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“ All Eyez on Me”: Mano Brown, 2PAC e os ensinamentos da década de 1990

“ All Eyez on Me”: Mano Brown, 2PAC e os ensinamentos da década de 1990

Esse texto é dedicado “a toda comunidade pobre da Zona Sul”

Por  Jefferson Belarmino de Freitas para o Portal Geledés

Cresci em Taboão da Serra, São Paulo, na década de 1990. Naquela década, os Racionais sacudiram tudo. A ascensão começou com Raio X do Brasil, lançado em 1993, e se concretizou com “Sobrevivendo no Inferno”, que saiu em 1997. Depois que lançou este último álbum, o grupo “atravessou a ponte” de vez. Isso aconteceu, mais marcadamente, quando ganharam a cena nacional pelas vias da extinta MTV Brasil, recebendo o melhor vídeo de rap do VMB (Vídeo Music Brasil), em 1998. Até hoje assisto o vídeo daquela premiação no youtube, e ainda me emociono bastante com ele. Primeiro, porque nunca tinha visto negros brasileiros com tanto poder falando na televisão (sendo que dois desses negros eram das minhas imediações, e mencionavam lugares em que eu volta e meia batia uma bola); segundo, porque a frase do Brown, que agradece a sua mãe por ter lavado “muita roupa pra playboy pra fazer eu chegar onde eu to hoje” nunca saiu da minha cabeça.

Não é exagero: os Racionais realmente invadiram as nossas casas naquela época. Anos mais tarde, quando eu já era estudante de graduação na USP, estava nervoso com alguma coisa relacionada à vida universitária, para variar; e, como forma de desabafo, acabei soltando um F#@#P. Para a minha surpresa, a minha mãe, evangélica, que estava próxima de mim, completou o xingamento, brincando comigo: “comedores de carniça”. Dei risada e fiquei surpreso quando me dei conta de que até a Dona Nice, que não escuta “música do mundo”, conhecia a letra do clássico “O Homem na Estrada”.

Fato: gostassem deles ou não, as nossas mães conheciam os Racionais. Certa vez, em meu bairro, um jovem rapaz chamado Rogério foi assassinado por seu cunhado por causa de uma trágica briga de família. Logo, as mães da vizinhança começaram a espalhar que o finado Rogério fora mencionado em uma música que a molecada da área estava escutando. A música era o clássico “Fim de Semana no Parque”, que Brown ofereceu para pessoas como eu, ao introduzi-la com a célebre frase: “a toda comunidade pobre da zona sul”. O Rogério mencionado na música não era o mesmo que as nossas mães imaginavam; mas poderia sê-lo, tendo em vista toda a violência que, há anos, explode nos corpos negros das periferias do Brasil. Por sinal, já que falo da relação das mães com o rap, devo dizer que fiquei bastante triste quando soube que a Dona Ana, a negra rainha guerreira mãe de Brown, que representa tantas mães negras brasileiras, faleceu no final do ano passado.

Os Racionais me fizeram gostar de 2PAC. Quando os primeiros samplearam “Dear Mama” para cantar “Fórmula Mágica da Paz”, minha música favorita do grupo de rap nacional, tudo fez sentido para mim. Refiro-me à relação da pobreza com o racismo, ao papel das mulheres negras solteiras como sustentáculo das famílias, à exposição nefasta da população negra às drogas, ao tráfico e à vida carcerária, e assim por diante. Além disso, acompanhar a história de Afani Shakur Davis, mãe de 2PAC e ex-pantera negra (que, infelizmente, também morreu no ano passado, a exemplo da citada rainha afro-brasileira), é uma lição para todas e todos que de algum modo se comprometem com as lutas antirracistas. Por conta disso tudo, sinto-me na obrigação de afirmar o seguinte: quem considera o Mano Brown apenas um rapper “americanizado”, não sabe muito bem do que está falando, ou simplesmente não quer entender a sua paixão por 2PAC. Devo ser mais direto: não entende ou não quer entender as dinâmicas do racismo, porque é isso, em essência, que liga Brown a 2PAC. Fecha os olhos para esse fato, provavelmente, para continuar colhendo os seus privilégios sociais, bem quietinho; e, de quebra, para manter a pose de intelectual culto, que odeia tudo que vem dos Estados Unidos.

Algumas décadas se passaram desde os meus primeiros contatos com os Racionais nas ruas de terra do Taboão da década de 1990; e hoje, como estudante de sociologia, acontece de eu estar aqui em Berkeley, Califórnia, fazendo parte de meu doutorado; e, lógico, quando fiquei sabendo que um filme sobre a história de 2PAC já estava em cartaz, fui correndo assisti-lo.

