Realidade Nutricional dos Quilombolas

Nutricionista fica emocionada ao

conhecer a realidade dos quilombolas

Está em curso no país um estudo inédito sobre a realidade dos quilombolas. Trata-se da Pesquisa de Avaliação Nutricional, que é conduzido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), com apoio da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), da Presidência da República.

Em todo o país serão visitadas 173 comunidades quilombolas tituladas, localizadas em 55 municípios. Nessas comunidades, o estudo vai analisar o perfil nutricional de crianças menores de cinco anos de idade, além de avaliar a situação socioeconômica das famílias.

A pesquisa também vai investigar o acesso dessas comunidades aos serviços, benefícios e programas governamentais. A expectativa do MDS é que os resultados do estudo sejam divulgados em 2012.

A nutricionista Deise Pereira de Lima participou da pesquisa como entrevistadora, em uma das etapas em comunidades no Piauí e em Pernambuco.

A experiência marcou a pesquisadora, que escreveu um relato emocionado, enviado ao Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Veja, abaixo, a íntegra do depoimento:

A Pesquisa de Avaliação Nutricional em Comunidades Quilombolas, realizada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), se constituiu em uma experiência das mais importantes na minha vida.

O objetivo da pesquisa é conhecer a situação de segurança alimentar, o estado nutricional e o acesso a bens e serviços públicos das comunidades quilombolas tituladas.

A pesquisa é feita através de entrevistas com os comunitários e lideranças locais, bem como pela pesagem e medição das crianças menores de cinco anos. Tive a oportunidade de participar, como entrevistadora, de uma das etapas da pesquisa em comunidades de Pernambuco e do Piauí.

Chegando às vilas encontrei um cenário triste e sombrio. Vi pessoas em situação de extrema pobreza, lutando com todas as forças por uma sobrevivência quase instintiva. Famílias inteiras compartilhando um único propósito: obter o alimento para se manterem vivas.

Lutam dia a dia contra as adversidades do lugar em que nasceram: a seca, a escassez de alimentos, a dificuldade de acesso, a falta de oportunidades para o desenvolvimento.

Conheci uma gente que ‘sobrevive’ em condições subumanas, com muito menos do que o básico necessário; que tem como única fonte de renda o Bolsa Família, acreditando ser este uma bênção divina, porque não entendem sua situação de vítima de uma violência estrutural, fruto da injustiça social contra a qual militamos.

Ouvi depoimentos emocionados de mães que, na maioria das vezes, se privam do alimento para dá-lo aos filhos, e afirmam convictas que se não fosse o “dinheiro que o governo dá”, já teriam morrido de fome.

Diante deste cenário de miséria, de sofrimento estampado no rosto dessa gente, percebemos a distância que há entre o que ouvimos falar e o que vemos diante dos olhos. Faculdade nenhuma me ensinou, livro nenhum me mostrou com tanta clareza o que eu vi com meus próprios olhos: a fome e a miséria que ainda existem no nosso país.

É constrangedor perceber a frieza das estatísticas, quando transformamos os números em pessoas, quando vemos, bem de perto, vidas miseráveis, pessoas desnutridas, crianças famintas. Seres humanos privados dos seus direitos mais fundamentais.

A experiência no campo me fez repensar meu papel de nutricionista. Como falar de alimentação saudável a tantos que não têm certeza nenhuma do que irão comer amanhã?

Como falar em recomendações alimentares quando tantos estão sendo privados do direito humano à uma alimentação adequada? O sentimento que fica de uma experiência como esta é o de desafio, de compromisso.

Não há como ignorar. Não dá para se omitir. O desafio é enorme, o caminho a percorrer é longo, mas não podemos deixar esse povo continuar acreditando que seu destino é esse e que não há solução.

Não podemos deixar que tantas “Donas Marias” percam a esperança e a alegria de viver: “Minha vida é ir pra roça. Quando eu tô na roça me esqueço da vida, nem me lembro de casa. Só volto porque tem que voltar mesmo, é o jeito, né? A gente mora aqui mesmo, no meio do tempo…”.

Deise Pereira de Lima, nutricionista, residente em Saúde da Família na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

 

Fonte: Lista Racial

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