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Angola e Moçambique Experiência Colonial e Territórios Literários

Resenha: Adriana Graciano
Rita Chaves é uma potente voz no cenário acadêmico brasileiro. Raríssima combinação de excelência tanto em sua prática docente quanto de pesquisadora reitera a relevância de seu trabalho e a agudeza de seus olhares no impecável Angola e Moçambique Experiência Colonial e Territórios Literários publicado pelo Ateliê Editorial em 2005.


A autora integra o corpo docente da Universidade de São Paulo onde leciona Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e dirige o Centro de Estudos Portugueses. Além de ser pesquisadora associada do Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Candido Mendes, também atuou como professora na Universidade Eduardo Mondlane durante dois anos. Sua obra inclui A Formação do Romance Angolano e a co-organização de Portanto… Pepetela, Literaturas em Movimento – Hibridismo Cultural e Exercício Crítico e Brasil/África: Como se o Mar Fosse Mentira. A breve, mas nem por isso menos precisa, apresentação de Benjamin Abdala Junior antecipa os pontos cardeais da trajetória percorrida pela professora Rita Chaves, partindo do título, mas ao mesmo tempo já estabelecendo uma comunicação com o interior da obra, o crítico convida:

Duas margens africanas, a Ocidente e a Oriente – Angola e Moçambique. Uma espécie de terceira margem brasileira, que se manifesta nas formas do imaginário das literaturas desses países. Territórios literários em processo de demarcação de fronteiras, que, desenhadas desde a experiência colonial, ultrapassam o espaço previsível de cartografias fixas. Em meio a evidência de múltiplas fronteiras culturais, pode importar para o leitor brasileiro visualizar aquelas que se abrem para nossa cultura. E poderá, então, nos ensaios de Rita Chaves reunidos neste livro, descobrir emblemas do que existe de Brasil nas literaturas angolanas e moçambicanas, e também como as culturas dessas nações africanas marcaram boa parte da maneira de ser do brasileiro, a partir do escravismo dos tempos coloniais.

A coletânea reúne alguns ensaios inéditos e outros já publicados em revistas e/ou apresentados em seminários e congressos. Na introdução, a pesquisadora explica que, cronologicamente, os textos englobam um trabalho ensejado no final dos anos 1980, quando os estudos das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa se intensificavam, despertando curiosidade e interesse naqueles que entendem a literatura como um caminho de busca de compreensão sobre a condição humana e identificam “na África matrizes do nosso patrimônio cultural.”

Ainda na introdução, a professora Rita Chaves faz uma auto-análise e elucida aquelas que, a seu ver, seriam as causas essenciais da falta de unidade do conjunto. Segundo ela, os textos foram gerados em ocasiões diversas, sendo alterados para abarcar novas reflexões. Muitos foram elaborados durante viagens de estudos a Angola e Moçambique, outros nasceram posteriormente, inspirados por materiais colhidos. O elemento de aproximação entre os trabalhos seria “a mesma vontade de compreender o universo africano, em especial as Áfricas que se materializam nas páginas das literaturas de Angola e Moçambique.” Outro ponto fulcral que permeia os ensaios é a relação literatura e sociedade e seus desdobramentos, tais como a memória, a experiência, o sentimento nacional e a relação com o Brasil, ou seja, o recorte histórico orienta as reflexões e análises da autora que igualmente busca um entendimento mais profundo e aguçado sobre as heranças deixadas por nossos antepassados africanos. A matéria por excelência destas “cartografias literárias” encontra-se nos diálogos travados entre a literatura e a História, nos questionamentos que elas suscitam, nas conversas que os escritores africanos engendram com suas biografias, com a história de suas nações e com a história da literatura.

Rita Chaves é uma “cartógrafa” competentíssima, percorre os caminhos apontados pelos romances e poemas, deslindando sinais e criando para o leitor um espaço de fruição mais apurado e contribuindo para o alargamento de seu campo de visão. A leitura de seu texto é uma viagem de encantamento e esclarecimento pelas Áfricas tornadas visíveis e consubstanciadas pelo exercício literário em sua sagrada e impressionante capacidade de dizer o indizível e traduzir o intraduzível.

