pensei que este poderia ser um bom lugar para começar, 

então no caminho de casa para a escola com o Bubba  

Eu respondi ao anúncio.

Ele enfiou um martelo na minha cabeça.

B.J.G.: Se você for atingido no meio do seu corpo 

por um caminhão de dez toneladas

seu peito tem cravada a marca de um pneu

e seu fígado

parece uma bola de borracha.

Se você for derrubada por pedregulhos

de uma colina desqualificada

sua morte é carimbada pela rocha

sobre o seu corpo esmagado

pelo peso impessoal de tudo

enquanto a vida escorre pelo fígado

esmagado pela pedra irracional.

Quando seu namorado bate metodicamente em você até a morte

no beco atrás do seu apartamento

e os vizinhos abaixam suas cortinas

porque eles não querem se envolver

a polícia chama isso de crime passional

não é crime de ódio

mas Eu continuo morta

de um fígado lacerado

e um calcanhar de homem

impresso no meu peito.

Eu: Mulheres Negras mortas assombram as ruas masculinas negras

pagando o dízimo secreto e familiar de sangue das cidades

queimar sangue bater sangue cortar sangue

criança de sete anos vítima de estupro sangue sangue

de uma avó sodomizada sangue sangue

nas mãos do meu irmão sangue

e seu sangue coagulando nos dentes de estranhos

como mulheres, fomos feitas para sangrar

mas não esse sangue inútil

meu sangue a cada mês um memorial

para minhas tácitas irmãs derramadas

como gotas vermelhas no asfalto

Eu não estou satisfeita por sangrar

como um símbolo silencioso para a redenção de ninguém

por que é o nosso sangue

que mantém essas cidades férteis?

Eu nem sei todos os nomes delas.

Minhas irmãs não são dignas de nota

nem ameaçadoras o suficiente para decorar o noticiário da noite

não são importantes o suficiente para serem fossilizadas

entre os piquetes de direito à vida

e nos manifestos de São Francisco pela libertação gay

sangue sangue das minhas irmãs abatidas nesta guerra sangrenta

sem nome, sem medalhas, sem troca de prisioneiros

sem pacotes para a casa

sem folgas por bom comportamento

sem vitórias sem vencedores

B.J.G.: Somente nós 

Mantivemos o medo de caminhar sob a luz do luar

para não tocarmos nosso poder

somente nós

mantivemos o medo de falar

para nossas línguas não serem cortadas

pelas bruxas que somos

nossos peitos esmagados

pelo pé de um conhecido musculoso

e um fígado rompido sangrando vida sobre as pedras.

TODAS: E quantas outras mortes

nós viveremos diariamente

fingindo

que estamos vivas?

II

P.C.: Que terror moldurou meu rosto em seu ódio

que inimigo antigo e incontestável

assumiu minha carne dentro de seus olhos

veio armado contra você

com risadas e uma arte esperançosa

meu cabelo atraia a luz do sol

meu filho pequeno ansioso para ver sua mãe no trabalho?

Agora meu sangue endurece entre as fendas

de seus dedos em ristes para limpar

um meio sorriso que carregava em seus lábios.

Nesta pintura de você

o rosto de um policial branco

se curva

sobre meu filho ensanguentado 

derrubado pelo meu irmão

que me perseguia com um martelo cantante.

B.J.G.: E para que você precisa de mim, irmão,

me mover por você, sentir por você, morrer por você?

Você tem uma grande necessidade de mim

mas seus olhos estão sedentos por vingança

vestida do sangue mais fácil

e eu sou a mais próxima.

P.C.: Quando você abriu minha cabeça com seu martelo

um boogie paralisou seu cérebro

a batida continuou

o terror saiu de você como fúria coagulada

um meio sorriso apareceu em seus lábios?

E sua masculinidade leiga estava em meu crânio como um peixe na rede

ou derramou-se como sangue

como fúria impotente nas pontas dos dedos

como seu martelo cravado no meu osso para deixar sair a luz

você a tocou enquanto ela voava?

TODAS: Cânticos emprestados ocultam o ódio descabido

dizendo que você precisa de mim, você precisa de mim, você precisa de mim

como um tambor quebrado

me chamando deusa negra esperança negra força negra 

mãe negra

você me comoveu

e eu morro nos becos de Boston

com o estômago pisado através do pequeno das minhas costas

um crânio martelado em Detroit

uma faca cerimonial através da vagina violada da minha avó

meu corpo queimado invadindo por conveniência um terreno baldio

Eu minto no sangue da meia-noite como uma cidade rebelde

bombardeada dentro da falsa submissão

e nossos inimigos ainda estão no poder

e julgando

nós todos.

P.C.: Eu preciso de você.

Não havia outro lugar 

para plantar seu martelo, 

gastar a raiva descansar o horror

nenhum outro lugar para procurar sua masculinidade, 

exceto no meu cérebro de mulher?

B.J.G.: Você precisa que eu me submeta ao terror do anoitecer

cortar em pedaços e guardá-los quentes em sacos plásticos

próximos às margens do Rio Harlem 

e eles me encontrarem lá

inchada da sua necessidade, 

você precisa de mim para estuprar no meu sétimo ano

até o sangue romper os cantos da minha boca de criança

e você explicar que eu estava sendo sedutora.

TODAS: Você precisa que eu imprima em nossos filhos

a destruição que nossos inimigos imprimem em você

como um caminhão Mack ou uma avalanche

destruindo nós dois

levando para casa o ódio deles

você está reaprendendo meu valor

em uma moeda inimiga.

III

EU: Eu desconfio da necessidade

Que tem gosto de destruição.

Eu desconfio da necessidade que tem gosto de destruição.

Quem sempre aprende a me amar

a partir da boca dos meus inimigos 

que caminha pelos limites do meu mundo 

como um fantasma em uma capa carmim 

e os livros de sonhos falam em dinheiro, 

mas meus olhos dizem morte.

A parte mais simples deste poema

é a verdade em cada uma de nós

para qual isto está falando.

Quanto dessa verdade eu posso suportar ver 

e continuar viva

não cega?

Quanto dessa dor

Eu posso usar?

TODAS: “Nós não podemos viver sem nossas vidas,” 

                 “Nós não podemos viver sem nossas vidas.” 

[1979]

——————————————————

Patricia Cowan, 21, espancada até a morte em Detroit, 1978.

Bobbie Jean Graham, 34, espancada até a morte em Boston, 1979. Uma das 12 mulheres negras assassinadas em um período de três meses naquela cidade.

“Não podemos viver sem nossas vidas”, de um poema de Barbara Deming.

Leia Também:

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A Transformação do silêncio em linguagem e ação

As ferramentas do mestre nunca irão desmantelar a casa do mestre


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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