Como mulheres escravizadas usaram o acarajé para conseguir liberdade na BA

Enviado por / FontePor Camila Silva, de ECOA

Originalmente feito com a massa de feijão-fradinho, cebola e sal, e frito no azeite de dendê, o acarajé, embora hoje seja uma espécie de patrimônio brasileiro, não nasceu aqui no país.

De acordo com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a receita tem origem no Golfo do Benin (sudoeste da atual Nigéria), na África Ocidental, e chegou ao Brasil no período da escravidão.

A bola de fogo da alforria

O nome acarajé é uma junção de duas palavras na língua iorubá: akará = bola de fogo e jé = comer, ingerir. Assim, acarajé significa “comer bola de fogo”.

No início, o acarajé não tinha fins comerciais, mas estava intrinsecamente ligado à fé dos escravizados africanos no culto dos orixás, em religiões como o candomblé, a umbanda e o vodum. É pela comida que existe a partilha, a homenagem e a comunicação com os orixás.

Aline Chermoula, professora e pesquisadora da cozinha ancestral afrodiaspórica, explica que aqui no Brasil essa dimensão do sagrado se amplia e o acarajé começa a ser uma comida de rua e ter fins comerciais.

É por meio da venda do acarajé, por exemplo, que muitas mulheres conhecidas como “escravas de ganho”, pessoas obrigadas pelos seus senhores a realizar algum tipo de trabalho nas ruas, vão conseguir sua própria alforria ou até comprar a alforria de outros escravizados.

De acordo com um dossiê do Iphan sobre a atuação das escravas de ganho, o acarajé também era usado para o fortalecimento das crianças e idosos doentes, em não era um alimento comum em classes mais ricas.

No Benin, akará. No Brasil, acarajé

No continente africano o bolinho de feijão fradinho é conhecido como “akará”. Ao contrário do consumo no Brasil, ele não é servido com acompanhamentos. A tradição de comer o acarajé junto ao vatapá, o caruru e camarão é criada aqui no Brasil em meados do século 20.

No Brasil, [o acarajé] foi feito de outra forma. Teve uma adaptação. Eu fiquei muito chocado a primeira vez, quando estive em Salvador. Eu vi um acarajé com muitas coisas por dentro. Eu experimentei e gostei muito. Queria comer mais. Mas, como beninense, sigo gostando do jeito que é feito no meu país

Lionel Honfin, artista visual beninense

O artista visual Lionel Honfin mora há 11 anos no Brasil é um dos personagens da série “Origens – Um chef brasileiro no Benin”, na qual o chef João Diamante narra a sua jornada pelo continente africano em busca de entender melhor como a culinária de lá está relacionada com a história do Brasil.

A tradição é a essência do acarajé

A Bahia foi o estado que mais recebeu negros escravizados da região do Golfo do Benin e, hoje, é o mais negro do Brasil. Lá as mulheres que vendem o acarajé ficaram conhecidas como baianas do acarajé. Em 1992, a Abam (Associação Nacional das Baianas de Acarajé) foi criada e é a responsável pela manutenção do modo tradicional de fazer o acarajé, além de compartilhar o seu significado histórico.

No Brasil como um todo, hoje há outras instituições baianas do acarajé que tentam manter viva a tradição. No país, desde 2005, o “Ofício das Baianas de Acarajé” está inscrito no Livro dos Saberes como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

“O acarajé é bem singular. E quando ele se torna um patrimônio imaterial é um reconhecimento da nossa luta do povo negro no Brasil”

Aline Chermoula, professora e pesquisadora

+ sobre o tema

Veto Já! Contra o golpe em nossos corpos e direitos

Contra o retrocesso, o racismo, a violência e Pelo...

“Fui modelo na Europa, fiz sucesso no Brasil e hoje vivo em Buenos Aires”

"Nasci no ano em que a grande cantora Angela...

estilista baiana, Mônica Anjos, apresenta sua nova coleção em São Paulo

Bazar VIP será promovido, neste sábado dia 9, para...

para lembrar

10 Mulheres Negras no mundo da tecnologia

Com a estréia da 4ª parte da emblemática série...

Cientistas negras brasileiras são homenageadas em novo livro de passatempos do “Meninas e Mulheres nas Ciências”; baixe

No dia nacional da Consciência Negra, professoras e estudantes da UFPR...

Espelhos de água e boa sorte

De Conceição Evaristo vem o ensinamento: “Vi só lágrimas...

A mulher negra em lugar de liderança

Ouvi da embaixadora dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU,...
spot_imgspot_img

Estudo mostra o impacto do fator racial materno no desenvolvimento infantil

O ganho de peso e o crescimento dos filhos está diretamente relacionado ao fator etnorracial das mães. Isso é o que mostra uma pesquisa desenvolvida pelo Centro de Integração de Dados...

Mulheres pretas e pardas são as mais afetadas pela dengue no Brasil

Mulheres pretas e pardas são o grupo populacional com maior registro de casos prováveis de dengue em 2024 no Brasil. Os dados são do painel de...

Esperança de justiça une mães de vítimas da violência policial no Rio

A longa espera por justiça é uma realidade presente entre as mães de vítimas da violência policial do Rio de Janeiro. Deise Silva de...
-+=