As especificidades de cada momento histórico vão explodindo – ou implodindo – no interior dos textos literários, cabendo ao leitor perceber os diversos tipos de diálogo possíveis. Tal empreitada fica muito mais iluminada e intensa na companhia da professora Rita Chaves e seus mapas. Outrossim, abrir os sentidos para a África é, indubitavelmente, refletir acerca de nossa formação e idiossincrasias, buscando, a partir do estudo das semelhanças e dessemelhanças, uma melhor compreensão sobre nós mesmos. Nesta seara, a leitura de Angola e Moçambique Experiência Colonial e Territórios Literários faz-se tão imprescindível quanto uma bússola na travessia e exploração de terras ainda não mapeadas.

Inserido no movimento de renovado interesse pela expressão literária africana em Língua Portuguesa observado nos últimos anos, o trabalho da pesquisadora pavimenta trajetórias para um estudo vertical da história destas gentes, inspirando novos olhares e sugerindo paradigmas diferentes para o tratamento de questões basilares de nossa formação.

O livro está dividido em três partes intituladas Signos da Identidade na Literatura de Angola, A Poesia em Português na Rota do Oriente e Literaturas em Língua Portuguesa: A Utopia em Trânsito sob os Ventos do Império, respectivamente. No primeiro momento, como explicitado no título, Rita Chaves se debruça sobre a produção angolana a partir das vozes de autores como António Jacinto, Costa Andrade, Luandino Vieira, Paula Tavares, Pepetela e Ruy Duarte de Carvalho, com o objetivo de melhor entender algumas das linhas mestras e pilares definidores da literatura de Angola em sua intricada articulação com sua história.

Os oito ensaios que constituem este primeiro momento do livro são exemplos notáveis da capacidade analítica e da argúcia da literata. Passeia com respeito e reverência pelos diferentes textos e autores, elegendo companheiros de viagem tais como Arlindo Barbeitos, Antonio Candido, Perpétua Gonçalves, Alfredo Bosi, Russel Hamilton, Eric Hobsbawn, Michel Laban, Walter Benjamin etc. Esta polifonia empresta às suas reflexões um caráter vário e uma amplitude excepcionais. À sutileza de sua argumentação junta-se um instrumental teórico habilmente construído e lapidado pelos anos de pesquisa e descobertas generosamente partilhadas neste presente em forma de livro. Fundamental não apenas para os estudiosos da área, mas também para o público em geral devido ao seu caráter altamente instrutivo e à clareza e fluência da linguagem, o livro da professora Rita Chaves encanta ainda por seu cariz aprazível e muitas vezes lírico.

De uma perspectiva absolutamente subjetiva, ousamos eleger o ensaio sobre Ana Paula Tavares como um dos pontos mais altos desta primeira parte da obra. Parece-nos evidente que o exaustivo trabalho de pesquisa assim como a maravilhosa escrita de Rita Chaves não cabem em um mero esquema de hierarquização, o que seria quase ofensivo e pueril dada a qualidade dos textos. O procedimento justifica-se uma vez que serve o propósito de ilustrar com perfeição os comentários até aqui tecidos e os elogios feitos. Desde a beleza do título – A Palavra Enraizada de Ana Paula Tavares – até a sua conclusão na qual a metáfora da palavra enraizada é retomada como a fechar um ciclo, a trajetória proposta pela autora proporciona um misto de aprendizado e epifania. As reflexões ofertadas sobre o livro de Ana Paula Tavares, O Sangue da Buganvília, são de uma profundidade e sensibilidade ímpares, cumprindo uma função duplamente válida: por um lado, ampliam os horizontes dos leitores familiarizados com a produção da escritora angolana e por outro, despertam a curiosidade daqueles que ainda não tiveram contato com seu trabalho.

