quarta-feira, agosto 17, 2022
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Conexões Geledés: o que aprendemos com organizações de mulheres negras?

Em 1992, na República Dominicana, aconteceu o Primeiro Encontro Latino-Americano e do Caribe de Mulheres Negras. Ali foi estabelecido o 25 de julho, data que também homenageia Tereza de Benguela, como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. O encontro, que reuniu 300 mulheres de 32 países, teve como cerne de sua pauta a criação da Rede de Mulheres Afro-caribenhas e Afro-latino-americanas. Dentre os objetivos da rede, como descreveu Catalina González Zambrano, estavam: “trabalhar de maneira conjunta para elevar a condição da mulher negra; denunciar as formas de discriminação; gerar e apoiar ações em busca da identidade da mulher negra numa perspectiva de gênero; promover o intercâmbio de informações e de experiências entre integrantes da Rede e outras organizações; promover a participação política da mulher afro-caribenha e afro-latino-americana”.Aqui, iniciamos essa conversa chamando atenção para o fato de que as redes de mulheres negras atravessam o tempo, nos “ensinando a transgredir” – tomo de empréstimo aqui a tradução do

título de um dos livros de bell hooks – e a reposicionar as narrativas que ocultam nossas trajetórias enquanto sujeitos históricos.

Conhecer esta história de construção de saberes e fazeres políticos de mulheres negras brasileiras, latino-americanas e caribenhas é um dos caminhos fundamentais para garantir o direito à nossa memória, do povo negro, das mulheres negras, das tradições e conhecimentos construídos ancestralmente. E nos garantem sobrevivências, formas de existência e a possibilidade de recusar digerir memórias que não nos colocam como herdeiras e herdeiros de povos com protagonismo histórico.

Retroagindo alguns anos na história do Brasil, verificamos que a década de 1980, contexto de redemocratização do país após o período truculento da ditadura militar, foi marcada pela efervescência dos movimentos sociais que vinham se configurando desde o final dos anos 1970. Inseridos nessa conjuntura, emergiram pelo território nacional organizações e coletivos de mulheres negras pautando, politicamente, “suas próprias questões”. Em 1979, foi fundado o Coletivo Aquatune e em 1982, o Coletivo Nzinga, ambos no Rio de Janeiro. Já em 1986, nasceu o Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista, e no mesmo ano, no Maranhão, o Coletivo Mãe Andres. No ano de 1987 foi a vez do Coletivo Mulheres Negras do Espírito Santo, fundado em Vitória, e também do Coletivo Maria Mulher em Porto Alegre. Em Belo Horizonte, em 1987, surgiu o Coletivo Mulheres Negras. Na Bahia, em 1992, emerge a ONG Mulheres Negras e, no mesmo ano, a ONG Criola no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, em 1988, foi fundada Geledés, que teve em seu cenário de concepção a atuação de dez mulheres negras. Conforme documentado em ata: “às dezesseis horas do dia trinta de abril de mil novecentos e oitenta e oito, à Rua Jorge Utsumi, 40 – Vila Sônia – São Paulo – Capital”, aconteceram, através de Assembleia Geral convocada, a fundação, a aprovação dos Estatutos e a eleição da Diretoria de Geledés – Instituto da Mulher Negra.

Mulheres da Trajetória de Geledés – da esquerda para a direita: Eufrosina (Lola) Tereza de Oliveira, Sônia Nascimento, Aparecida Inês Pereira Santos, Sueli Carneiro, Solimar Carneiro e Nilza Iraci. Praça Carlos Gomes (localização da antiga Sede de Geledés), São Paulo-SP, 1990/1991. Fonte: Acervo Digital do Centro de Documentação e Memória Institucional de Geledés.

