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Abraços que não incluem nem libertam: a realidade dos abraços morais

Abraços que não incluem nem libertam: a realidade dos abraços morais

Recentemente tem circulado uma campanha realizada pela Associação de Resgate à Cidadania pelo Amor a Humanidade (ARCAH), que mostra celebridades abraçando pessoas que estão em situação de rua.

Por Tulio Custódio, do Justificando 

A campanha, chamada “Nós”, na sua boa intenção, tem como objetivo “quebrar o preconceito em relação à causa, mostrando que, independentemente da identidade, da classe social, cor ou raça, somos todos são iguais” e também expressa que há entre as celebridades e aquelas pessoas “sonhos para o futuro, lembranças do passado e hobbies, entre outras”.

Como resultado, a campanha tem gerado um zum-zum tanto de apoiadores, quanto de críticos.

Minha intenção é expor um lado crítico também, não para desqualificar a campanha mas para mostrar como a sua intenção, de maneira menos explícita, está colada a uma perspectiva mais ampla de moralização da pobreza.

Moralização esta que se configura como uma consequência manifesta do neoliberalismo, vigente no sistema econômico, político e, claro, no nosso cotidiano.

A campanha expõe a conexão de humanidade entre pessoas tidas como celebridades e pessoas que estão, na perspectiva comparativa de sociedade, na margem da mesma. A premissa, nas entrelinhas, é que pessoas em situação de rua, categoria de indivíduos fora dos processos produtivos, têm sua humanidade negada, invisibilizada e são tidas como o “resíduo” da sociedade.

Muitas vezes aquilo que não se quer ver, aquilo que não se quer enxergar ou notar a existência. Por isso é necessário resgatar sua dignidade, e isso acontece por meio da representação das fotos de abraço.

Porém, como alguns críticos a campanha apontaram, uma falha evidente é, na tentativa de humanizar, nem citar o nome dessas pessoas nas fotos. Como nos lembra o movimento norte-americano #SayHerName, vinculado aos protestos do Black Lives Matter e oriundo das diversas não-nomeações de mulheres negras assassinadas pela polícia norte-americana, nomear um sujeito é uma das primeiras formas de humanizá-lo, reconhecer sua existência.

Ao colocar indivíduos nas fotos, mas não nomeá-los, invariavelmente estão reproduzindo um lugar de marginalização por não reconhecê-los.

A elite que financia a ong por trás dessa campanha, também faz uso dos seus nomes e sobrenomes para ocuparem os espaços que ocupam na sociedade brasileira. Se nomear não fosse um ato de poder, muitos inclusive não disputaram dar seus nomes para ruas, monumentos e museus.

Outra questão necessária de se apontar, mas menos evidente, é o sentido moralizante que carrega a campanha dos abraços. Abraço, nesse contexto, denota o envolvimento e conexão de um indivíduo reconhecido e bem sucedido com outro marginalizado e segregado. Apesar da boa intenção que carrega a campanha, conectada inclusive com a venda de produtos para reverter a verba ao projeto (“I believe in good people”), não podemos nos furtar de compreender que a realidade das pessoas em situação de rua têm a ver com problemas estruturais de uma sociedade baseada na desigualdade.

E essa desigualdade é reproduzida não apenas pelas decisões e caminhos tomados por governos e instituições, conduzidos por uma racionalidade econômica e ética voltada ao lucro máximo, mas também pela forma como essa mesma estrutura é absorvida pelos indivíduos no modo como conduzem suas vidas, ou pelo menos acham que conduzem.

Uma das características principais que determinam a vigência bem sucedida do neoliberalismo é a crença de que a liberdade é condutor máximo das escolhas e possibilidades dos sujeitos. Essa liberdade está atrelada a redução da ação e atividade do estado em relação a direitos e garantias mínimas ao bem estar, e a absorção de uma lógica empreendedora aos sujeitos, a partir da qual eles se tornam responsáveis diretos por empreenderem sua própria vida.

O Eu-S.A. se torna um modelo com o qual lidamos, aspiramos e nos frustramos, pois no momento em que somos responsáveis por todas as esferas de nossa vida, ainda somos dependentes de oportunidades, acesso e possibilidades que residem na dimensão estrutural, como educação, moradia, saúde, qualificação, território entre outros.

Nesse sentido – e desculpe campanha por contraria-los nesse ponto -, a liberdade e a igualdade efetiva é sim “dependente de classe social, raça, gênero, entre outros”. A liberdade no neoliberalismo é moralizada, acredita-se que cada um deve conduzi-la de modo como pode, em busca do sucesso. No entanto, por mais que essa liberdade (ou sua ideia) designe um lugar de origem ou pertença de igualdade, a condução efetiva e material não o é.