Um aspecto curioso e muito relevante sobre este volume em particular e que obviamente não passou desapercebido pelo olhar atento da professora Rita Chaves em sua análise refere-se ao fato de que, originalmente, as crônicas foram escritas para serem lidas em um programa da Rádio de Difusão Portuguesa com transmissão para os países africanos de língua portuguesa. Qualquer idéia pré-concebida sobre as escolhas de Ana Paula Tavares no sentido de que talvez a escritora tivesse sucumbido aos apelos da mídia massificadora ao eleger o rádio como meio primeiro de divulgação de seu trabalho e o fato de que optou pela prosa ao invés de retornar à poesia, forma com a qual havia estreado no cenário das letras e sabidamente uma manifestação por muitos considerada sem espaço em um mundo cada vez mais árido, é pulverizada pela leitura de suas crônicas. O ensaio da professora Rita Chaves, além de contribuir para que o véu deste pré-conceito seja levantado, também aponta possibilidades outras de leitura quando chama a atenção do leitor para o fato de que os textos, se lidos em voz alta, se transmutam, na medida que sua profunda conexão com a oralidade é exacerbada:

As crônicas de Ana Paula Tavares remetem, suavemente, à roda da fogueira, lugar de aprendizagem e crescimento na tradição africana. (…) Delicadamente, sua proposta confirma a viabilidade do rádio como uma atualização do tambor tribal, expressão utilizada por McLuhan, o famoso teórico da comunicação, para quem “o rádio é uma extensão do sistema nervoso central, só igualada pela fala humana”. (p. 119)

A voz que se desata em cada texto parece bem mais próxima da família dos narradores da tradição oral, convicta, portanto, do seu papel de matriz de ensinamentos, ainda que se permita confessar perplexidades impostas pela confusão ou pelo vazio da vida na sociedade balizada por valores quantitativos. (p. 118)

Outrossim, o brilhante ensaio estabelece conexões entre a prosa e a poesia de Ana Paula Tavares, ressaltando questões formais e temáticas que oferecem ao leitor uma variedade de direções a serem exploradas na viagem de descobrimento – ou redescobrimento – dos territórios percorridos pela escritora angolana.

Na segunda parte do livro Rita Chaves debruça-se sobre a produção lírica de Moçambique representada pelos poetas José Craveirinha, Eduardo White, Rui Knopfli e Carlos Patraquim. São quatro belíssimos ensaios e uma instigante entrevista realizada com José Craveirinha em 1998. Em seus percursos por essas áreas poéticas, a autora demonstra sensibilidade e sabedoria de viajante experiente capaz de conciliar em suas análises e reflexões um profundo conhecimento de teorias literárias e uma flagrante paixão pela poesia. A relevância e amplitude de seu olhar também decorrem das fecundas interlocuções com outras disciplinas tais como a História, a Psicanálise, a Sociologia e a Antropologia. Partindo dessa perspectiva pluralista, os poemas são vistos sob ângulos diversos e o leitor convidado a enveredar por caminhos mais enriquecedores e menos previsíveis.

Outras características louváveis do trabalho analítico da professora Rita Chaves são as aproximações que estabelece entre os autores sem, entretanto, reduzí-los a meros enquadramentos literários, destacando igualmente suas particularidades identitárias e especificidades individuais, ou seja, seu exercício comparativo extrapola a horizontalidade das semelhanças para também abarcar uma outra possibilidade analítica representada pela dessemelhança. Alinhavando todos esses predicados há-que se mencionar a apurada linguagem e as lindas metáforas que caracterizam a escrita da autora.

Dada a originalidade do formato e a qualidade e relevância das questões abordadas, a entrevista com José Craveirinha também representa um manancial de conhecimentos sobre Moçambique. O escritor responde as perguntas com propriedade, fluência e uma deliciosa pitada de humor. A leitura da transcrição da conversa deixa clara a sinergia entre os interlocutores – a entrevista foi realizada pela professora Rita Chaves e por Omar Thomaz, com a participação de Cris Bierrembach. Dentre os temas discutidos estão, obviamente, a importância e a influência do Brasil na vida pessoal e na produção literária do poeta e do país de modo geral assim como alguns curiosos dados da biografia de José Craveirinha que acabam se confundindo com a história do nascimento da nação. Outro destaque são as interessantes informações sobre a relação com o jazz e a literatura norte americana fornecidas a partir de uma sagaz pergunta sobre o cosmopolitismo de Moçambique. A animada conversa também envereda por temas mais prosaicos como aspectos da culinária moçambicana e a paixão do escritor por esportes, por exemplo. Através das várias faces de José Craveirinha – que se mostra um guia generoso e hábil – o leitor vai fazendo uma elucidativa viagem pelas várias faces do seu país.