“All eyez on me”, o tal filme, não me impressionou muito. É dramático demais, com pitadas de filme de aventura holywoodiano. Sua abordagem, aliás, lembra um pouco aquele péssimo longa da Globo Filmes sobre o imortal Tim Maia. Mesmo assim, garanto: o filme ainda consegue arrancar lágrimas daquelas e daqueles que, a exemplo de mim, gostam das músicas do rapper. É exatamente este o ponto forte de All Eyez on Me: os clássicos de 2PAC. A situação melhora ainda mais se a sala em que assistimos ao filme estiver equipada com bons alto-falantes – para além desse fator, o longa conta com um ator que dá vida a um Snoop Dogg bastante divertido.

Para quem nunca se deu conta disso, há um alerta essencial ao final de All Eyez on Me: 2PAC morreu assassinado com apenas 25 anos. Entretanto, não foi apenas quem apertou o gatilho na noite de 13 de setembro de 1996, em Las Vegas, quem o assassinou. 2 PAC contou com vários assassinos ao longo de sua curta vida. Ele foi pouco a pouco sendo assassinado pelo racismo; pelas gangues, que incorporam atitudes machistas nefastas para todo mundo (o estupro, por exemplo, é um dos temas tratados no filme, ainda que bem superficialmente); pela pobreza; pelo sistema carcerário estadunidense (racista ao extremo); pela corrupção policial; e também pelo apego ao consumismo como válvula de escape para os problemas. 2PAC morreu, em suma, por causa de uma intrincada relação entre raça, gênero e pobreza, ponto central que um filme muito voltado à aventura, e repleto de tiroteios, socos e pontapés, deixa escapar.

Mesmo com tudo isso, All Eyez on Me” me gerou algumas reflexões, que considero importantes – ao menos para mim: 1) de fato, as músicas dos Racionais marcaram a minha vida de um modo muito profundo, e, mesmo antes da sociologia, me ensinaram bastante sobre algumas dinâmicas da nossa sociedade; 2) de fato, gostar de 2 PAC, apesar de algumas reticências, não faz de mim simplesmente uma pessoa “americanizada”; basta considerarmos as desigualdades e as dores que Mano Brown conseguiu compreender na trajetória do cantor. Entretanto, isso não quer dizer que devemos deixar de refletir sobre algumas questões de gênero ligadas à misoginia, que Brown não quis e/ou não conseguiu retratar em suas letras; 3) de fato, temos uma dívida eterna com todas as nossas “queridas mães”, as quais, mais do que todo mundo, pagam pela relação entre pobreza, gênero e raça, quando tal elação acontece. Quase desnecessário dizer que a mencionada relação ganha vida, sobretudo, nas periferias: seja nos cantos da Baía de São Francisco, seja nos cantos da Zona Sul de São Paulo

Depois de assistir All Eyez On Me, quis deixar a branca e gentrificada Berkeley rapidamente (de acordo com o censo estadunidense de 2010, são 59% de brancos e 10% de negros ou afro-americanos morando na cidade); ainda mais quando cheguei em casa e um vizinho de prédio, que tem surtos mentais, começou a propalar palavras ofensivas contra negros e imigrantes, como de costume. Tal situação, a propósito, não é nada incomum de se encontrar pelas ruas da ensolarada Califórnia, nesses tempos em que os conservadorismos mais destruidores mostram as suas garras por todos os lados.

Para fugir disso, e conseguir manter algo de bom que o filme me passou, decidi ir correndo para a industrial Oakland, cidade ainda marcadamente negra da Baía de São Francisco (e que conta com uma periferia pobre para os padrões do país). Para quem não sabe, esse foi o paradeiro de 2PAC quando ele tinha 19 anos. Vindo da Costa Leste, o cantor morou em Oakland durante os seus primeiros quatro anos na Califórnia (de 1988 a 1992), momento em que a cidade era uma das mais violentas dos Estados Unidos. Assim, ainda embalado por suas músicas, tive a sensação de que por lá eu conseguiria encontrar a sua presença. Mas não qualquer presença, devo especificar; pressentia que em Oakland conseguiria encontrar a sua presença tal como eu a vi nos ensinamentos que os Racionais me passaram no Taboão da década de 1990.

No fim das contas, foi isso que aconteceu. Esse fato não é nenhuma novidade para quem, anos atrás, ainda nas ruas do Taboão, aprendeu com um rap nacional que, guardadas as devidas proporções, “periferia é periferia”.

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