sexta-feira, novembro 26, 2021

Será que é castigo?

Quando a pandemia do novo coronavírus começou a ameaçar a sociedade brasileira surgiram vários discursos, provenientes de igrejas cristãs, atribuindo o pavor que a humanidade experimenta no momento a um castigo divino. Vários religiosos que seguem a mesma orientação teológica desse que vos escreve se empenharam a desconstruir essa narrativa tentando esclarecer que não é vontade de Deus castigar a humanidade de forma tão cruel. Primeiramente porque nos identificamos com a face de Deus apresentada no Salmo 102: “o Senhor é bondoso, paciente, compassivo e carinhoso”. Portanto um Deus com essas características é muito ágil pra perdoar e lento para castigar. Além disso, aprendemos do Novo Testamento que a vida de seres humanos jamais deverá ser dada como sacrifício depois de Jesus ter derramado seu sangue na cruz.

Isso não implica eliminar o castigo do horizonte da aventura humana, mas tão somente reconhecer que os castigos mais cruéis que a humanidade enfrenta não provêm de Deus, se não de nossa própria insensatez. Como bem dizia Albino Aresi, um frade franciscano que viveu no Planalto Central: “Deus perdoa sempre, o homem (seres humanos) as vezes perdoa, a natureza nunca perdoa”. Creio que, se é para concebê-lo como um castigo, é nessa perspectiva que devemos analisar a fúria do Covid-19 sobre a humanidade. 

Curiosamente a maioria das narrativas que viam a pandemia como um castigo vindo do alto assumia uma postura moralista, atribuindo-a a uma má conduta da humanidade no plano afetivo e sexual ou como consequência da incredulidade de muitos. Parece-me até uma ingenuidade apontar essas causas sem que elas sejam acompanhadas de outras de natureza ambiental, política, econômica e social.

Em se tratando do caso brasileiro, por exemplo, nós vimos centenas de médicos estrangeiros que atuavam no Brasil, atendendo regiões extremamente carentes de assistência médica, serem expulsos do país, pelo Governo de plantão, por motivo meramente ideológico. Atualmente vemos uma verdadeira mortandade de médicos e demais profissionais da área da saúde em consequência da pandemia. De maneira que o risco da população brasileira vir a padecer por falta de atendimento médico torna-se um fato, será que é castigo?

Parte da comunidade jurídica, nacional e internacional, afirma que o processo de Impeachment que interrompeu o curso da democracia brasileira em 2016 foi ilegítimo por não haver nenhum motivo jurídico e constitucional para efetivação do mesmo. É importante lembrar que tanto o processo de Impeachment quanto o processo eleitoral que o sucedeu para eleição presidencial foram conduzidos, descaradamente, por propagandas falsas nas redes sociais sob a vista grossa do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal Eleitoral. Agora que as falsas notícias atingem diretamente os membros da suprema côrte eles se veem na obrigação de abrir um inquérito contra as fake news, será que é castigo?  

Um dos principais argumentos para a ruptura do processo democrático, que se efetuou em 2016, era que o Estado estava falido e urgia minimizar ao máximo suas funções sociais, a ponto do Governo Temer aprovar a Emenda Constitucional no. 95/2016 que congelou os investimentos públicos em saúde e educação por 20 anos. O fato é que a pandemia veio provar que o Estado não pode ser tão mínimo assim, visto que a falta de investimento em saúde só contribuiu para o aumento do estrago que a pandemia tem causado no Brasil, será que é castigo?  

A grande mídia brasileira, que tem na Rede Globo de Televisão sua principal expressão, não se intimidou em usar o artifício da parcialidade midiática para golpear a democracia brasileira e hoje usa a pandemia como oposição a um governo genocida e autoritário que, de certa forma, constitui uma ameaça ao seu poderio midiático no país, será que é castigo?  

Não é minha intensão terminar esse artigo de forma tão pessimista, até porque eu prego um Deus que ressuscitou dos mortos. Podemos entender a crise como um estágio terminal, portanto, incapaz de evitar uma tragédia fatal ou como uma conjuntura de oportunidade, da qual podemos retirar algumas lições. Fica evidente que instituições como o legislativo e o judiciário não podem priorizar os processos político-partidários em detrimento do processo democrático da nação.

Por outro lado a população brasileira precisa despertar para o valor da democracia e definir princípios que consolidem sua identidade. É inconcebível que uma nação, democrática e que se diz cristã, se deixe seduzir por um discurso pautado no ódio, na violência e na mentira (fake news), colocando em risco o presente e o futuro de seu povo. Assistimos o ódio e a violência serem sarcasticamente usados como método de infantilização e manobra da sociedade brasileira, foi o que podemos presenciar por meio da massificação de frases repetidas, da divulgação de informações descabidas nas redes sociais e da propagação de gestos como o de fazer arminha com as mãos e etc. 

Depois dessa experiência, fica evidente que precisamos encarar os processos políticos de forma menos ingênua. A alternância no poder é salutar e necessária quando se dá dentro do curso democrático, quando é forjada por um consórcio de instituições, visando apenas os interesses de poucos, o castigo pode ser demasiadamente cruel e vir a sacrificar pessoas que não cometeram pecado algum. Precisamos entender, enquanto nação, que não são as instituições políticas que devem conduzir o povo, mais o contrario.  O preço dessa inversão é que, hoje, contemplamos o triste cenário de um país, de dimensão continental, sendo conduzido por uma política de morte em meio a uma pandemia devastadora. 

Frei Paulo Cantanheide

Pároco da Paróquia São Judas Tadeu – Goiânia e  professor da UEG, Campus Cora Coralina – Cidade de Goiás 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.
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