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Qual o lugar da psicologia frente ao racismo?

“[…] uma das principais razões por que não sofremos uma revolução de valores é que a cultura de dominação necessariamente promove os vícios da mentira e da negação.” bell hooks (2017)

Por Lígia Santos Costa, enviado para o  Portal Geledés 

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Nem sempre a psicologia esteve voltada para as questões que afligem a grande massa. Considerada, por muito tempo, uma ciência a serviço de uma elite que fez, por muitas vezes, uso de suas técnicas, para a validação de diferenciações étnicas e sociais, para justificar o uso da força e para subjugar povos e garantir privilégios, ela alcança popularização quando passa a se interessar por assuntos que contemplam as necessidades sociais e isso significa olhar para fora da bolha. É meio aquela pessoa que acorda em um determinado dia e se dar conta de que o mundo não é morno, mas uma “chapa quente” que mais dia ou menos dia queima alguém e agora ela é a bola da vez. 

Acorda, minha velha, a chapa esquentou pra você! 

Voltar o olhar para os conflitos vivenciados pela grande massa popularizou a psicologia e também a salvou de permanecer como prática a serviço de um grupo fechado e privilegiado que não a sustentaria por muito tempo. Entretanto o caráter elitista da ciência que se propõe a tratar da subjetividade que é ser um humano ainda não foi perdido, cuidar das emoções continua sendo visto, por muitos, como um capricho desnecessário. Mas vale aqui o questionamento de até que ponto nós profissionais não estamos colaborando para manutenção desse status.

Mais especificamente, quero falar sobre o racismo. Quantos de nós levamos em consideração a fala de alguém que nos procura para falar sobre as feridas provocadas pela ação do racismo e que o têm impedido de continuar de forma plena o seu processo de desenvolvimento? Acolher demandas dessa natureza requer, inicialmente, que reconheçamos que lugar temos ocupado frente ao racismo, porque se esta não for uma questão que mobilize pessoalmente o profissional, possivelmente a sua intervenção será mais uma desastrosa manifestação do racismo estrutural, duvidando e desqualificando a dor do outro. Sílvio Almeida (2018) avança na discussão desse fenômeno quando o descola do âmbito individual, da concepção de que ser racista é uma atitude particular de um indivíduo de comportamento maldoso ou adoecido, quando afirma que o racismo é:

[…] uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. O racismo é estrutural. (ALMEIDA, 2018, p. 38)

Psicólogas (os) que não reconhecem o caráter estruturante do racismo, como uma dinâmica social a qual limita o acesso de determinados grupos étnicos às oportunidades, embasada nas polaridades históricas de superioridade e inferioridade racial, contribuem para a manutenção e fortalecimento de compreensões alienadas e práticas violentas. 

Costumo ligar o modo “mute” quando ouço um colega falando o quanto precisamos ser sempre compreensivas (os) e pacientes, independente da situação em que nos deparamos. Não! O que precisamos mesmo é nos indignar frente à violência de toda e qualquer natureza e isso inclui as ações provenientes do racismo.

Precisamos acolher quem nos procura e nos solicita uma condução profissional para que possa traçar novos caminhos e abandonar estradas que já não têm mais sentido na sua vida. Aí sim, é justa a atitude compreensiva e paciente frente àqueles que se desnudam de inúteis convenções e se permitem ser olhados em sua total humanidade. É essa humanidade a qual precisamos olhar com gratidão pela confiança e admiração pela coragem.

O silenciamento de pessoas que se apresentam como detentoras de valores democráticos, em face da ação violenta do racismo no faz crer que:

 

[…] a forte ligação emocional com o grupo ao qual pertencemos nos leva a investir nele nossa própria identidade. A imagem que temos de nós próprios encontra-se vinculada à imagem que temos do nosso grupo, o que nos induz a defendermos os seus valores. Assim, protegemos o “nosso grupo” e excluímos aqueles que não pertencem a ele. (BENTO, 2014, p. 29)

 

A resistência de um grupo de psicólogas (os) por reconhecer a legitimidade do sofrimento impingido à população negra pelo racismo é decorrência da limitação profissional deste, por não conseguir se desprender de alguns valores. A necessidade de manter, a qualquer custo, o pertencimento a uma identidade socialmente privilegiada pode estar comprometendo a capacidade de assegurar uma prática inclusiva e promotora do desenvolvimento de mulheres e homens em suas universalidades. 

Em tempos, quando a psicologia referendava normalizações, essa situação era subestimada a ponto de não ser considerada como um problema a ser discutido, entretanto na contemporaneidade, quando a diversidade assume lugar de destaque, olhares parciais vêem sendo confrontados e rechaçados. A disposição para o enfrentamento tem dado fôlego a profissionais, para assumirem métodos que objetivam por em xeque a herança excludente da psicologia, para exemplificar, destaco a atuação de psicólogas (os) negras (os) que têm estado dispostos, tal como aquilombados, a resistir e enfrentar o racismo, discutindo atitudes negligentes, desenvolvendo uma psicologia intitulada anti-racista capaz de reconhecer o caráter falacioso da democracia racial, entendendo que, verdadeiramente, mulheres e homens negros vivenciaram e vivenciam defasagens quando comparados a outros sujeitos não-negros, elaborando estratégias de acolhimento a sujeitos adoecidos, sejam eles os vitimados ou opressores, a fim mobilizá-los para o alcance de um estado saudável em sua totalidade.

 

REFERÊNCIAS:

 

ALMEIDA, Sílvio Luiz de. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

BENTO, Maria Aparecida Silva. Branqueamento e branquitude no Brasil. In. Psicologia Social do Racismo. Yray Carone e Maria Aparecida Silva Bento (Orgs.). 6. ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.  

hooks, bell. Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade. Trad. Marcelo Brandão Cipolla. – 2. ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.


 

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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