O foco da seqüência final do livro são as relações literárias no universo da língua portuguesa. A partir de um recorte comparativista, a problemática das identidades, da utopia e dos diálogos entre a literatura considerada colonial e os projetos de literatura nacional são discutidos. Esses textos também são muito bem escritos, trazendo perspectivas articuladas e bem fundamentadas, seja através de pertinentes ilustrações oriundas dos trabalhos dos autores africanos em questão, seja através de inteligentes referências bibliográficas com as quais a professora Rita Chaves dialoga com profundidade e singularidade, contribuindo para um exercício reflexivo mais embasado para o leitor.

Novas vozes são convidadas a unir-se à autora nessa empreitada: estudiosos de renome como Carlos Ervedosa, David Hedges, Manoel de Sousa e Silva, Milton Gurán, Eduardo Correia de Matos etc e convidados célebres como Flora Süssekind, Karl Max e Friedrich Engels reiteram e renovam o cariz pluralista das análises da pesquisadora, ao mesmo tempo que tornam o itinerário proposto mais rico e impactante.

Nessa parte final do livro, chamou-nos atenção o segundo ensaio – Imagens da Utopia: o Brasil e as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa devido ao pungente ângulo eleito para orientar as leituras. Partindo do controverso e delicado tema do racismo, a autora exorta-nos a ponderar sobre as as relações entre a África e o Brasil, escolhendo caminhos menos óbvios e afastando-nos dos estereótipos que ainda hoje contribuem para a marginalização dos afro-descendentes na sociedade brasileira.

Sua cuidadosa pesquisa é evidenciada nos interessantes dados que vão sendo apresentados ao leitor. Dialogando com a História, esclarece aspectos sobre a importância do papel desempenhado pelo Brasil na história da formação de Angola, como é possível constatar nas palavras do historiador Luis Felipe de Alencastro:

Nesse livro que estou acabando, mostro como a pilhagem em Angola, na segunda metade de século XVII, foi feita por gente saída do Brasil. A destruição dos reinos africanos foi feita contra a vontade do próprio colonato angolano e da Coroa Portuguesa, que tinha ali uma política de feitorias e não queira encrenca com os reinos africanos. Essa gente saída do Rio, de Pernambuco, da Bahia os destruiu. Isso é importante para mostrar quanto é necessário fazer uma história extraterritorial, até do ponto de vista dos vencidos, porque estes não estavam todos aqui, não foram todos vencidos em território nacional. (p. 265)

Analisando estas informações à luz do capitalismo em processo de consolidação, conclui-se que, iniciadas sob o signo da violência, as relações entre o Brasil e os países africanos são mais complexas do que leituras superficiais podem levar a crer e merecem ser (re)estudadas para um entendimento mais profundo dos vínculos identitários que nos unem. Nessa viagem de (re)conhecimento e (re)descoberta, o trabalho da professora Rita Chaves faz-se tão essencial quanto uma bússola ao navegante.

À guisa de conclusão, vale discordar da auto-crítica elaborada pela autora na introdução do livro, na qual, como já exposto, aponta a falta de unidade do conjunto da obra. A unidade na diversidade resulta da coerência e coesão internas do texto, todo ele alinhavado com diligência e sensibilidade de quem aprendeu a transformar informações em conhecimento.

Referências bibliográficas:
CHAVES, Rita. A Formação do Romance Angolano. São Paulo: FBLP, 1999.
ERVEDOSA, Carlos. Roteiro da Literatura Angolana, 3 ed. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1979.
SECCO, Carmen, L. T. A Magia das Letras Africanas – Ensaios sobre as literaturas de Angola e Moçambique e outros diálogos. Rio de Janeiro: Quartet, 2008.

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