Com 34 anos de existência, Geledés é parte da história que narra o protagonismo e o ativismo político das mulheres negras no Brasil. Como parte de uma conjuntura de vanguarda política de mulheres negras, o Instituto Geledés, nome que faz referência as organizações religiosas femininas da cultura iorubá, em que as mulheres são reverenciadas e cultuadas como as grandes mães, desenha sua missão institucional tendo como base o posicionamento “em defesa de mulheres e negros por entender que esses dois segmentos sociais padecem de desvantagens e discriminações no acesso às oportunidades sociais em função do racismo e do sexismo vigentes na sociedade brasileira”.

Diante da oportunidade de ter pesquisado parte da trajetória de trabalho das mulheres de Geledés, especificamente entre os anos de 1988 e 1995, trago para nossa conversa aqui reflexões que nos permitem destacar o trabalho da Organização. Tanto nos enfrentamentos políticos demandados pelo cenário da época, quanto nos desdobramentos daquilo que os projetos desenvolvidos pelo Instituto nos trazem hoje como conhecimento acessível, que é parte das nossas ferramentas de sobrevivência, escrevivências (conforme nos ensina Conceição Evaristo, na prática, em suas obras), rupturas e práticas políticas.

Como exemplo dessas formas de difusão do conhecimento e, ao mesmo tempo, organização para dialogar com as demandas e ações  políticas, é importante citar a produção dos Cadernos Geledés, que foram cinco no total, publicados entre 1991 e 1995. Os Cadernos, que compõem importantes fontes históricas, em seu conjunto, contemplam as temáticas relacionadas à Saúde da Mulher Negra (primeira publicação no Brasil que tratou exclusivamente do tema), Discussão sobre Pena de Morte e conexões internacionais feitas para o debate e avaliação de uma década da trajetória dos feminismos no Brasil, que compunha a organização da delegação Brasileira para a Conferência de Beijing, de 1995. 

Os primeiros programas que direcionavam, no período inicial (1988), as ações de Geledés eram: Programa de Direitos Humanos, Programa de Saúde e o Programa de Comunicação. Ao Programa de Direitos Humanos vinculou-se o serviço de Assessoria Jurídica em Casos de Discriminação Racial – SOS Racismo -, que além do atendimento para os casos de racismo, foi um programa que elaborou importantes estratégias desafiadoras junto ao poder judiciário para a criminalização do racismo no Brasil. 

Geledés, assim como outras formas de organização de mulheres negras, latino-americanas e caribenhas, nos possibilita aprender que coletivamente construímos aquilo que nos é de direito e desconstruímos aquilo que não nos representa. Mais do que uma ideia de homenagear, neste 25 de julho, as trajetórias de algumas dessas redes femininas negras que se formaram ao longo da história dos povos da diáspora negra, as linhas escritas aqui se conectam para postular pretensiosamente a suspeita de que são essas diversas experiências e práticas que têm a nos ensinar. Inclusive, a lidar com esse cenário político caótico em que nos encontramos. Elas nos ensinam sobre o fazer coletivo, sobre realizar, sobre estratégias e continuidade da luta. 

Assista ao vídeo da historiadora Suelen Girotte do Prado no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

Ensino Fundamental: EF05HI07 (9º Ano: Identificar os processos de produção, hierarquização e difusão dos marcos de memória e discutir a presença e/ou a ausência de diferentes grupos que compõem a sociedade na nomeação desses marcos de memória); EF09HI22 (9º Ano: Discutir o papel da mobilização da sociedade brasileira do final do período ditatorial até a Constituição de 1988); EF09HI24 (9º Ano: Analisar as transformações políticas, econômicas, sociais e culturais de 1989 aos dias atuais, identificando questões prioritárias para a promoção da cidadania e dos valores democráticos); EF09HI25 (9º Ano: Relacionar as transformações da sociedade brasileira aos protagonismos da sociedade civil após 1989); EF09HI36 (9º Ano: Identificar e discutir as diversidades identitárias e seus significados históricos no início do século XXI, combatendo qualquer forma de preconceito e violência).

Ensino Médio: EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos); EM13CHS601 (Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país).


Suelen Girotte do Prado

Professora, Mestra em História Social pela PUC/SP e Coordenadora do Centro de Documentação e Memória Institucional de Geledés

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