Portanto, não: não somos todos iguais – pelo menos não como deveríamos…

Quando arriscamos a dizer “independente de” – e isso é um problema geral, não da campanha – estamos aceitando uma falsa ideia (talvez romântica, porque nos conforta) de universalismo-isolante, pelo qual conseguimos dar conta das questões isolando fatores decisivos de pertença e experiência, como classe, raça ou gênero, entre outros. Sabemos que não é possível, e para endossar isso convido você (leitor) a uma observação “vulgar” (leia-se “não-científica”, mas fique tranquilo pois ela estará bastante representada nas estatísticas) pelas ruas para perceber a cor de quais pessoas estão em situação de rua, e/ou a cor dos corpos caídos no chão, em situação de mendicância, marginalidade e exclusão.

No mundo onde corpos e posições são materialmente determinadas pelas pertenças e experiências, o “independemente” depende muito de tudo isso. E a liberdade também… Depende.

Mas é preciso ir além na forma em como a liberdade é moralizada. A moralização da liberdade, somada a uma lógica de competitividade que impera nas relações entre os indivíduos (afinal, se você é responsável pelo seu próprio sucesso, você deve superar o outro que pode tomar o seu lugar), leva a uma relação entre ser bem sucedido X ser mal sucedido como uma condição moral.

Ou seja, seu lugar social de fracasso – pobreza, falta de condições, acessos e oportunidades – se torna consequência de suas má decisões individuais e não do sistema, estruturado na desigualdade e na precarização constante de mais e mais pessoas. Ora, mas o que isso tem a ver com um abraço?

É sobre o menos explícito, o não-dito mas que pode ser captado e trazido à superfície para nos ajudar a pensar sobre a forma como discutimos ou endossamos certas perspectivas de ajuda ou solidariedade. A conexão de humanidade sugerida pelo abraço é a de uma humanidade comparada entre indivíduos bem sucedidos e indivíduos invisibilizados.

A falta do nome deles nas fotos demonstra que ainda não são ou estão no status de seres visíveis e dignificados, apesar de serem o alvo da campanha.

A dignidade ali é “emprestada” através do abraço, como uma lógica aspiracional de contato que serve não apenas à projeção da caridade para com as pessoas em situação de rua, como também ao público que vai se conectar com a campanha, de modo que eles se aspiram no status de bem sucedido de indivíduo que as celebridades carregam.

Ou seja, a mesma ideia de campanha não teria mesmo efeito e sentido se fosse feita com uma pessoa qualquer, ou melhor, não reconhecida em sua existência como um ser bem sucedido. A celebridade faz esse papel.

O Abraço representa menos uma tentativa de humanização do Outro, como nós gostaríamos de acreditar, do que uma aceitação ao ideal de humanidade ou humanização específica. O abraço edifica um modelo normativo inspirado nos parâmetros de sucesso, pertença e, sem dúvida, uma estética a ser valorizada e transportada pelo abraço, tanto para o impactado pela comunicação, como pelos indivíduos-sem-nome colocados ali.

Compreendo que essa interpretação possa parecer muito distante ou abstrata. Mas ela fala de algo muito latente nas formas que interpretamos, em diversos debates e iniciativas, a forma de humanização e dignidade de indivíduos excluídos, seja de pessoas em situação de rua, seja dos pobres, moradores de favelas e comunidades, etc.

O ponto é que, no limite, a campanha não humaniza a pessoa em situação de rua, e sim enaltece a humanidade da celebridade.

Ou seja, temos uma inversão do pretendido, pois é a celebridade que tem sua humanidade celebrada, e, dessa maneira, a referência de humanidade é específica: bem sucedida, um ideal de beleza, realização e reconhecimento.

O que, portanto, significa incluir, quando estamos diante de modelos e paradigmas humanos marcados pela moralização de suas escolhas, ou do ganhador X perdedor como forma de ser e estar? O que significa ser digno em uma dimensão que é tratado como um problema de ordem do indivíduo e, no limite, as formas estruturais engendradas e reproduzidas por um sistema (amparado – e não criado – também no estado) cada vez mais excludente e alienante? São algumas questões que não fazemos.

Talvez porque, no fundo, acreditamos no poder reconfortante dos abraços. Abraços que não geram liberdade, muito menos nome na legenda. Vivemos uma era dos abraços morais.

Tulio Custódio é Sociólogo, curador de conhecimento Inesplorato, criador do Pitacodemia, membro do Coletivo Sistema Negro. 

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